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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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sábado, junho 30, 2007

VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (9)


De Gastão Lamounier e Mário Rossi:


O nosso amor traduzia
Felicidade... afeição
Suprema glória que um dia
Tive a alcance da mão
Mas veio um dia o ciúme
E o nosso amor se acabou
...

*

Eu te vi a chorar
Vi teu pranto, em silêncio correr
E parti, a cantar, sem pensar
Que doía esquecer...

*

Mas depois
Veio a dor
Sofro tanto e esta valsa não diz
Meu amor, de nós dois
Eu não sei qual é o mais infeliz.

Obs: Alguns versos da música 'E o destino desfolhou'(1937), gravada originalmente por Carlos Galhardo no mesmo ano. Mario Rossi foi autor de mais de duzentas letras de músicas e juntamente com Gastão Lamounier das mais famosas valsas em seu período glorioso. Rossi nasceu em 23 de maio de 1911 em Petrópolis, Rio de Janeiro e morreu também na mesma cidade em 12 de outubro de 1981. Já o parceiro Lamounier nasceu no dia 22 de abril de 1893 na cidade de São Paulo e morreu no Rio de Janeiro em 28 de janeiro de 1984.


De Pixinguinha e Braguinha:

Meu coração... não sei porque
Bate feliz... quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim... foges de mim
...
Vem sentir o calor dos lábios meus
Á procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então
Serei feliz, bem feliz.
...
Ah se tu soubesses
Como eu sou tão carinhoso
E muito muito que te quero
E como é sincero o meu amor...


Obs: Alguns versos da música 'Carinhoso'(1917/37), que manteve-se inédita por mais de dez anos. Sobre isso, fala o próprio Alfredo da Rocha Viana, o Pixinguinha: "Eu fiz 'Carinhoso' em 1917. Naquele tempo o pessoal nosso da música não admitia choro assim de duas partes. (Choro tinha que ter três partes). Então eu fiz o 'Carinhoso' e encostei. Tocar o 'Carinhoso' naquele meio eu não tocava... ninguém ia aceitar". E esclareceu ainda que "a música era uma polca ou polca vagarosa. Mais tarde mudei para chorinho".
'Carinhoso' ficou sem letra e foi gravada apenas instrumentalmente em 1928, ficando ignorada pelo grande público até meados dos anos 30. Depois - num acaso desses da vida - houve uma mudança no curso de sua história. E apareceu, então, o Carlos Alberto Ferreira Braga (Braguinha), o João de Barro. Aceitando a sugestão de uma amiga, colocou versos no famoso chorinho. Portanto, surgiu, assim, meio às pressas, a letra de ‘Carinhoso’, tornando-se, desde aquele momento, um dos maiores clássicos do nosso cancioneiro.


ESPAÇO LIVRE

O poema abaixo foi publicado aqui em outubro de 2004. Trago-o novamente para os que ainda não tiveram a oportunidade de lê-lo. Espero que todos tenham uma boa leitura.

ANGÚSTIA
No murmurar do
encantamento
a vida aparece
inquietante
mas a dor surge
instigante.
E a felicidade goteja
como partículas soltas
caídas do espaço.
No sussurrar aflitivo
de ilusões perdidas.
As minhas e
as tuas.
Bené Chaves



sábado, junho 23, 2007

O texto abaixo já saiu aqui em setembro de 2004. É uma oportunidade para os que não o viram e leram. Desejo uma boa leitura.
ONDE NASCEU PAINHÔ


Foi numa fazenda, perto de uma aldeola conhecida como Pinga-Pinga, que meu pai nasceu. Apesar do nome deste pequeno município quase não pingava coisa alguma, principalmente água. Acho que deram tal designação na esperança de que realmente houvesse uma força estranha da natureza ou algum efeito psicológico sobre sua denominação.
Mas ali ficava a casa velha, dona de todos os pequenos trilhos que passavam rasteiros pelo caminho seco e ávido de umidade, para reforçar a expressão. Apesar de tudo, lugarzão bom esse, cheio de ares, modos!
E meu avô sempre falava que era uma delícia ver aquele mundo parado, as estrelas a sorrir, o pequeno gado no curral, quieto, escutando nosso silêncio. A rede na varanda, o corpo velho e enfadado, a livre inquietação dos pássaros.
Olhar esta terra tranqüila, escura e calmosa. Acho que somos felizes, sem preocupação, na nossa espontânea firmeza de serenidade. E uma aparente alegria dentro de nós, dizia enfim.
Pra banda de fora, o vento surrava a areia esturricada e dava um banho no curral, cobrindo as bostas e descobrindo um cheiro de fazenda, cheirão de merda de boi, custoso. Mais das vezes sem incomodar. Anestesia de vaqueiro, segundo meu pai comentava. E as criancinhas nos arrabaldes rolando no chão pouco enlameado e fugindo de responsabilidades. A idade era todo prazer.
Deram o nome de Ferrões àquela pequena fazenda. Vidona de gente analfabeta e sem costumes. Mas, sobretudo, um povo bom, amigo, sem hipocrisia. Painhô dizia que o sofrimento traz tristeza, mas aquele povo, apesar das dificuldades, não era triste. E acrescentava: filho, quando você crescer saberá medir valores intrínsecos.
Dentro de uma filosofia toda particular, falava ainda que era lindo ver um menino com um infinito campo para correr, tornar-se adulto com sentimentos e razões inerentes a ele mesmo. Eu cresci, filho - e olhava uma vastidão à sua frente -, dando vazões para um mundo justo, liberto. Essa tal de liberdade vem do berço, o primeiro passo do homem, finalizava então.
Naquele alto sertão, estradas sem fim, retirantes se assustavam com conversas sem entendimentos. Lá longe, ruídos penetravam entre brechas e todos silenciavam. A lua, cheinha de iluminação e imaginação, ditava as normas.
Painhô era algo especial para aquela gente. Suas frases causavam efeitos e má compreensão nas pessoas simples e crédulas que não aprenderam nada. E aos poucos ele parecia também querer ensinar seu modo de vida.

ESPAÇO LIVRE

A POESIA DE JOSIMEY COSTA (RN)


Publico hoje três poemas da poeta (ou poetisa, como queiram) e contista natalense Josimey Costa, que é também doutora em Ciências Sociais. Espero que todos tenham uma boa leitura.

Desígnio

Sinto muito amor que chores
a cabeça baixa a meus pés
teus braços em volta e o chão

amor, dei-te este nome
a preencher de pavor
lacunas da minh'alma náufraga
choras o choro que engulo
me submerges afogo
o que respiro é sal e frio

2)

O parto do tempo

Uma vez eu quis beber o céu,
Mastigar meteoros e engolir estrelas
E por mais que quisesse
Por muito de espaço que abrisse
Permaneço escura por dentro,
Feita silêncio ante o vácuo.
Desta vez eu sei: não se bebe luz.
Mas cada tempo que mingua,
Pare outro enquanto cessa.
Se algo há de brilhar em mim,
Sejam universos que habito
E cintilo no espelho da pele
Como se dentro houvesse galáxias...

3)


Interlóquio

Hoje tenho um mundo no ventre
Como se concebido houvesse
Como se gestasse estrelas
Alumiando caminhos cá dentro
É seu o lume recebido por e-mail
Suas palavras constroem gestos
Os vocábulos são suas mãos
Guardo o seu sêmen verbal
Entre os sonhos, no mais íntimo
Assim você me beija e fecunda
Enquanto lê-me a alma ao celular




sábado, junho 16, 2007

VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (8)


De Ary Barroso:


Brasil,
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos...

*

Brasil,
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiferente
Ô Brasil samba que dá...

*

Ô, esse coqueiro que dá côco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar...

*

Ah, onde essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
e onde a lua vem brincar...


Obs: Alguns versos da música 'Aquarela do Brasil'(1939), declaração de amor ao nosso país enaltecendo o seu povo e as tradições brasileiras. Algumas pessoas a consideram ufanista e a têm como uma composição de um louvor auspicioso e exagerado. Acredito que não, pois foi a primeira canção responsável pelo surgimento do chamado gênero 'samba-exaltação'. Era o Brasil de uma época menos culposa e mais esperançosa. Pena que atualmente ele não seja como outrora, visto o grau de corrupção em desenfreada corrida aos olhos de uma população pacata e ainda com um mínimo de instrução.

De Álvaro Nunes ( J. Cascata) e Leonel Azevedo:

Lábios que eu beijei
Mãos que eu afaguei
Numa noite de luar, assim,
O mar na solidão bramia,
E o vento a soluçar pedia
Que fosses sincera para mim...

*

...
Tua imagem permanece imaculada
Em minha retina cansada
De chorar por teu amor
...

*

Mãos que eu afaguei
Volta,
Dá lenitivo à minha dor...

Obs: Alguns versos da valsa 'Lábios que eu beijei'(1937), música gravada por Orlando Silva no mesmo ano. Em meados dos anos 30, o Álvaro Nunes decidiu adotar o nome artístico de J. Cascata, apelido trazido da infância. Nasceu no bairro de Vila Isabel em 23 de novembro de 1912 e morreu no Rio de Janeiro em 27 de janeiro de 1961. Suas primeiras composições foram gravadas nos anos 30 por Orlando Silva, Sílvio Caldas e Luís Barbosa.
O seu parceiro Leonel Azevedo, carioca, lançou sua primeira música 'Chora Coração' em 1930. 'Lábios que eu beijei' foi gravado naquele ano(37) com arranjo de Radamés Gnattali (1906/88) e ficou sendo o maior sucesso da dupla. Azevedo nasceu em 27 de julho de 1905 e morreu em 15 de outubro de 1980. Era também cantor.


ESPAÇO LIVRE


OLHARES


Em teus olhos eu vejo
o ontem tão risonho
vejo o hoje de esperança
mas o amanhã tristonho.

Em meus olhos tu vês
o amanhã de uma ilusão
vês o hoje ambíguo
e o ontem de uma razão.

Entre tristezas e alegrias
nós nos embriagamos
de supostas melancolias.

E meus olhos nos teus de um
amor em diligente tensão.

Bené Chaves



sábado, junho 09, 2007

O texto abaixo foi publicado aqui em agosto de 2004. Coloco-o novamente para os que ainda não o leram. O poema é inédito.
TIA CHICA


Meu pai nasceu no alto sertão, em um lugarejo chamado Ferrões. Desde cedo começou a trabalhar no cabo da enxada, como se dizia. Criou calo nas mãos. E andava não sei quantos quilômetros a pé para alcançar o grupo escolar do município próximo. Porém, foi praticamente um autodidata.
Andou depois por esse mundo afora, desambientado e desprovido. De aldeolas e cidades... E de tudo sentiu e viu, desde terrenos incultos onde medram plantas agrestes, como o mandacaru, a oiticica, o cajueiro-bravo, o xiquexique. Lá nos cafundós-do-judas!
Portanto, passado esse período de indecisões e privações, conheceria minha mãe em Gupiara, claro. Atrelou-se ali talvez pelas coincidências e circunstâncias da vida. Ou como já dissera: atraído pela lenda dos diamantes.
E depois de alguns meses de ter arrumado os trapos com sua mulher, decidiu contratar uma boa cozinheira para a culinária. O estado dela, lógico, facilitou, pois aquela barriga não parava de encher. Evidente que sim...
Chegou, então, Tia Chica, uma velha gordona, retinta. Diziam que suas mãos eram de ouro. Perto do fogão, a preta era o cão. No bom sentido, óbvio. E o cheiro de sua comida atraía e embriagava o quarteirão inteiro.
Acho até que meu pai deve ter se arrependido, pois seria quase certo que ele iria engordar quilos e mais quilos. E sua mulher, ah!, nem se fala, aí sim, deveria ficar igual a um balão. Aquele aroma enfeitiçava qualquer um. Parecia magia.
Tia Chica jurou pra meu pai que conheceu a pessoa que explorou aqueles diamantes. Pela alma de minha mãe, dizia ela, cobrindo os cabelos esvoaçados e com aquele enorme cachimbo no canto da boca. Caíram-lhe pedras do bolso, pode acreditar. Inclusive cheguei a juntar algumas, porém o cretino foi rápido e sumiu, arrebentando-as de minhas mãos, completou um pouco furiosa.
(Ah, quantas saudades daquelas iguarias! Agora mesmo, enquanto escrevinho aqui, sinto o cheiro da comida esmerada pelas mãos de magia da preta velha).
Assim era a verdade de Tia Chica. Assim falava e jurava. Mas, podia ser também apenas a lenda e o anedotário de Gupiara.
Era. Não era. Parecia ser. Não ser. Era não. Parecia não ser.


ESPAÇO LIVRE



INTIMIDADE


Acordei na minha madrugada
e ouvi pássaros a sibilar
cânticos de esperança.

Abri, então, a janela
e os vi tateando estrelas
ante uma tênue escuridão.

Imaginei-me solitário, ingênuo
aos ruídos e ecos do infinito
nos caminhos do porvir.

Bené Chaves




sábado, junho 02, 2007

VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (7)



De Noel Rosa:


Quando eu morrer,
Não quero choro nem vela,
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela.

*

Se existe alma
Se há outra encarnação
Eu queria que a mulata
Sapateasse no meu caixão.

*

Não quero flores
Nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta
Com violão e cavaquinho.


Obs: Gravada pelos cantores Francisco Alves e Mário Reis, 'Fita Amarela'(33) fez muito sucesso no carnaval do mesmo ano. Noel Rosa tanto fazia letras como também músicas e era considerado o compositor mais fértil porque retratava - com uma fina ironia e sensibilidade - a sociedade brasileira dos anos 20 e 30.
Uma curiosidade: sua mãe teve um parto muito difícil e os médicos tiveram de quebrar o maxilar do mesmo, daí o aspecto defeituoso no rosto. Ficou quase sem o queixo. Mas, era um célebre compositor. Pena sua morte precoce com apenas 26 anos. Apesar disso, ainda deixou mais de duzentas músicas para o deleite de todos nós.



De Sílvio Caldas e Orestes Barbosa:


Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria.

*

Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
...

*

Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabocla, o luar, o violão.

Obs: Sílvio Caldas nasceu em 23 de maio de 1908 no Rio de Janeiro e conviveu com a música desde criança. Foi companheiro dos melhores compositores e cantores dos anos 30 aos 80. Foi quem musicou 'Chão de Estrelas'(37) em parceria com o Orestes Barbosa, sempre um bom letrista. Orestes nasceu na região de Vila Isabel, na Aldeia Campista, em 7 de maio de 1893. E morreu aos 73 anos em 1966, enquanto o seu parceiro foi embora bem depois já com 90 anos.