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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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quinta-feira, junho 30, 2005

VIGÉSIMOS SÉTIMOS ALUMBRAMENTOS


Estava, portanto, eu ali, procurando me insurgir contra aquela combatível organização e camada social suja, às vezes dolosa. Participava, em parte, da mesma, mas nunca deixei de vê-la com olhos desconfiados, porque supunha acreditar que era um corpo associativo falso, somente vivendo de aparências, retaliações, ganhos, fuxicos e rabugices. Poucos se incluíam fora dessa qualidade ilegítima. E muitos políticos de minha cidade... Ah!, os políticos... Nem pensar, como são reles!(Gupiara, quão bela e ingênua eras tu pra ter suportado tamanho suru!). Mereciam um capítulo à parte.

Mas, eram iguais entre os outros, faziam acordos e conluios, acertos e desacertos. Imitavam admiradores e também desafetos. Viviam numa gangorra entre si e seus pares. E no final de tudo sobrava inteirinho para a população, embora os sobejos da politicalha fossem degustados com avidez, porque a demagogia dessa gente não tinha limite, moldava-se na enganação. Sabia que a política era uma ciência séria, sem meios escusos, uma arte estratégica de bem dirigir e conduzir o povo. Porém, a maneira hábil de agir da maioria dos astutos mandatários nada tinha com a modalidade aplicada. Alguns, logicamente, como foi dito e repisado aqui, cuidavam mais de seus bolsos e projetos pessoais do que dos interesses da comunidade. Inclusive porque eu já iniciara os passos, a saber, que a grana era e é a mola-mestra que rege o mundo e também as vantagens materiais de quem detêm o poder, daí trazendo uma hipotética felicidade para poucos e uma verdadeira miséria para outros muitos.

Era a dura realidade da ambição, do bem-estar individual. E por que não dizer de uma safadeza inerente? Portanto, a tolerante e inocente Gupiara estava sendo tragada pela tramóia dos que ali ordenavam, me deixando desgostoso e infeliz, pois tinha consciência da solércia e sôfrega corrente implantada. Também... A ignorância e suprema precisão da maioria abriam caminhos... Não existia nenhum interesse em educar ou melhorar as condições dos que viviam à margem de um sistema perverso. Seria o ditame de uma vida infame!, costumava eu exclamar e reclamar. E, decerto, uma ilusão a mais e outra esperança a menos.

ESPAÇO LIVRE




ALGUMAS TRILHAS SONORAS FAMOSAS...


Nino Rota no filme OITO E MEIO, de Federico Fellini
Henri Mancini em A MARCA DA MALDADE, de Orson Welles
Allain Romains na fita MEU TIO, de Jacques Tati
Elmer Bernstein em O HOMEM DO BRAÇO DE OURO, de Otto Preminger
Nino Rota no filme ROCCO E SEUS IRMÃOS, de Luchino Visconti
Victor Young em OS BRUTOS TAMBÉM AMAM / SHANE, de George Stevens
Dimitri Tiomkin na película MATAR OU MORRER, de Fred Zinnemann
Nino Rota no filme A DOCE VIDA, de Federico Fellini
Victor Young em JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray
Anton Karas em O TERCEIRO HOMEM, de Carol Reed
Bernard Herrmann no filme PSICOSE, de Alfred Hitchcock
Charles Chaplin em LUZES DA RIBALTA, de C. Chaplin
Maurice Jarre em A FILHA DE RYAN, de David Lean


BENÉ CHAVES














































sexta-feira, junho 24, 2005

VIGÉSIMOS SEXTOS ALUMBRAMENTOS


Depois dos acontecimentos e desfechos amorosos volto-me para o colégio e suas atividades estudantis. Fundei, juntamente e com a aquiescência de alguns amigos, uma espécie de agremiação para debates e ajuntamento de opiniões, onde discutíamos, inclusive, principalmente sobre cinema, essa maravilhosa arte da magia que encanta a todos. Ou a quase. E parece-me que a finalidade precípua era estudar matérias e livros relacionados com aquele mundo mágico.Seriam, posso assim dizer, os passos iniciais de um aprendizado. Também aproveitando a boa vontade dos diretores do colégio, abrimos espaços, nos sábados à noite, no auditório local, onde passamos a exibir filmes que julgávamos importantes para uma iniciação cinematográfica. E, evidentemente, os que estariam disponíveis, visto que ainda era difícil uma programação satisfatória para estes lados de cá de nossa ainda querida Gupiara.

E foi aí, nesta pequena sala de reuniões de pais dos alunos que nós éramos, que continuei junto com amigos a ver algumas fitas de valores indiscutíveis, na minha condição, claro, de jovem ainda inexperiente. Foi aí que vi pela primeira vez um filme que me encantou bastante e creio que também à platéia presente ao local. Quando terminou a última cena de Umberto D, todos se levantaram e bateram palmas, acho que foi uma opinião unânime sobre a película de Vittorio De Sica abordando o neo-realismo italiano. E outras exibições aconteceram no período, lógico que nem sempre de boa qualidade, visto a enorme dificuldade de se trazer obras-primas naquele comecinho de nossas atividades estudantis. (Em outro capítulo falarei ainda sobre tal assunto). Portanto, dali surgia ou prolongava-se o início de uma outra paixão. Uma paixão diferente, pela arte cinematográfica, que às vezes imitava a vida ou vice-versa.

Então, mãos à obra... Na classe onde estudava, esboçava e divulgava um jornal-mural com notícias variadas, brincadeiras ou orientação sobre assuntos pertinentes aos colegas. E semanalmente eram expostas, na frente da mesma, também aquelas crônicas ditas como fundamentais para um melhor conhecimento. Lógico que eu me fazia acreditar feliz, pensava em um mundo melhor, talvez fosse um idealista a dar minha modesta e útil contribuição. Conluiado com outros, óbvio, inventariava meu desejo de mudança e invulnerabilidade.

Assim tentava me definir como um sujeito pacato e voltado para a normalidade e maturidade, adentrando em situações que se diziam instáveis e adequando para que se tornassem sólidas. Tive toda uma vida de bons costumes e sabia, desde muito cedo, que seria preciso lutar contra o que restou das cavernas, daquela brutidão e brusquidão, de homens hipócritas e desonestos, de uma ancestralidade desconhecida, talvez vulgar. E como eu pensava e idealizava muita coisa na pós-puberdade, uma idade que você raciocina querer transformar o mundo, ficava com meus conceitos teóricos para uma possível modificação de tudo.

Porém, foi mais outra ilusão que verifiquei depois de algum tempo. Poder-se-ia, então, dizer que era o progresso junto com o egoísmo e individualismo continuando no seu firme objetivo de impulsionar maiores problemas sociais e motivando também a indiferença. E isso se deve as muitas exceções do ser (dito) humano que se julga com o direito de barganhar suas ações ilicitamente.

ESPAÇO LIVRE


TIRANIA



O povo é um ovo.

Quebradiço
redundante.

Na esperteza
estrutura
do sujo poder.

E o poder pode
acalenta garras
dolosas.

A irrupção de
forte domínio.

O ovo na
visão
cisão.

Bené Chaves




domingo, junho 19, 2005

VIGÉSIMOS QUINTOS ALUMBRAMENTOS


Meu namoro com Rosilda terminou sendo um rabisco amoroso de limitadas pretensões. Embora também reconheça que foi a melhor de todas as anteriores, notadamente no quesito referente a um relacionamento sexual. Só aquela ida à praia mostrando seus atributos físicos e os banhos demorados em pleno mar revelaram-me um enorme prazer. Talvez isso se deva à sua idade já em boa efervescência pós-juvenil. E tentando pôr um fim aos questionamentos de sua vida iniciada parece-me com precocidade. Acho que ela era avançada para a época, não ligando muito aos apelos de seus pais para coibir, segundo eles, tais abusos.

Gostava de ler e tinha uma certa sensibilidade do que acontecia ao seu redor, achando, inclusive, que tudo estava errado. Às vezes discutíamos aspectos relacionados à nossa existência. Sendo uma garota inteligente, creio que seguiu um belo caminho nas suas sempre contestatórias ações. Nunca mais a vi e fico aqui com enormes saudades daquele tempo, um período que sei jamais voltará. E ela sabia, pensava assim, que poderíamos ter sucesso na nossa prematura ligação afetiva, mas sua meta principal seria a independência que começava a clarear naquela altura.

Tenho consciência da infalibilidade e sedução das mulheres. Elas ditavam (e ainda ditam) se queriam esse ou aquele homem, a iniciativa partia do encanto ou tesão que sentiam. E, diante disso, era verdade que as próprias detinham o poder da conquista. Diferente de alguns homens ditos públicos, naturais ou não de Gupiara, que possuíam mais o poder da corrupção. Estava aí, portanto, um dos grandes contrastes entre os lados evidentes e opostos, suas rivalidades de decisões. Contudo, poderia também se dar o inverso, no caso da capacidade de barganha ou persuasão.

Porém, quanto ao aspecto sentimental, bastava um simples olhar de desejo e os chamados machões caíam nas suas armadilhas, principalmente daquelas lindas mulheres. Apenas com um piscar de soslaio e um sorriso nem tanto sincero, faziam os homens declararem seus ímpetos apetites. Já a recíproca, infelizmente, não era verdadeira, a inversão, pouco provável. E eu estava atento a tais acontecimentos, pois tivera experiências, apesar de poucas, nada salutares. Claro que gostei delas todas. Reviveria, sem titubear, novas ocorrências. O conjunto de transformações de um ser de ter e de suceder fazia meu momento.

O sol já não batia tão forte em Gupiara. As fumaças que subiam junto com manchas escuras de fábricas recém chegadas, poluíam o ar de uma atmosfera meio sinistra e deixava rastros doentios na população da periferia. A lua, que antes luzia com raios penetrantes, parecia tímida quando saía de seu esconderijo. Não era mais a lua de Gupiara de antigamente, quando Painhô sentava na sua rede e começava a balançar o violão para encantá-la e também a todos nós. Ela teria ficado pálida e triste ao pressentir que meu pai não mais cantou para si.

ESPAÇO LIVRE


DIVAGANDO...



· Vejam que primor de texto dito pelo personagem e crítico De Witt (vivido pelo ator George Sanders) no filme A malvada : Nós temos em comum... desprezo pela humanidade, incapacidade de amar ou ser amados, ambição insaciável - e talento. Merecemos um ao outro.
Não calharia extraordinariamente bem se saísse da boca de um desses sujos políticos (e homens públicos) em confabulações com seu interlocutor? Ou, no caso, em especial, uma interlocutora?

· E também para nos auxiliar a palavra sempre sensata de Antonio Vieira, que desde os idos do século XVII ficou famoso pelos lapidares depoimentos sobre o ser humano. Acerca dos ditos e indignos representantes do povo, eis o que dizia o abnegado padre: Tempos houve em que os demônios falavam, e o mundo os ouvia; mas depois que ouviu os políticos ainda é pior mundo.
Sem comentários, sem comentários...

Bené Chaves



terça-feira, junho 14, 2005

Compartilho hoje com vocês do conto O Bolo, que faz parte de meu livro Castelos de Areiamar, lançado em junho de 1984. E em conseqüência dele ser um pouco longo o Espaço Livre voltará na próxima postagem.

O BOLO



Subiram no palanque...
Luzes distribuídas e olhares de sorrisos. O homem levantou o braço direito dando um soco no espaço nu. Vislumbrou uma multidão incalculável e começou a falar:
-Povo de minha terra: sou, a partir deste momento, candidato pela vontade soberana desta querida gente. Sinto que vocês não estão satisfeitos com a situação atual e venho, na hora justa, protestar contra esse estado de coisa. Teremos de derrubar o governo pseudodemocrático que comanda o país, e só podemos fazê-lo com o apoio de vocês. Talvez desta maneira ainda consigamos que o mesmo volte aos seus dias gloriosos. Tenho, portanto, o dever de anunciar-me como candidato nas próximas eleições.
Um barulho de palmas surgiu na extensão da rua iluminada. E aquele homem a mostrar os dentes e fazer exercícios nos braços como se quisesse abraçar alguém. Irromperam, então, ruídos na grande avalanche humana.
-Viva, viva, tá eleito, tá eleito... : algumas vozes eram ouvidas no enorme salão ao ar livre.
Mas, um observador atento comentou para si: são todos iguais, querem o poder e depois... - começou a socar a mão direita (aberta) na esquerda (fechada).
-Precisamos, unidos, lutar contra a opressão, o desemprego, o desestímulo à classe produtora. Confio no vosso voto e hei de cumprir tais promessas.
Gritos e mais gritos saíam de bocas pedintes, estômagos famintos. O interlocutor tomava um copo d'água e distribuía afagos diante de si, a barriga já cheia de comida. Carros com alto-falantes jogavam papéis para a multidão entusiasmada, retratos vários pulavam no meio à massa humana. Parecia tudo uma euforia dissimulada... Candidatos outros se seguiram na falação... Previa-se, contudo, que aquele povo estava sendo repartido, uma fatia devia caber pra cada um naquele novelo ilusório.
Então o homem disse com uma voz seca: temos de dividi-lo certo, você pega o bolo e faz o corte em porções iguais, sem discriminação, nada de sabedorias, pois o gosto a gente sente no final.
Na mesa, portanto, os pratos servidos, uma faca posta para o saboroso trabalho. No centro a atenção dirigida e conseqüentemente atingida. As comemorações feitas e os pedaços saindo de boca em boca, tragados com alegria e satisfação. Estavam gostosos.
-E, além do mais, - continuou o homem - não estamos aqui pra iludir ninguém, temos um dever a cumprir e sabemos onde meter a mão.(Na certa meteria no bolso do povo, se é que ainda ele teria bolso).
Disse então: somos conscientes da tarefa que vocês nos entregará e faremos de tudo para bem servi-los. Uma vida, portanto, com menos sofrimento, pois não possuímos o dom de querer enganar essa sofrida gente - e apontou o polegar na direção da mesma.
Ouviram-se estrondos de um lado e de outro, como se um vulcão estivesse vomitando, o palanque quase indo abaixo com gritos e foguetões.
-Cuidado, vá devagar, não precisa exagerar tanto - rechaçou uma voz comedida.
Na mesa, um vazio... Facas amoladas e o grande prato despido, procurando esconder-se ante uma possível vergonha. A parte era sua, ninguém colocaria as mãos, ninguém... Então saiu a tomar um pouco de ar e aproveitou para revê-la melhor, alisá-la e acariciá-la sem desdém. A distribuição feita: fulano fica na tal posição, sicrano substitui beltrano, este parte para nova investida, etc., etc., contanto que não fiquem insatisfeitos. As fatias não são iguais? De qualquer maneira se ouviam protestos, uns achando pedaços maiores, menores, outros observando gratificações extras. Houve de viva voz descontentamentos. E ele ali, no meio do salão, a repartir de acordo com sua consciência, embora recebendo críticas e repetindo sozinho: não são iguais? Porém, parece que a igualdade desse homem deixava lacunas...
Abriu então os enormes dentes e abocanhou um pouquinho de ar, completando e gritando desta vez: portanto, meu querido povo, não me decepcione, pois não vos decepcionarei. Juntos, na urna, daremos a nossa resposta.
Um clarim soou no meio da massa humana e todos começaram a dançar, enquanto o orador desviou o olhar e colocou a palma da mão para sussurrar algo aos correligionários.
-Não sei, de uma hora pra outra essa gente pode enxergar melhor, disse o companheiro ao lado, pondo uma dúvida na sua euforia profetizada.
-Que nada!... Vê só uma coisa... E começou a gritar bem forte o seu nome, fazendo eco no infinito. Um uníssono se ouvia.
-Não falei!... são todos assim.
O povo massificado, espoliado, sempre enganado.
Parecia certo da vitória, conseguira ludibriar com um discurso forte e imaginativo, dizendo palavras desonestas, mentindo e fingindo estar ao lado daquela pobre gente inocente. Diante da situação que instalou na festa organizada para servi-lo e aos seus comparsas, não se tinha a menor dúvida que o citado candidato era um farsante, charlatão. E isso ficou mais que evidente, sobretudo depois das frases de cunho demagógico, pois o que se via eram somente promessas, promessas para iludir aquele povo presente àquela manifestação.
Então, depois, colocou as fatias em cima da mesa e ficou olhando-as durante alguns minutos, o suficiente para lançar uma hipnose. Os outros tentaram comê-las, mas foram impedidos por uma voz firme e grossa que surgiu, deixando-os perplexos. Era o homem, agora desejando saboreá-las todas para si. Engoliu apressado os outros pedaços e, sujando-se todo, virou as costas disparando carreira. Sumiu-se ante a suposta indignação dos companheiros. Ajoelhou na tábua e começou a chorar, antes desviando o rosto e colocando pingos de colírio nos olhos. Ninguém notara tamanha habilidade, estavam pulando e gritando na proposital euforia.
Recomeçou a falação:
-Tudo que desejo é ser amado pela minha querida gente, não consigo viver sem ela - e com um lenço branco enxugou algumas gotas da face. Lágrimas de colírio.
Desceu o patamar e viu as formas variadas de fatias à sua frente, queria juntá-las sozinho, enquanto os de trás ficaram golpeando-as em partes iguais. Encolheu-se retraído e esperou qualquer resolução, o bolo a admirá-lo na esperteza. E ouviu intrigado uma voz insistir que a conscientização era a meta principal daquele enorme novelo. Houve um certo abalo nas arestas ali sedimentadas e uma incerteza, a multidão já fatigada e explorada da forma mais bestial possível. Era notório que o homem a tinha ludibriado com suas constantes mudanças.
Do céu as estrelas faiscavam a grande praça aberta, enquanto cá embaixo fazia um silêncio profundo. As pessoas ficaram abobalhadas olhando o palanque vazio e sentiram na carne o reconhecimento de terem sido enganadas. Aquilo tudo era um engodo, é ainda uma isca. Apartearam-se, portanto, e se dividiram em blocos disformes, deixando um labirinto de difícil acesso. Aí a situação se complicou e não mais serviriam de sustentáculo para ninguém. Sabia-se que a ambição daquele homem tinha ultrapassado o senso normal.
Então, naquele exato momento, as fatias recolheram-se caladas, não se enganariam de serem repartidas, engolidas. Estariam, portanto, firmes na intenção de não atenderem a qualquer chamamento, livres da sujeira programada. Libertas daquele (e de outros) político mal-intencionado.


Bené Chaves



sexta-feira, junho 10, 2005

VIGÉSIMOS QUARTOS ALUMBRAMENTOS


Gupiara já vivia seu clima de quase insuflação, sendo constantemente abordada para fazerem dela um grande empório. Era o inevitável progresso às portas de uma outrora e pacata cidade, batendo com suficiente força para arrombar suas dependências. Mesmo depois de uma obstinada, mas perdida luta contra tal conjetura. E eu sabia, lógico, que nada poderia deter aquelas mudanças, pois mais cedo ou mais tarde viveria e vivenciaria os acontecimentos. Seria outra batalha ineficaz, desta feita, no âmbito social. Insucessos que só viriam em detrimento de um povo alheio ao andamento do que se sucedia. Era um prognóstico inaceitável. E outra ilusão!

Contudo, diante dos problemas que começavam a surgir, percebi novos e nobres horizontes, facilitado pela percepção que tinha dos fatos acontecidos ou a ocorrer. Passei anos dedicando-me também a tentar e desejando concluir algum curso superior, era evidente que teria uma vida inteira talvez repleta de inquietações e possíveis hostilidades. Isto é: se nenhum acaso desagradável viesse a interromper aquele trajeto iniciado. Namorei pouco ou quase nada neste ínterim, sempre com o cuidado de não ser molestado nas supostas e acho que falsas abordagens. As meninas já estavam bem crescidinhas e muito mais sabidinhas. E, então, as rivalidades ocultas teriam melhores chances de se manifestarem. Sabendo-se que dentro delas mesmas existiam tais desejos nas disputas internas ou externas entre si.

E em intervalos quase regulares parece que eu não tomava jeito de maneira alguma (ah, as mulheres!), porque terminei me enrabichando por uma garota chamada Rosilda, detentora, esta sim, de um porte físico que me fez estremecer. Ela tinha uns vinte anos, por aí ... Aliás, sempre apreciei uma garota com esta perfeição. E quem não a apreciaria? Quando ia para a praia com a mesma, ela colocava um biquíni amarelo que deixava transparecer o belo formato de seu corpo, principalmente se aquele morenaço saísse de dentro do mar com a peça grudada e visualizando detalhes sensuais, os pêlos do púbis a aparecer como um triângulo apetitoso para minha libido.

Então, bom mesmo seria quando a gente adentrava naquele ainda límpido oceano. Ao nadarmos alguns metros e com a água já acima da cintura, eu deixava meu corpo e o dela flutuarem na sutileza das ondas. Ali, na imensidão, a esfriar e ao mesmo tempo esquentar nossas vontades, fazíamos o que fosse preciso. E, logo a seguir, depois de um bom relaxamento saía eu e Rosilda satisfeitos do intento realizado, o riso a transbordar de contentamento em ambas as faces.

Sei não... Acho que ainda não tinha praticado um ato que atestasse um sublime prazer como aquele dentro das águas mansas de uma das praias nos arredores de Gupiara. Nós purificamos e chegamos ao êxtase num momento quase divino entre duas pessoas em um relacionamento sexual. Foi uma sobrecarga de exaltação que na idade que estava levou-me a uma infinda sensação de delírio. E claro que da Rosilda também. Dir-se-ia que teria sido um terno e quase eterno vôo dentro do mar.

ESPAÇO LIVRE


ALTERNÂNCIA



Vasculho teu corpo febril
perscruto-o com emoção
apalpo-o porém sutil
vejo-o na devoção
imagino-o com ardil
penetro-o na ação
olho-o depois gentil
e canto-lhe uma canção.

E ele reflorescerá juvenil
como labaredas existenciais.

Bené Chaves



segunda-feira, junho 06, 2005

VIGÉSIMOS TERCEIROS ALUMBRAMENTOS


Esquecido um pouco o episódio e fim de meu namoro e ainda com um tiquinho de nostálgica lembrança, pude ver que a vida tem suas diabruras quase constantemente determinadas pela índole de algumas pessoas. Contudo fiquei um tanto perturbado com o dito desfecho, pois pensei que Gracita não fosse se influenciar por historinhas alheias à razão e também dar créditos a insinuações de terceiros. O que fizeram, não canso de dizer, foi uma ardilosa maldade. Ou, então, uma combinada simulação e pretexto. Mas acredito que o resultado disso tudo foi uma lição aprendida e apreendida, juízo maior de uma cisma para o futuro.

E o meu futuro começava a se delinear, perfilhando-me e perfilando-me em causas outras e incessantes em seus propósitos. Agora eu era um sujeito um pouco diferente, meio arreliado e arredio quando se tratava de questões relacionadas com o sentimental. Porque de uma coisa tinha quase certeza: foi gente do sexo feminino quem começou toda a intriga. Alguma disputa ou rivalidade entre elas, as meninas-moças de então, aquelas que se acercavam de nosso convívio. Não que eu fosse assim requisitado ou solicitado, imagina!... Porém pode ter sido pura inveja ou falsidade com a própria suposta vítima. Amizade sinistra? Essa era uma peleja que não queria me envolver e terminei como o vilão da história.

Apesar de tudo, toquei minha vida para frente e detive-me mais em estudos e leituras, indo somente nos finais de semana procurar algum divertimento. E, então, amigos comuns me chamavam para uma noitada ou outra de serestas, quando saíamos a cantar músicas românticas sob o teto das residências de algumas garotas conhecidas ou não. Seria uma oportunidade de alguém iniciar um namoro sem maiores conseqüências, apenas rapazes excitados de bebida (e acho que de outros interesses) a declarar possíveis relacionamentos através de trechos melódicos e mal afinados. Na oportunidade partilhava com eles das bebidas com porres homéricos e uma hipotética alegria a invadir meu corpo naquela escura fase existencial.

Não obstante, tinha controle sobre o que fazia e jamais me deixando levar, evidentemente, a uma desesperança. Ou destemperança. Sabia, apesar da pouca idade, que tudo na vida é passageiro, a gente sofre um pouco (ou muito) com perdas queridas, mas o tempo se encarrega (friamente) de diluir algum amor, alguma paixão, amizade ou laços familiares no seu curso implacável e irreversível.

Saía, portanto, vasculhando acontecimentos bons, ventos sem impurezas que pudessem acariciar na efêmera tempestade. E quando não raro também participava de festinhas da sociedade local, dançava e me divertia, inclusive em uma das ocasiões me engracei de uma possível pretendente, porém tudo não passou de um namorico sem conseqüências afetivas. E eu ainda estava cismado com supostas afetividades. Ou noutras vezes descíamos para a parte baixa de Gupiara e íamos atrás de putas nas chamadas zonas em que lá estavam. Prostitutas que, infelizmente, tinham de trabalhar seus corpos. Para o nosso prazer momentâneo e o desprazer das mesmas, embora com isso elas ganhassem o pão de cada dia. Aí a farra madrugava...

ESPAÇO LIVRE



FILMES DECEPCIONANTES (Diretores importantes e famosos)

Gostaria de esclarecer o seguinte: alguns filmes não são necessariamente ruins, mas devido seus cineastas terem já realizados verdadeiras obras-primas, tais fitas ficaram (e ficam) muito a desejar, comprometendo, sobremaneira, a filmografia do diretor.


SUPLÍCIO DE UMA ALMA (Fritz Lang)
BEIJA-ME IDIOTA! (Billy Wilder)
O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (François Truffaut)
O TIGRE DA ÍNDIA (Fritz Lang)
DOUTOR JIVAGO (David Lean)
O ESTRANGEIRO (Luchino Visconti)
A HORA DO AMOR (Ingmar Bergman)
O DIABO RIU POR ÚLTIMO (John Huston)
A CIDADE DAS MULHERES (Federico Fellini)
TRAPACEIROS (Woody Allen)
A BÍBLIA (John Huston)
TERRA DE FARAÓS (Howard Hawks)
A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS (George Stevens)
INFÂMIA (William Wyler)
ONTEM, HOJE E AMANHÃ (Vittorio De Sica)
DUAS MULHERES (John Ford)
CORAÇÕES DESESPERADOS (Jules Dassin)
CORTINA RASGADA (Alfred Hitchcock)
ESPÍRITOS INDÔMITOS (Fred Zinnamann)
CREPÚSCULO DE UMA RAÇA (John Ford)
FAMINTAS DE AMOR (Robert Wise)
CELEBRIDADES (Woody Allen)
TRAMA MACABRA (Alfred Hitchcock)
A PREGUIÇA (Jean-Luc Godard)
QUERO IR PARA CASA (Alain Resnais)
FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS (Robert Rosselini)
DUELO DE GIGANTES (Arthur Penn)
IDENTIFICAÇÃO DE UMA MULHER (M. Antonioni)
A VIDA É UM ROMANCE (Alain Resnais)

Bené Chaves




quinta-feira, junho 02, 2005

VIGÉSIMOS SEGUNDOS ALUMBRAMENTOS


Gracita foi, portanto, acossada sem piedade, pois a fizeram acreditar nessa historinha sem o mínimo de fundamento, valendo-se daí sua condição de adolescente ainda supostamente tola para assuntos de tal natureza. Inclusive sendo conduzida com facilidade e perícia para este fim. E o intuito, então, foi conseguido e a grande intriga feita, desmanchando-se um namoro que poderia ser promissor, embora soubesse, lógico, que éramos muito jovens para assim pensarmos. Mas, nós estávamos querendo aproveitar um momento (e que belo momento o da juventude!) de nossas iniciais existências. Infelizmente ele foi abalroado sem chance de uma preliminar contestação. Arre! Culpa minha? Dela? Não, acho que foi um delito do destino, se assim posso dizer.

Quanto a Gracita e a partir desse episódio a vi umas poucas vezes, porém era evidente que desaparecera de minha vida, restando somente e com saudade as sombras de um passado. Um passado que ficará gravado também como o de Alba, aquela que foi minha primeira experiência no aspecto amoroso, um lado difícil e sem dúvida de se entender do ser humano. (Soube tempos depois que Gracita aparentava belas feições, conforme tinha previsto na imaginação. Casara, tivera filhos e seguira evidentemente sua sorte ou azar. Atualmente de nenhuma notícia sabia, talvez já estivesse no curso declinável da vida). Seriam as reviravoltas e retomadas ou não de uma época obsoleta e perdida.

Por conseguinte, nada pude fazer para abafar os tristonhos acontecimentos e tudo despencou eficaz como o autor ou autora da trapaça desejou que fosse. Venceram a espinhosa batalha. E atravessando anos seguintes pela rua que Gracita morara observei mostrengos sendo erguidos, prédios gigantescos que transformavam e esfumaçavam a nova cidade. Tudo ia se perdendo de encontro ao porvir, inclusive uma imensa avenida tomou conta do outrora e estreito lugar, talvez até fazendo com que minha segunda ex-namorada sumisse entre as coisas bonitas que fizeram parte do trecho antes percorrido com amor e carinho. Enfim, desvaneceu-se outra ilusão e mais uma decepção.

Lembro aqui de um instante lúdico no nosso relacionamento: quando uma vez estávamos a passear fomos nos esconder, numa distração de sua acompanhante, atrás de uma pilastra de um velho edifício abandonado. Parecíamos duas crianças a brincar de esconde-esconde. Ali, numa demonstração de afeto, consegui segurá-la e satisfazer um pouco do ardor juvenil que nos instigava. Desci suas vestes e a vi ligeiramente nua, seu corpo moreno a tremer de medo e inquietação. Uma visão que me sacudiu, apesar da penumbra do local, ainda mais ao ângulo que me destinava. Foi um curto momento de prazer em que cheguei a boliná-la num frêmito de quase um orgasmo. Saíamos depois desconfiados como se tivéssemos cometido algum ato vergonhoso. Para a época era um verdadeiro escândalo você tentar algo dessa natureza. E ela depois afastou-se encobrindo seu suave rosto e eu a me ajeitar rapidamente com receio de que algum vulto aparecesse nas sombras daquele passado.


ESPAÇO LIVRE


FICÇÃO


No limiar da existência
vejo-te ofuscante
amando a solidão
odiando a devassidão
e a vastidão.

Mas no instante último
és o oposto posto
odiando a solidão
desejando a vastidão
amando a ilusão.

E crias apenas uma bela
imagem duradoura.


Bené Chaves