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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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terça-feira, setembro 30, 2008

'Juventude', de Pablo Picasso

DÉCIMOS TERCEIROS ALUMBRAMENTOS


O rapazelho estava cedendo lugar a um rapazola, com as devidas proporções e determinações. Crescia na idade e tudo o mais. E olhando meu corpo, já sentia os primeiros sinais pubescentes formando também uma espécie de triângulo ao redor do pênis. Seriam os naturais e ditos pentelhos, vocábulo atualmente desusado para a finalidade proposta e abusado em outras denominações. O próprio órgão sexual aparecia ereto a qualquer pequeno estímulo, com os pêlos nascendo vaidosos no corpo inteiro.

Era, portanto, a minha fase inicial, a inicial fase de nossa transição, quando você não podia tomar um banho que necessariamente ou quase teria de se masturbar. E sempre com uma revistinha ao lado, embora a mesma fosse ainda tímida quanto a fotos estimulantes e desnudas. Ou, então, com o pensamento voltado para alguma menina-moça que lhe viesse refrescar a mente ou similar. As garotas também já em crescimento e, portanto, revelando o aspecto apreciável de seus corpos em ininterruptas formações. O que nos deixava ainda mais excitados.

Depois me separei um pouco daqueles atos e brincadeiras juvenis, resolvendo ficar um período sozinho. Meu primo continuou seu namoro e afastou-se de mim certo tempo. Ele teve talvez mais sorte do que eu, pois Mirtô (ah, que bela loira! Quando penso naquele tempo, vejo os acontecimentos repassados e vivenciados como se fossem atualmente, com Alba também a desfilar ante meus olhos com a sua ingenuidade do período) parecia encantada com sua pessoa, já que era fino no trato e na imprudência.
Sorte dele, azar o meu, quando ouvia dizer que era já um rapaz com uma lábia capaz de conquistar boa parte das menininhas que circulavam entre nós. Mas tinha a Mirtô como uma namorada, digamos assim, oficial. E penso que a mesma tava era doida por um agasalho de orelha. Podia ser que dali, diziam as línguas tagarelas, surgisse um futuro casamento, já que meu primo era totalmente imprevisível. Porém eu não acreditava, visto suas estripulias praticáveis, ou seja, de rapaz namorador.

Eram as moldações do tempo se inserindo nos caminhos traçados e apanhados. As hesitações de uma época de exaltação fervilhando dentro da gente. Acabara, sim, meu namoro com Alba, mas não sabia o que teria dito a mesma sobre minhas intenções. Talvez, quem sabe, alguma coação de seus pais a fez tomar tal decisão. E não podia culpá-la, lógico, de sua atitude.
A nossa juventude não teria uma responsabilidade maior e dedicada a uma relação duradoura. Evidente que o desgaste chegaria com o tempo, como efetivamente chegou, pois não tinha condições e tampouco decisões no instante presente para assumi-la com seriedade. Iria continuar meu itinerário (sem saber, contudo, o que viria pela frente) e ela deveria seguir seu destino... Passei e repassei.

ESPAÇO LIVRE

INVERSÃO

Na tristeza
o prazer.

Na alegria
a dor.

E no amor
o ódio.



Bené Chaves



terça-feira, setembro 23, 2008








DESFECHO DE UM EFÊMERO AMOR


Estava crescendo e também, suponho, perdendo Alba. Seria realmente amor a palavra certa para externar nossos juvenis sentimentos? Na minha idade, acho que já com uns quinze anos, era difícil definir. Tudo não passava de uma empolgação. Creio que para ela fosse a mesma coisa. Não havia a tal da ligação definida. Talvez pudéssemos gostar um do outro sem o arroubo necessário para inventariar qualquer relacionamento mais forte.


Porém, mesmo assim, ih!, não poderia imaginar que a tivesse perdendo. E aquela paixão, ou, seja lá o que, estivesse se dilacerando aos poucos como uma formiga que vai arrastando suas quinquilharias e deixando um vácuo na fonte inicial.

Seria, quem sabe, algum desgaste pós-puberdade? Não sabia a intenção dela, mas intuía uma verdade próxima. Notei, portanto, que minha jovem amada começava a ficar diferente e indiferente. Sinal dos tempos ou apatia própria da idade, não tinha a mínima idéia. Somente Alba, claro, deveria e saberia falar o princípio certo sobre o inesperado enigma. Talvez um desejo de mudança no seu itinerário rotineiro e amoroso.


Mas, os acontecimentos são assim mesmo, ficam laboriosos e duvidosos, tudo inebria com o passar. A dureza é uma só. Menos dia mais dia sabia que iria acontecer. E o insofrido envolvimento teria que esvaziar. Seriam os fatos sucedidos da existência, aliás, do comecinho de uma vida, suas atribulações duradouras ou passageiras.

Alba fez parte de um pouco da minha puberdade, como sabia que a recíproca era também verdadeira. Meu corpo se juntou ao dela (que delicioso o momento daquela junção!), mesmo que tivesse sido apenas em sonho. E foi de uma gostosura sem precedentes, sabendo-se, lógico e paradoxalmente, não ter existido de verdade. Embora algumas imagens fictícias possam se transformar em exatidões perfeitamente realizáveis.


Na pior (ou melhor?) das hipóteses, minha primeira afeição. E também a primeira ilusão de um suposto amor proibido. O desagradável estava justamente aí. Entretanto, teria de tocar a vida para frente e suportá-la do jeito dela, nada se podia fazer contra suas adversidades e diversidades. Alba não sabia disso, vivia e viveu o seu momento, como também eu ignorava tais ocorrências. Era muito jovem ainda e tinha um imenso (igual a ela) caminho para percorrer, claro que iria gozá-lo. O sentimento ficaria de lado, juntando-se, portanto, com o pesar e a saudade que adviriam dali.

Talvez uma dor passável, imatura, ainda principiante, mas, sobretudo, uma mágoa quase irremediável de uma recordação afetuosa. E um suporte triste das relembranças de grandes amizades ou afeições perdidas. Enfim, a primeira porrada no início de uma era e sua palpitante extravagância compassiva. Apre!


ESPAÇO LIVRE

'Moça à Janela', de Salvador Dali
SOLIDÃO


E o tempo passou...
Não mais aquela moça
sorrindo na bonita janela
com os seios à mostra.
Não mais minha infância
de arroubos no período.
Não mais... Não mais...

Esse tempo findou...
A adolescência se foi e
a janela fechou-se sem razão.
A menina sublimou sua ausência.

Eu envelheci, você também...
E a donzela sumiu no rastro da
transição de uma vida.
Sua sensatez a sombrear-lhe
na desesperança de amores fugazes.

E eu à espera de um tempo que
corrói nossas inquietas solicitudes.

Bené Chaves



terça-feira, setembro 16, 2008


DÚVIDAS...DÚVIDAS...

Talvez tenha sido meio difícil encarar Alba dias depois, não sabia ao certo o que tinha acontecido. Encabulei-me e o coração disparava ao vê-la. Meu primo ficou desconfiado e pensou logo que eu tinha papado, ih!, a pobrezinha. Não era nada daquilo que estavam pensando. Apenas ainda flutuava e delirava diante do ocorrido. E numa excitação ilimitável. Ou seria?

Mas, a ilação fora decerto apressada e maldizente. Um labéu na reputação da própria. Ela, coitada, talvez não soubesse de nada, podia ser a mais inocente das criaturas. Bem que poderia me ter desejado naquela noite mágica, porém, pelo que se depreende, tudo não passou mesmo de uma fantasia sobre seu belo corpo. Aliás, uma gostosa e efêmera fantasia.
Devo ter imaginado todos os acontecimentos e repassado depois a duvidosa verdade? Quem não quereria, contudo, que eles fossem realizáveis? Eu, na minha quase junção com a adolescência, torcia o bastante para efetuar qualquer relato inimaginável. Coisa de menino tolo, malsinações de uma idade febricitante. Crendeiro?

Que teria sido uma delícia, ah!, ninguém poderia dizer o contrário. Mas, também, um tripúdio para quem o dissesse. E fiquei sem saber, ao certo, se o deslumbrante encontro sob as luzes tênues entre quatro paredes tivesse tido um cunho de ficção ou realidade. Acho que a ilusão ainda irá permanecer por um bom período, enquanto também perdurar a incerteza aos olhos de outrem.
Porém, o tempo passou rápido e fogoso. Tive mais alguns encontros com minha garota e tudo depois continuou como antes. E cheguei a acreditar que outra noite como aquela jamais iria acontecer. Foi um sonho/realidade que se transformou posteriormente numa realidade/sonho. Ou vice-versa. Dali em diante nada de idéias quiméricas. Namorinho sem nenhum fato inovador e perturbador.

Então me parece que Alba não gostou do ato em si ou somente imaginou não ter gostado. E tudo virou um acaso, uma desconfiança, sob os olhares atônitos e certeiros de um falso moralismo existente. Minha namorada cismou diante de tanta questiúncula de uma maneira sutil ou indireta. Mesmo que tenha sido mera ilusão.

O marasmo, portanto, voltou e clareou, num instante se instalou. Com rima e tudo. Porém a suspeita ainda não evadiu e somente ficaram as lembranças e as sombras de uma (suposta) noite de sedução e prazer.


ESPAÇO LIVRE
George Sanders no filme 'A malvada'
DIVAGANDO... Em tempo de eleição...

-Vejam que primor de texto dito pelo personagem e crítico De Witt (vivido pelo ator George Sanders) no filme A malvada : "Nós temos em comum... desprezo pela humanidade, incapacidade de amar ou ser amados, ambição insaciável - e talento. Merecemos um ao outro".
Não calharia extraordinariamente bem se saísse da boca de um desses sujos políticos (e homens públicos) em confabulações com seu interlocutor? Ou, no caso, em especial, uma interlocutora?

- E também vem nos auxiliar a palavra sempre sensata de Antonio Vieira, que desde os idos do século XVII ficou famoso pelos lapidares depoimentos sobre o ser humano. Acerca dos ditos e indignos representantes do povo, eis o que dizia o abnegado padre: "Tempos houve em que os demônios falavam, e o mundo os ouvia; mas depois que ouviu os políticos ainda é pior mundo".

Sem comentários, sem comentários...


Bené Chaves



terça-feira, setembro 09, 2008

ALUMBRAMENTO ESPECIAL Sem saber se estava dormindo ou acordado, olhei, então, ao redor. Com intensa curiosidade descobri o que desejava. E num passo meigo, lento e mágico, Alba adentrou no quarto com suas delicadas mãos e veio até minha cama. Para surpresa, agachou-se um instante. Estava linda com aquela camisola transparente e aderente, numa simetria dos dois adjetivos que me deixou em aceleradas palpitações. Quase me deixei cair ali mesmo, estirei os braços e esperei-a avidamente, porquanto, neste ínterim, uma buliçosa bulimia atacou meu corpo por inteiro. Não pude, lógico, resistir. Gritei, uai!... ué!... hurra!... Não acreditava no que via. Ou acreditava no que não via.


E também, ao mesmo tempo, numa fusão de imagens, as pessoas de Gupiara pareciam jogar-se umas contra as outras, os olhares apavorados diante de acontecimentos irrefutáveis de desdém. Pensei que tudo aquilo seria uma vida descosida, uma existência de desprovimentos e desproteções das ocorrências esperadas. Ou inesperadas?
Porém, atento ao primeiro caso e para espanto meu, Alba levantou-se e começou a tirar a sensual peça, ou seja, a camisola diáfana. Vi, então, uma escultura à minha frente. Com apenas quatorze ou quinze aninhos. Era belo, digno mesmo de se apreciar o corpo nu de minha namorada. Não tinha muitas palavras para descrevê-lo, apenas e tão-somente para desejá-lo, afagá-lo. E foi o que fiz.

Puxei-o com delicadeza e ele deslizou suave para o colchão, o repentino e macio leito. Aquele corpo dali em diante seria meu, unicamente meu. Iniciei, portanto, minha doce e árdua tarefa de amá-lo, de penetrá-lo. Achava-me em delírios, êxtases, sei lá o que... Exalçado!

E tudo, enfim, terminou num ensandecido e simultâneo orgasmo. O ato, em si, foi um instante de puro prazer, como se nós dois estivéssemos a galgar uma extensão indefinida e interminável. Queríamos vivenciá-lo terno e eternamente. Ela gritou, gritava, se deliciou, deliciava, exultou, exultava, gozou, gozava... Aleluia!

Sei não, mas acho que depois daquele dia, ou melhor, noite, não era jamais o mesmo, sobretudo sabendo que (ou não?) vivera um invulgar e maravilhoso sonho. Tinha certeza disso, pois, de qualquer maneira, possuíra Alba com todas as minhas forças. Humanas ou sobrenaturais. Ou, então, apenas oníricas. Mas, o certo é que a possuíra. E, a partir daí, seria outro rapaz, numa mesclagem do verdadeiro versus o imaginário.
Pois é, aquela noite simplesmente não existiu. Apenas aconteceu e explodiu! De contentamento, afeto, de fantasia, alegoria. Explodiu numa realidade quimérica. Foi uma antevisão, um antegozo, uma explovisão. Ou teria sido uma mágica ilusão?

ESPAÇO LIVRE

ambigüidade

entre tuas macias coxas
eu afogo minhas lágrimas
afago teu sexo

pensando no amanhã

no anoitecer e amanhecer

de nossas e novas vidas.


Bené Chaves



terça-feira, setembro 02, 2008

SEXTOS ALUMBRAMENTOS Numa fase intermediária de minha adolescência, aí em torno dos treze aos dezesseis anos, comecei uma espécie de informação e conhecimento do sexo em si. Claro que nossa mente fervilhava de uma curiosidade sem-par. Então, andava junto com amigos da época nas chamadas zonas da cidade, que eram os cabarés do período, locais onde se podiam visitar as putas e se deliciar naquele prazer momentâneo. Ou uma notável indiscrição em conhecer as duas facetas, tanto as mulheres de vida mundana, como também os lugares chulos onde se empenhavam nas suas labutas diárias.

Elas eram tratadas como putas mesmo, visto que somente depois melhoraram a nomenclatura e foram reconhecidas como prostitutas, o que na prática não mudava em nada. Pois é, as mulheres de vida difícil, que impropriamente seriam apelidadas de vida fácil, eram obrigadas a vender o corpo em troca de uma sobrevivência nada exemplar. E a gente, sem querer, contribuía para que o problema se agravasse, porque só pensava nos impulsos espontâneos da idade e na vontade de apreender e aprender os primeiros passos púberes do sexo.

Nesse ínterim, Gupiara queria fazer-se desigual, mas ia crescendo um tantinho aqui e outro acolá. Sempre ajudada de uma habilidade maliciosa neste lugar e também naquele outro. Lógico que com as mesmas pessoas começando a mandar, tanto perto como também ali distante, num total predomínio de uma facção ou grupo. Era, pois, uma perfeita engrenagem que dariam à sorte ou azar (que fado, que fado...) da cidade. E, evidentemente, ao futuro daqueles indivíduos e de quantos desejassem seguir suas pegadas. Assim caminhava Gupiara... Pra onde, em boa ou má direção, não interessava. Sabia-se que iria e seria gostosa, apetecível. Para os que quisessem devorá-la e degustá-la com gulosa fome.

Mas, com o passar do tempo, me preocupava mais e mais aquela sina ajudada e muito pela corruptela insidiosa e mudança de feições. Inclusive, desinclinada (ou inclinada?) para esquivos e sabidos arroubos delituosos. Apre! Irra!... E, entre uma coisa e outra, fui deixando de lado minha disposição para as bisbilhotices, gozos ou prazeres curiosos e desejando, sobretudo, me apegar também às garotas virgens que certamente surgiriam.

Portanto, prioridade número um: meninas. Número dois: moças. E número três: donzelas. Quer dizer: todas as precedências tinham um único objetivo: mulheres. Foi daí que vim a conhecer Alba, ela que seria a primeira menina-moça com quem tivera um contato mais íntimo, talvez até sonhos de olhos abertos (ou fechados), desses que nos levam às fronteiras de um êxtase pleno e absoluto.

ESPAÇO LIVRE

DESEJO CONTIDO

Saudades de não vê-la
de não acariciá-la, de não tê-la.
Saudades de tua presença
sempre ausente.
Dos raros contatos verbais
mas também irreais.
Das prosas sem um tato
um aconchego, algum ato.
Saudades de não saber perdê-la
em um redemoinho de emoções.
E nem sequer poder contê-la
nesta vida de súbitas tentações.

Saudades de morrer sem vivê-la!


Bené Chaves