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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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terça-feira, setembro 28, 2004

FIM-DE-ANO EM GUPIARA




             Os sinos da igreja tocam: blemblemblém, blemblém. E os presépios são armados nas casas de Gupiara, com a presença do velhinho de barba branca. A alegria das criancinhas na festa magna da Cristandade, os cartões correndo soltos dos correios às residências. E as poucas árvores enfeitadas com bolas coloridas. Tudo era motivo para uma festa maior.
             Aquela fase, meu filho, podia ser a melhor do mundo. Gupiara enfeitava-se, as pequenas lojas alegravam suas vitrines.Parecia ser uma louvação à inocência daquele bondoso povo.Os habitantes mais aquinhoados gastavam aos montes.E o ritual falava mais alto pra banda de seus arredores.
             Mas, nos arrabaldes próximos dali, não existia o ímpeto que se observava no centro da cidade. Muitas vezes nas cercanias e povoados vizinhos, crianças não tinham do que se alimentar.Os casebres eram tristes e escuros.Aquela gente às vezes passava fome de verdade.
             Então, meu filho, pensei comigo: que disparidade! E concluí com tristeza nos olhos: todos vêm ao mundo para viver, embora a maioria vegetasse na imundície. Precisávamos dar a parte que cabia aos outros. Acho que o humano não existe, o que conta mais é uma tapeação.
             Gupiara sabe disso, você também, meu filho. Mainhô e Tia Chica devem saber. Todos estão errados, o mundo está errado.A verdade é um sonho.As pessoas também o são. Eu e você... Daqui mais algum tempo Gupiara talvez nem exista.
             Blemblemblém, blemblém... Meia-noite e missa rezada na pequena igreja. O padre a dizer uma verdade mística. E um desafio para rapazes e moças que namoravam, apenas namoravam. Poucos rezavam de verdade, muitos parodiavam de mentira. Naquelas circunvizinhanças tudo se mesclava de ambigüidades.
             Os sinos repicavam e as árvores surgiam belas, aparentemente belas. Fim de ano todos se congratulavam a espera de dias melhores. Dias que nunca chegavam, intermináveis dias principalmente para aquele povo pobre.
             E assim Painhô costumava filosofar: meu filho, o homem é inimigo dele mesmo, somente prevalece o interesse e a vaidade em si próprio. Veja esse imenso descampado, e apontou em direção ao infinito. Quão gigantesca é a natureza!, disse. Mas, o ser humano é bem pequenininho, diminuto mesmo.
             Juro que saí dali convencido que tudo e todo esse festejado não passava de uma ficção. Meu pai sabia das coisas.



ESPAÇO LIVRE


SEQUÊNCIAS E CENAS ANTOLÓGICAS



             Þ A seqüência de Os Pássaros (Hitchcock, 63), quando os mesmos atacam um posto de gasolina, com a câmera vista de cima e mostrando a visão das aves. É um soberbo momento cinematográfico.
             Þ A cena do assassinato no banheiro de Psicose (Hitchcock, 60), com a câmera explorando os cortes rápidos, numa montagem insólita.
             Þ A seqüência do sonho em Morangos Silvestres (Bergman, 57), com todos os traços característicos de um pesadelo, condicionando o filme a partir daí.
             Þ Toda a seqüência final de imagens em O Eclipse (Antonioni, 61), filme que relata a incomunicabilidade e a ambigüidade existente entre os seres humanos.
             Þ A seqüência inicial de Ama-me esta Noite (Mamoulien, 32), com o batuque de sons anunciando a chegada do cinema sonoro.
             Þ A seqüência final de O Baile (Scola, 83), com o bar fechando e os atores saindo um a um de cena. A dança coletiva de momento terminou, mas a vida continua. Foram trinta anos de história da França contados em uma única noite. Uma obra-prima do cinema.


Bené Chaves



sábado, setembro 25, 2004

NOITE DE SÃO JOÃO



            Era noite de São João em Gupiara. Foguetões, traques, fogueiras incendiando, arraiás festivos. Houve até uma 'quadrilha' no pequeno salão meio improvisado nas imediações. Os festejos iniciaram. Tudo ao redor virou imensa festa.
            Chamaram um tal de Zé Molenga que, apesar do nome, cantou e rodou feito um pião. Avalie você se ele não tivesse tal apelido... Teve casamento e tudo, o forró solto na saleta e na alegria dos participantes. Esse violonista lembrou Painhô, pois manejava as duas mãos com facilidade. Era também ambidestro, igualzinho a ele.
            Mainhô, filho, não quis afoitar-se, ficou em casa mesmo com Tia Chica, aquela sua pança crescendo sempre e quase pertinho de parir. Seria uma temeridade, inclusive pra você, lógico, se ela fosse dançar a noite toda.
            Evidente que São João não era uma festa alinhada, o povo dançava forró mesmo na rua, com hiato e tudo. E meu pai cansava de ver a animação pra riba.A fogueira queimando os pés e as labaredas esquentando o vento.
            Ele disse? Disse sim senhor! Você será meu compadre? Oba!... oba! Quem mandou?
            Painhô conseguiu uma parceira e foi o noivo daquela festança que iniciara.Dançou a noite toda, acho, pois não me contou tudo direitinho. Claro que não iria contar.Apenas me disse que o chato do irmão da noiva ficou assediando os dois.
            Alguém, então, gritou do salão: homem de um lado, mulher do outro, juntar, cruzar, trocar, juntar de novo. Epa! A animação fez esquecer tudo, os instrumentos soltos no ar. Viva o noivo, viva a noiva! E os corpos das pessoas iam animando hora a hora, minuto a minuto.
            Portanto, foguetões clarearam o céu, as crianças brincando com 'peido-de-velha', 'cobrinhas', 'rojões', 'estrelinhas'e etc. A inocência nas suas caras. Rostos de brinquedos.
            Sei não, mas tenho ligeira impressão que deva existir alguma convivência, continuou meu pai. Hipotética versus real. E quando saí vi cinzas espalhadas na fogueira, últimas lembranças da noite de São João. São duas festas com resquícios iguais no nome. Fim de ano x meio de ano. Gupiara pensara assim.
            Ah, a madrugadinha apareceu e o santo confirmou: ligeireza dos homens se metendo nos matos com suas companheiras. Parece que não suportavam a quentura do ambiente. Mas, aquilo tudo era uma estratégia. Uma bela estratégia!
            Ali na estrada, meu filho, falou ele, vi labaredas fervendo o tempo. Gupiara me pareceu bonita. Nos morros uma cor avermelhada subiu e fumaças juntavam-se às nuvens. Supunha-se um lusco-fusco fora de hora.
            No salão o baile acabara. E meu pai contou ainda que moças e rapazes juntaram seus rostos e talvez também seus corpos. Na simetria própria entre os dois sexos. A festa depois caducou, vislumbrei somente fiapos afligindo o santo de temperatura elevada.
            Painhô, então, disse: no sertão, onde nasci e aqui em Gupiara, o povo acredita nos sentimentos humanos. Ou acreditava.




ESPAÇO LIVRE


SEQUÊNCIAS DE CENAS ANTOLÓGICAS (5)


            Þ A seqüência do estupro em "Rocco e seus Irmãos" (Visconti, 60), desde o ato em si, até o final da briga dos dois irmãos nas ruas desertas do lugarejo.
            Þ A cena de "Cantando na Chuva" (Kelly & Donen,52), com Gene Kelly dançando(e cantando) na chuva, num dos momentos antológicos do filme.
            Þ A seqüência dos espelhos em "A Dama de Shangai" (Welles, 48), em outro soberbo instante cinematográfico.
            Þ A cena da morte da cachorra Baleia em "Vidas Secas" (Nelson P. dos Santos, 63). Autenticidade e perfeição elevando o filme ao clímax.

Bené Chaves



terça-feira, setembro 21, 2004

VIDA A DOIS


            Minha mãe casou-se bem novinha, com apenas dezessete aninhos. Em plena efervescência juvenil. E comentavam que era uma moça linda. Parece que eu puxei a ela, pois falam que sou uma pessoa de belo porte. (Fico grato no que estas palavras dizem respeito a mim). Portanto, Mainhô estava em plena floridade, para usar aqui um neologismo.
            Naquele tempo era meio difícil as moças se aquietarem no lugar. O clima quente da região também favorecia tal comportamento.E ficavam logo com medo do caritó, praga que persegue algumas até na atualidade, o que é uma grande besteira. Mas, seria o costume de uma época.
            Painhô foi o contrário, divertiu-se quando solteiro e tinha vinte e oito anos quando casou. E isso porque ele inventou de 'bulir' com minha mãe. Azar ou sorte dele, não sei, ele que me conte depois essa historinha. Mas, o termo 'bulir' era engraçado, porém em voga no período, disse-me certo dia. Se você 'comia' uma mulher, não usaria nunca esta palavra, pois seria uma aberração.
            Creio que atualmente não se 'bolem' mais com as mulheres. E todos devem saber o vocabulário certo nas suas conquistas. Existem inúmeras designações para tal uso.
            Meu pai me falou que algo lhe chamou a atenção no seu relacionamento com Mainhô. O algarismo seis. Pois, então, namoraram durante seis meses, casaram em um dia seis, tiveram seis filhos e até a igrejinha do casório tinha o número seis na sua fachada como identificação. Juro que vi este algarismo pregado na parede, dizia ele.
            Na época proibiam tudo, comentou minha mãe.Você sabe, meu filho, cidade com menos gente o falatório corre solto. Porém, as desgraças só acontecem no dia. Era jovem, podia ter aproveitado melhor a idade.Sei que o tempo não espera nada. E seu pai apareceu naquela hora. Quando chega o momento, tudo se revela e não se revela, pois a existência sabe e dita as mudanças, dizia ela, meio filosofando.
            A lua surgiu e iluminou o terraço. Longe dali, mulheres e homens saíam às ruas para olhar o bonito anoitecer. Gupiara enfeitou-se. Ficavam todos com cadeiras e redes nas varandas e se deliciando com o crepuscular acontecimento.
            Tia Chica gritou da cozinha que a janta já estaria servida. Painhô depois apenas observou a lua diminuir de tamanho. As ruas ficaram escuras, ouvia-se o zumbido das cigarras e as sombras das árvores afugentavam poucas crianças que brincavam ao derredor.
            Ele me disse que se fixou no horizonte e sentenciou: o que existe mesmo é uma mistura de misticismo versus ceticismo. A vida é uma mesclagem!, falou interrogativo, como se estivesse conversando somente para si.
            Sei não porque Painhô disse isso, mas pareceu-me que nesta noite os dois estavam querendo apenas meditar sobre nossa existência.



ESPAÇO LIVRE



SEQUÊNCIAS E CENAS ANTOLÓGICAS (4)

            Þ Toda a seqüência inicial de "Amor Sublime Amor" (Robert Wise & Jerome Robbins,61), belíssima história narrada através da música e da dança.
            Þ A cena de "O Grande Ditador" (Chaplin, 40), onde o famoso cineasta imita Hitler e brinca com o globo simbolizando uma dominação do mundo.
            Þ Toda a seqüência final de "2001: uma odisséia no espaço" (Kubrick, 68) e seu questionamento filosófico.
            Þ A cena final de "Os Brutos também Amam" (Stevens, 53), com o apelo do menino para seu herói não ir embora.

BENÉ CHAVES



quinta-feira, setembro 16, 2004

ONDE NASCEU PAINHÔ



             Foi numa fazenda, perto de uma aldeola conhecida como Pinga-Pinga, que meu pai nasceu. Apesar do nome deste pequeno município quase não pingava coisa alguma, principalmente água. Acho que deram tal designação na esperança de que realmente houvesse uma força estranha da natureza ou algum efeito psicológico sobre sua denominação.
             Mas, ali ficava a casa velha, dona de todos os pequenos trilhos que passavam rasteiros pelo caminho seco e ávido de umidade, para reforçar a expressão. Apesar de tudo, lugarzão bom esse, cheio de ares, modos!
             E meu avô sempre falava que era uma delícia ver aquele mundo parado, as estrelas a sorrir, o pequeno gado no curral, quieto, escutando nosso silêncio. A rede na varanda, o corpo velho e enfadado, a livre inquietação dos pássaros.
             Olhar esta terra tranqüila, escura e calmosa.Acho que somos felizes, sem preocupação, na nossa espontânea firmeza de serenidade. E uma aparente alegria dentro de nós, dizia enfim.
             Pra banda de fora, o vento surrava a areia esturricada e dava um banho no curral, cobrindo as bostas e descobrindo um cheiro de fazenda, cheirão de merda de boi, custoso. Mais das vezes sem incomodar. Anestesia de vaqueiro, segundo meu pai comentava. E as criancinhas nos arrabaldes rolando no chão pouco enlameado e fugindo de responsabilidades. A idade era todo prazer.
             Deram o nome de Ferrões àquela pequena fazenda. Vidona de gente analfabeta e sem costumes. Mas, sobretudo, um povo bom, amigo, sem hipocrisia. Painhô dizia que o sofrimento traz tristeza, mas aquele povo, apesar das dificuldades, não era triste. E acrescentava: filho, quando você crescer saberá medir valores intrínsecos.
             Dentro de uma filosofia toda particular, falava ainda que era lindo ver um menino com um infinito campo para correr, tornar-se adulto com sentimentos e razões inerentes a ele mesmo. Eu cresci, filho - e olhava uma vastidão à sua frente -, dando vazões para um mundo justo, liberto. Essa tal de liberdade vem do berço, o primeiro passo do homem, finalizava então.
             Naquele alto sertão, estradas sem fim, retirantes se assustavam com conversas sem entendimentos. Lá longe, ruídos penetravam entre brechas e todos silenciavam. A lua, cheinha de iluminação e imaginação, ditava as normas.
             Painhô era algo especial para aquela gente.Suas frases causavam efeitos e má compreensão nas pessoas simples e crédulas que não aprenderam nada. E aos poucos ele parecia também querer ensinar seu modo de vida.


ESPAÇO LIVRE


SEQUÊNCIAS E CENAS ANTOLÓGICAS(3)


             Þ A bela seqüência final de "Deus e o Diabo na terra do sol" (Glauber Rocha, 64), com enfoque especial para a canção do Sérgio Ricardo (melodia) e letra do próprio cineasta.
             Þ A cena final de "O sétimo selo" (Bergman, 57), onde os personagens da trama são carregados pela temível Morte.
             Þ Toda a seqüência inicial de imagens de "Cidadão Kane" (Welles, 41), em uma atmosfera nitidamente expressionista. É um começo arrasador!
             Þ A cena de "Depois do vendaval" (Ford, 52), com o espanto do velho quando se depara com a cama desfeita e quebrada: "impetuoso, homérico!".

Bené Chaves



domingo, setembro 12, 2004

A PRIMEIRA VEZ DE MAINHÔ



            Foi justamente com meu pai, claro, que Mainhô deitou pela primeira vez com um homem. E ela, com toda certeza, deixou de ser moça, pois iniciava uma trajetória de constituir uma grande família. Só que Painhô, hum!, já devia ter começado e iniciado seus arroubos sexuais há muito tempo. Certamente teria sido com uma daquelas sertanejas boas de raça e sedentas de calor. Apesar do tempo forte lá em Ferrões.
            Ou então - quando rapazinho - se atreveu no traseiro de alguma jumenta, perto daqueles roçados e cercanias.O que era comum entre os vaqueiros da região. Já que as moças se faziam de supostamente difíceis, o jeito que tinha era procurar satisfação em caminhos não tanto agradáveis.
            Quem contou as peripécias foi Painhô mesmo, na noite silenciosa e com leves ruídos na escuridão. Imagine!... até Tia Chica ficou escorada no balcão da janela. E, então, ele disse, todo ancho da vida:
            "Era uma noite, parece, de lua cheia, as nuvens cobriam pouco a pouco um céu meio azulado. Dava uma aparência que ia chover, porque o quarto escureceu de repente. Levantei-me -depois de um bom sono - e fui à sacada da janela vislumbrar o acontecimento. Quando voltei, minha companheira ainda dormia agarrada ao travesseiro. Fui ao seu encontro e deitei juntinho dela para acordá-la. Ela remexeu-se com preguiça e puxou-me para seu lado. Ficamos ali quietinhos horas e mais horas, nossos rostos colados um ao outro".
            Parou um instante com se quisesse tomar fôlego. E continuou meio envaidecido:
            "Alegre e mostrando felicidade ao redor de si, sua mãe, meu filho - e me olhou piscando o olho de contentamento -, ergueu-se e levantou-se contente da vida. Estava radiante, sem acreditar, e foi tomar seu banho natural. Ninguém a detinha, talvez levasse com ela o fruto de uma existência".
            Prosseguiu com sobriedade e distinção:
            "O tempo voltou a piorar e a lua tinha sido encoberta. As nuvens tomavam conta de tudo e eu temia uma arbitrariedade daquela ocorrência quase inusitada. Daí resolvi encará-lo e deixar minha companheira na ventura acontecida. Olhei ao redor e vi uma vida mesclada, aquelas pessoas numa formalidade de afazeres, gesticulações de incertezas, gente andando e sendo fustigada, olhares atônitos e atônicos".
            Parou um pouco, disse que ficou alguns momentos na chuva e depois voltou ao quarto, onde a parceira ainda dormia ao sabor de seu deslumbramento. E falou: "sim, meu filho, você foi gerado naquela ocasião, tenho quase certeza. É por isso que estou lhe contando o sucedido".
            Não sabia ele que Tia Chica ficara escondida no parapeito e com certeza ouviu o relato desse pequeno e feliz episódio quando Mainhô sentiu as delícias do prazer pela primeira vez.
            Levantou-se e se dirigiu ao aposento, pois sua mulher já dormia fazia algumas horas. Tivera uma bruta dor de cabeça que disse infernizar-lhe as têmporas.
            Eu não falei que se chovesse ou não, tivesse lua cheia ou nova, fizesse sol ou noite estrelada Painhô era um danado?! E antes de entrar vi somente o vulto da preta velha correndo para não ser apanhada em flagrante.




ESPAÇO LIVRE


SEQÜÊNCIAS E CENAS ANTOLÓGICAS (2)


            Þ A seqüência de "Um Corpo que Cai"(Hitchcock, 58), desde o início da transformação de Judy em Madeleine, até a troca de beijos do casal, com a câmera giratória mostrando a fusão de imagens intercaladas à ação.
            Þ A cena final de "Oito e Meio" (Fellini,63), com a estupenda partitura musical de Nino Rota dando relevo maior ao clima da ciranda da felicidade.
            Þ A longa seqüência inicial de "Hiroshima meu Amor" (Resnais, 59), com mais de cinco minutos de inventiva e transgressora narrativa cinematográfica.
            Þ A cena rápida de "Rastros de Ódio" (Ford, 56): a porta que se abre e fecha no final é toda uma síntese da mitologia do gênero.
            Þ Do sofrimento e da dor surgem o prazer e o gozo (a bela suíça Irène Jacob em "A dupla vida de Veronique", Kieslowski, 91), talvez numa das mais belas cenas que vi nos últimos anos. É impressionante: ela sai do pranto e entra num estágio de êxtase, dando seguimento ao desfecho de um orgasmo delirante.


BENÉ CHAVES



quarta-feira, setembro 08, 2004

PAINHÔ


            Meu pai era um sertanejo brabo e, paradoxalmente, manso ao mesmo tempo. Ele tinha esta peculiaridade. Vivia dizendo que a vida no campo era a saúde do corpo. Então, de manhã cedinho saía galopando o cavalo pampa e corrigindo as coisas do meu avô. Seguia pro curral, segurava aquela bonita vaca pelo laço e depois prendia o filhote bezerro perto do peito da mesma.
            Ali, ele tirava algumas poucas latas do leite morno e espumante e enchia copos e mais copos, depois distribuindo nos arrabaldes, aquela população agradecendo sua generosa atitude.O que sobrava dava pra encher a pança dos que moravam na fazenda.
            Ele era feliz e sabia que era. Sou um sujeito simples e sem lengalenga, costumava falar. As pessoas gostavam dele, principalmente aquelas mocinhas que viviam à cata de um marido pra arrumar suas vidas.(Mas aí já existia um certo interesse, menos pelo que possuía e mais pelo belo porte de masculinidade).
            Meu avô não tinha muito, mas o pouco que tinha ajudava muita gente. E essas coisas no sertão são de grande valia para todos.
            Porém, depois Painhô pegava seu chapéu de couro e se metia no mato em busca de serviço. Eu gostava daquilo, dizia ele sorrindo.Acho que foi nesse período que Painhô começou a tocar violão. Embora com a sequidão quase cruel, imaginava o gado pastar livremente. E as bostas das vacas caírem em abundância naquela terra, dando adubo pros terrenos sedentos de água.
            Após tomar uma coalhada gostosa feita mesmo pela mãe, dele, lógico, sentava-se na pequena varanda e, antes de cantar algo, soltava um arroto de desprendimento, mansidão e olhando aquela imensidão. Os cantos melódicos e às vezes românticos enchiam o corpo de todos de um prazer incomum. Ladrões inexistiam, a violência não campeava e, portanto, a noite seria nossa.
            Meu avô dizia pra Painhô que macho que é macho tem de provar de vários melaços. Pra saber o melhor e ficar comendo, completava, desviando o olhar de sua mulher.Meu pai, então, atiçou:

            Aqui neste sertão
            Mulher é feito pilão
            Sem tripa sem tudo
            E também sem coração.

            Painhô lambeu os beiços e passou a língua entre os dentes, entrecortando uns acordes e fixando repentes:

            Minha mãe brigou comigo
            Só por causa de uma urupema
            Quanto mais se ela visse
            Meu namoro no cinema.

            A lua surgiu e desapareceu, a noite ficou melancólica. Ele olhou ao redor e disse: tudo na vida gira em torno dos dois sexos: o feminino e o masculino, claro. E ultimou: é uma tamancada de vida! Seguimos o rumo da existência, cônscios ou não de nossas obrigações, completou.
            Não sei porque falou isso, porém falou. Era assim mesmo, cheio de improvisos.
            Levantou da cadeira, deu boa-noite e foi dormir. Amanhã cedinho reiniciaria novas tarefas.



ESPAÇO LIVRE

CINEMA

SEQUÊNCIAS E CENAS ANTOLÓGICAS(1)

            Þ A cena na escadaria de Odessa no filme soviético "O encouraçado Potemkin", de S. Eisenstein (1925).
            Þ A seqüência final de "A Doce Vida"(Fellini, 1960), com a podridão de um mundo ruim sobrepujando a inocência no rosto suave da menina-moça.
            Þ A cena final de "Luzes da Cidade"(1931), de Charles Chaplin, quando a florista reconhece no seu protetor a figura do vagabundo. É de arrepiar!
            Þ A seqüência inicial de "A Marca da Maldade"(1958), com todo o movimento e inquietação da câmera.

Bené Chaves



domingo, setembro 05, 2004

MAINHÔ



Gupiara a cada dia tornava-se uma cidade de bem (ou mal?) sucedidos negócios. Homens gananciosos apareciam, queriam munir-se, intrometer-se e tomarem conta da província. Primeiro, porque só pensavam em ganhar rios de dinheiro.Segundo, não respeitavam ninguém nos supostamente escusos contatos. E aquilo ia seguindo uma tendência de apodrecer suas possíveis dignidades.

Meu pai não disse nada acerca de tudo, mesmo porque, acho, estaria com intenções de também usufruir de um pequeno comércio. Mas somente se fosse algo justo, pois, pensava, sobretudo, na família. Em mantê-la com honradez de homem vivido no sertão. Nada que depreciasse sua integridade.

A versão de que pretendia ficar rico por conta dos diamantes explorados, não passava de pura especulação.Inclusive todos os fatos não foram mais do que uma lenda, mesmo Tia Chica tendo declarado o contrário. Era a sua fantasia, a nossa fantasia. O sonho de Gupiara.

Mas, naquela tardinha, caía uma neblina e refrescava um pouco o parco jardim da casa de Mainhô. As nuvens medravam, o sol murchava e as flores desprendiam.A folhas, alegres, remoçavam. Pingos d'água intumesciam. E das telhas desciam apressados, respingando sobre a terra molhada. Ruídos aumentavam depressa.

Um enorme relâmpago clareou a casa e assustou minha mãe. E eu fiquei com um bruto medo de que ela não abortasse devido ao susto, claro, pois estava ali dentro da barriga dela. Tumultuou mais ainda quando um estrondo pipocou, causando medo naquelas duas frágeis criaturas. Elas se agarraram como crianças.

Ao escurecer o inesperado temporal passou. Então minha mãe lamentou aquela meleca da chuva.Os últimos resquícios escorriam, o sol transpunha o círculo, a noite surgia bem viva. E as nuvens fugiam ante a presença soberana da lua.

Mainhô abriu a porta e sentiu um sorriso no ar, agradecida. As escassas rosas soltavam perfumes, as raízes fortaleciam. Tia Chica enxugou o alpendre cantarolando algumas canções. E então as duas desfrutaram daquele prazer, a fragrância invadindo seus corpos.

Na cidade onde nasceu, Mainhô me contou, tempos depois, que algo semelhante teria acontecido. Choveu bastante e um estranho aroma invadiu narinas inteiras, hipnotizando um povo crédulo. Era um fenômeno raro, meu filho, não se soube de nenhuma explicação. Talvez tenha sido somente um sonho.

Um tal de Nhozé, continuou ela, conhecido cantador da região, juntou a cambada toda e gritou:


Povo sofredor não desespere
Enquanto houver vez você espere
Um dia há de chegar
E todos estaremos por lá
Onde quer que se vá


Era um homem negro, alto, muito magro. Remexia e esfumaçava. Parecendo até que o cheiro daquelas rosas tivesse tido influência direta nas suas cantorias. E ele levou horas seguidas, entrando pela madrugada adentro. Deu chapinhada no quengo.

Porém, quando Mainhô quis continuar, notou que eu já adormecera no seu colo de mãe.


ESPAÇO LIVRE


O poeta Horácio Paiva(RN) enviou este poema inédito. Compartilho com os leitores:

NA TORRE AZUL

Moro numa torre azul
e tenho o mar ao meu lado
não aos meus pés.

Do alto posso contemplar
dois mistérios
dois caminhos infinitos
e paralelos:

a praia de curvas ondulantes
e a rua de asfalto negro.

O primeiro leva a Netuno
e às vastidões oceânicas.

O segundo, a Plutão
e aos seus domínios subterrâneos.



quarta-feira, setembro 01, 2004

PRIMEIRO MÊS DE VIDA



        Neste 01 de setembro o nosso blogue faz um mês de existência. E queremos agradecer aqui aos leitores blogueiros ou não que sempre comparecem com comentários generosos, críticos e gentis acerca dos assuntos relatados. E muito especialmente agradecer à minha querida amiga Mariza Lourenço, poeta e advogada que preparou esta página com dedicação e carinho. Ela é mestra e expert – todos nós já sabemos disso - nessas vivências internáuticas. Pra você Mariza, o meu mais terno e eterno agradecimento.
        Outrossim, temos pressentido que algumas pessoas não dizem nada quando adentram, seja n’O Apanhador de sonhos ou, cremos, em outros sites. De nossa parte acreditamos com certeza que o simples ‘marcar presença’ é de enorme valor para nós blogueiros. Que ele, o leitor, não tenha vergonha de opinar, seja sem-vergonha mesmo. No bom sentido, lógico.
        Afinal de contas, devemos aos que nos visitam o sucesso ou não dessa caminhada. E abonamos também que um número maior de pessoas com ‘presença assinalada’(ou apenas uma simples referência) é de valor essencial para a permanência de nossas atividades.
        Enfim, o meu muito obrigado a todos.




OUTRAS EMBOLADAS




        Meu pai me contou que na cidade onde nasceu os estrondos eram maiores do que em Gupiara. Quando raramente apareciam os trovões mexiam a terra. Imagine você que um dia o solo balançou como se fosse abrir. Nossa-Mãe-de-Deus!, não quero nem pensar, dizia ele esfregando as mãos. Pois bem, as coisas eram assim ao contrário, igualzinho a hoje em dia.
        Na seca brava todos morriam de sede, porém nas enxurradas morriam afogados. Não dava pra entender tudo. E aquele povo nunca era satisfeito. As intempéries não vinham aos poucos, chegavam, isso sim, em farturas. Juro não ter visto gente pra sofrer mais do que aquela. Pobres-coitados! Qualquer dia mato a saudade e vou rever o que restou dali. Triste sina...
        Os olhos de Painhô se encheram de ágrimas. Tinha lembrança das coisas. Era um sujeito bom. Mas, o que foi, foi. E o coração dele batia alto. Acho que tinha sentimento demais para um mundo de perversidades, preconceitos, traições e, sobretudo, desamor. Queria amar a todos e principalmente amar as mulheres. Disso não arredo pé, meu filho, vem aqui do meu íntimo, do meu gene, dizia com certo orgulho.
        No mato longe, as cobras rastejavam inquietas e galhos eram pisados pelos cascos dos pampas. Nuvens cresciam, escureciam, voltavam a clarear. Raízes apareciam timidamente e a terra floria novas esperanças. As faces, em curtos momentos, se tornavam menos tristes.
        Do alpendre, encostado na barriga da mulher (e com Tia Chica a preparar suas iguarias), Painhô pegou o violão e começou a ditar suas modinhas:


        Saco bisaco bisaco saco de chumbo
        Chapéu de coro é corumba
        Macaxeira do Pará
        Nego danado nunca diga que me deu
        Pois você brigou mais eu
        Quase morre de apanhar
        Eu dou na testa dou na venta e no olho
        Que o nego fica zarolho
        Com vontade de chorar.


        E continuou depois o estribilho:


        Ai ai ai ai Maria
        Ai Maria
        Maria é meu amor


        Vendo que minha mãe começou a verter lágrimas de tanto rir de suas estranhas cantorias, dedicou esta ‘quadrinha’ pra ela e alisou-lhe o cabelo:


        Mulher dos olhos d’água
        Não olhe pra mim chorando
        Que a rua não está cheia
        Nós estamos namorando


        E voltando com o estribilho, abriu um longo sorriso, gritando pra dentro da casa quando sentiu o cheiro mágico vindo de lá:


        Ai Tia Chica você é nosso amor
        Sai do sereno qu’este sereno faz mal
        Amor sereno. Serenamor.


        E como a noite já estava ficando tarde, no dizer do povo, levou o estribilho e mudou as palavras:


        Ai ai ai Gupiara
        Ai Gupiara
        Você é meu amor


        Acho que meu pai extrapolou de cansaço nesta noite, a lua ficando do tamanhinho de nada e quase um ponto no espaço. Tenho a impressão que ele foi dormir mesmo. Soube depois pela preta velha que não se ouviu um gemido no quarto.
        Mas, que ele dormiu abraçadinho com minha mãe, ah... disso tenho certeza.


ESPAÇO LIVRE




Divagando...


        Dizia o poeta e escritor austríaco Ernst Fischer que “em um mundo alienado, no qual unicamente ‘as coisas’ possuem valor, o homem se torna um objeto entre objetos: o mais impotente, o mais desprezível dos objetos. Eles têm mais força do que os homens”. E em razão disso, acrescenta com lucidez: “a arte é necessária para que ele, o homem, se torne capaz de conhecer e mudar o mundo”.


Bené Chaves