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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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sábado, novembro 27, 2004

A TERRA (Intervalo)



A vida começara a realçar, a separar e a tilintar diante de pedras, grutas, tascos e uma infinidade de objetos surgidos no chão da terra seca e braba, sol rasante e lua delirante. Aquilo sim é que era estupidez, molestamento! No mais, tudo enfim ficou e fixou, dito e entredito, conforme as resignações, inquietudes e instâncias da ocasião. E com o que era de se supor.

E depois, pouco tempo depois, vieram as desgraças sem graças e o que de pior poderia ou deveria acontecer. Uma vastidão e devassidão tomaram conta do espaço ocupado.

Raças apareceram, classes se formaram e línguas se difundiram, desenvolvendo-se uma promiscuidade incomum, com tanto homem e mulher a fornicar. Enfim, uma plêiade de necessidades e necedades foi surgindo e adquirindo volumes diversos.

À falta de uma boa temperatura, todas as coisas explodiram de insciência e impulsividade. A terra tinha brotado e se dividido.E o homem, a mulher e a criança, todos postos ali sem um propósito, estavam abobalhados, boquiabertos. Teriam nascidos e colocados assim, sem mais nem menos? Somente para tornar duradoura uma espécie? Que espécie seria essa?

Desde tempos idos e vindos que batucavam nesta tecla. E queriam saber a razão daquilo tudo, do caso inusitado. Seria a antítese dos sexos a grande delinqüente, a verdadeira vilã? Ou a verdadeira razão? À vista disso... vilã ou razão, ah, quanta imprudência, desvirtuamento e impudência!

Tudo se relaciona mesmo com a dita rivalidade entre o homem e a mulher. E se não fosse a diferença entre eles, lógico, não se estaria aqui. A necessidade que o macho tem de querer uma fêmea antes passa pelo desejo carnal, seja ela bonita ou feia. E na época das cavernas, do indivíduo no seu estado primitivo, nem se fala... bastava ser do sexo oposto. Ou falando, melhor dizendo, escrevendo grosseiramente: andar com uma lasca entre as pernas.

Portanto, o prazer que os sexos opostos sentem um pelo outro é enraivado, arraigado. E daí vem a extrema carência do desejo, a irascibilidade latente. Essa bagaceira do prazer e ruidosa vontade do inolvidável.

Disseram que dali em vante o homem sobreveio afogueado, senhoreou-se de vez, tido e havido. Tendo o trunfo maior, que é o órgão penetrador, deu valimento e lenhada de lado a lado. Lés a lés. Houve, a partir daí, chamuscadura entre os opositores. O amor e o ódio passaram a viver colados um ao outro. E o tempo, então, voou com explodida rapidez...

ESPAÇO LIVRE



CICLO-VICIOSO


Ontem lembradas
festejadas.

Nascidas sob
a égide de sorrisos.

Hoje molduras
nas paredes úmidas.

Eclipsadas em
raras lágrimas.

Amanhã pedaços
de quase nada.

Relegadas ao
esquecimento.


Bené Chaves








terça-feira, novembro 23, 2004

CARNAVAL EM GUPIARA




Quando meu pai chegou em Gupiara já era quase época de carnaval. Então ele fez logo amizade nos seus arredores e junto com pessoas de sua idade organizaram um bloco para a festa que se aproximava. E fundaram um de nome esquisito: O Inferno das Cuias. Apesar do nome feio e estrambótico, o pequeno grupo queria se divertir pra valer. E realmente aproveitaram aqueles dias de uma festa profana, no dizer ainda de velhas carolas que viviam cuidando mais de assuntos não pertinentes às mesmas.

Acho que Painhô não tinha conhecido minha mãe, porque depois me disse que se enrabichou por uma suposta donzela que era um verdadeiro antro do prazer. Dessas de você ficar babando e depois comer (a baba, claro) com os próprios lábios.

Época difícil aquela, a idade era um martírio, meu pai ainda na agitação do espírito e querendo aproveitar o restinho de uma pós-adolescência. E a juventude, mesmo que um pouco tardia, seria adequada para a dita ocasião.

No lugar onde Painhô nasceu nunca brincara o carnaval, não existiam condições para isso. Ali, só havia uma seca brava, a enxada e a terra falavam melhor. E sua mãe, minha avó, portanto, exagerava nos cuidados de seus filhos. Sabia ela que eles eram jovens e queriam aproveitar a idade, principalmente Painhô, o mais velho de todos.

E meu pai vivia dizendo que o tempo não espera por ninguém, é efêmero e tem lá as suas encrencas. Mas, o melhor era não decifrá-lo por enquanto. Quando chegasse a hora ele teria um compromisso com a verdade. Nua e crua.
A vivência faz o homem, a consciência depende do lado humano, sua criação, o modo de olhar o mundo e julgá-lo. A festa do começo do ano era a alegria do povo, porém, era, também, paradoxalmente, a sua tristeza. Um desalento endógeno.

Seriam três ou quatro dias para desabafar incertezas, enganar-se em desilusões. E depois viriam os resquícios das cinzas, apenas a desesperança que ficara para trás. Aquela mesma borralha espalhada e absorvida pelo ser humano na continuidade de uma vida de valores inexistentes.

Mas, diante de si, Painhô olhou o entusiasmo na rua e não fez por menos, caiu no chafurdo com o bloco carnavalesco. Os outros na ilusão de noventa e seis horas, perdidos no meio da vida. Sumidos numa pseudo-alegria.

O carnaval fora embora. Nada mais de confetes, serpentinas ou pierrôs. Ou mesmo o palhaço fazendo muganga. As máscaras caíram nos esgotos de uma existência não atingível.


ESPAÇO LIVRE


DÚVIDA FINAL


Aos poucos se chega ao fim
um tempo de raras glórias
incertezas da época acabada
interinidade não propícia.
As cinzas então rarefeitas
cobrem o ar da cor plúmbea
no espaço de pouco duração.
Imaginam-se inocentes
nas penugens de uma vida.

E espalham-se no infindável.

Bené Chaves



sexta-feira, novembro 19, 2004


O POEMA DE PAINHÔ

Naquela noite a lua tava cheinha cheinha e as estrelas iluminavam o céu. Pareciam adivinhar alguma surpresa de meu pai. Deitado na rede ele começou a olhar o infinito, aquela vastidão sem fim. Disse que iria declamar um poema elaborado dias anteriores e que dera o nome de Decassílabos. Então começou, minha mãe com os ouvidos atentos aos seus ditames:

Amo o fulgor das loiras madrugadas
Ou o reflorir da aurora rossicler
Amo o viço estuante da floresta
E a sedução de um riso de mulher
Amo o fragor da luta audaz e forte
Que dá glória na vida ao humano ser
Mas repilo o perjúrio / fingimento
Porque amo somente a quem me quer.

Amo a saudade imensa do sertão
Quando o inverno faz tudo renascer
Relembro a dor daqueles que partiram
E à terra mãe jamais hão de rever
Amo o sofrer da noiva desterrada
Que deixa o coração com o bem quer
Mas repilo o perjúrio / fingimento
Porque amo somente a quem me quer.

Amo do amor as sensações ardentes
Que em vibrações nos fazem estremecer
Tornando os corações todos frementes
Na ânsia incoercível do prazer
Amo a beleza da afeição sincera
Que nos protege e ampara no sofrer
Mas repilo o perjúrio / fingimento
Porque amo somente a quem me quer.

Amo a Ciência, amo a Filosofia
Focos de luz do mundo do saber
Formas divinas de estender ao homem
O que Deus reservou do Seu poder
Amo a harmonia cósmica dos Mundos
E os sentimentos místicos profundos
Que as relações com Deus dão a entender
Amo a carícia lírica do vento
Mas repilo o perjúrio / fingimento
Porque amo somente a quem me quer.

Acho que Mainhô ficou mais cuidadosa nas duas últimas estrofes, esperando, claro, retribuir, sem falsidade, o amor de seu marido. E depois que todos ficaram atentos, inclusive a bonita lua que já estava quase encostada no telhado da casa, parece ter havido um avivamento geral também das estrelas que clarearam o firmamento de um azul celeste.
Tia Chica, de tão admirada que ficou, quase deixava queimar a janta daquela noite.

ESPAÇO LIVRE



VAGUEANDO...


Muitos acreditam na existência de um ser superior, enquanto outros poucos ficam indiferentes ou ignoram, assim como também existem os agnósticos e os totalmente ateus. Mas, o certo (ou não?) é que foi criado um mito pelo medo do próprio homem. E a essa criação deram o nome de Deus, que se supõe ser uma divindade suprema para amainar o seu desespero ou sofrimento. Avaliem, então, se não existisse tal deificação, como não seria esse mundo, hein? Diria até que foi providencial e necessária para os que pretendem vivê-lo. E a presença, então, dessa divinização, se fez evidente. Afinal, já dizia Kierkegaard que Deus é uma exigência do desespero, um postulado do existente.
.



segunda-feira, novembro 15, 2004

ESQUISITICES EM GUPIARA





Gupiara vivia sua vida. A igrejinha onde se reuniam aos domingos servia mais para comentários sobre o que acontecia (e aquela estória do sujeito que tentou explorar diamantes já chegara à exaustão) nos arredores, do que propriamente para a real finalidade, ou seja, rezar. A não ser as velhas devotas que se plantavam ali e ficavam os restos da manhã. Pois bem!

E vale registrar aqui que alguns habitantes do singular lugarejo tinham nomes e corpos estranhos. Na rua onde Painhô e minha mãe moravam vez ou outra surgiam nas cercanias próximas indivíduos monstruosos e além de nossa imaginação. Rostos deformados não raro apareciam e faziam medo à criançada inocente.

As crenças levavam fé e diziam ser coisa feita em terreiro, vingança de família, manifestações próprias de cidades pequenas. Enquanto algumas pessoas tinham receio, outras nem ligavam ao episódio. E as fanfarrices aumentavam e serviam de riso para alheios.

Esquisitos nomes como Insulino, Aborígene, Dilúvio e outros, sempre vinham à tona mesmo que em escalas menores. Porém era gente boa, honesta, dessa de se entregar ouro em pó. Apenas os seus pais não foram felizes na hora do registro. Ou então resolveram, por um motivo ou outro, diferenciar do lugar comum.

Fomos nos acostumando ao cotidiano e deixando passar tais fatos insignificantes, não nos importando mais com detalhes corriqueiros. Embora surgisse aqui e acolá uma estória ou outra com cunho de perversidade. E, então, aos poucos, todos iam acabando a intromissão nos assuntos alheios.

Juro por tudo nesse mundo que uma única vez manguei dos pobres coitados. Terminei mandando-os pros cafundós-do-judas, sem nem mesmo saber onde ficava tal lugar. Coisa de menino buchudo mesmo.

Mas, houve um caso banal: certo dia um se meteu a besta e quis me bater. (E eu me lembrei daquela cantoria de Painhô: nego danado nunca diga que me deu...). O certo é que corri léguas com medo daquele monstrengo de nariz empinado e no meio da testa. Não sei onde fui parar. Certamente no lugar onde o teria mandado anteriormente. Estava suado como nunca.

Porém voltei pra casa onze e trinta e já era hora do almoço. Ah!, as deliciosas comidas de Tia Chica. Painhô me contou que ela fez um baião-de-dois que era coisa de cinema, somente ela conseguiria aquele chamado gosto ideal. Meu pai e Mainhô nunca comeram tanto em suas vidas.

E, então, todos saborearam e defecaram e saborearam e defecaram. A preta velha tinha realmente suas mãos esmeradas. Mas, acho que naquele começo de tarde o sanitário quase entupiu de tanto vai-e-vem.



ESPAÇO LIVRE



D E S T I N O


A vida está chegando...
Para mim
Para você
Para ele
Para ela
Então o que será
dos outros?

A bela juventude de
glória transitória
passada da rasteira
para a rabeira.

E na inglória velhice
os tristes e exatos sinais:
tombos /sonhos / ilusões
da fugaz e obscura
existência.

Bené Chaves



quinta-feira, novembro 11, 2004


Abro hoje mais um parêntesis para compartilhar com todos vocês da crônica do escritor e crítico de cinema Francisco Sobreira (Natal) sobre os 25 anos da morte do grande cineasta JEAN RENOIR.



JEAN RENOIR

Francisco Sobreira

Disse François Truffaut que esse filho do pintor Auguste Renoir foi o maior cineasta do mundo; contudo, o diretor de Jules e Jim fazia a ressalva de que a sua opinião revelava um sentimento pessoal. O certo é que Jean Renoir tornou-se um dos diretores mais importantes, por ter realizado alguns grandes filmes na década de 1930. Foi, de longe, o seu período de maior vigor criativo, quando fez A Grande ilusão (1937) e A Regra do jogo (1939), duas incontestáveis obras-primas, de presença obrigatória em qualquer relação dos maiores filmes de todos os tempos. Sobre A Regra do jogo, aliás, Truffaut dizia que ele e Cidadão Kane foram os filmes que mais despertaram vocações de cineastas. Ainda dos anos 30 é Toni (1934). Ao narrar um fato verídico, com elementos e características que balizaram o Neo-Realismo italiano, Renoir antecipou, para alguns críticos, a inauguração daquele movimento em quase dez anos.

Um dado a destacar na obra de Renoir é que boa parte dela foi buscar inspiração na literatura. Ele adaptou para o cinema, sempre escrevendo o roteiro, Émile Zola (Nana e A Besta humana), Hans Christian Anderssen (La Petit Marchande de Allumettes), Georges Simenon (La Nuit du Carrefour), Gustave Flaubert (Madame Bovary), Guy de Maupassant (Une Partie de campagne), Maximo Gorki (Bas-fond), além de autores menores.

Seu primeiro contato com o cinema deu-se em 1902, com a idade de oito anos. Ele recorda a experiência, com emoção e nostalgia, no livro Escritos sobre cinema (editora Nova Fronteira, 1990), uma coletânea de memórias, artigos e crônicas. Num domingo de manhã, no internato em que Renoir estudava, apareceu um homem com um cinematógrafo, para promover uma sessão de cinema. Ele confessa que começou a amar o cinema, a partir daquela exibição, e que nunca esqueceu o programa apresentado naquele remotíssimo domingo, dando tudo para poder revê-lo.

Durante a Segunda Guerra, Renoir manteve um auto-exílio nos Estados Unidos, onde dirigiu cinco filmes. É o período menos feliz de sua carreira, com resultados inferiores aos obtidos por seus compatriotas Julien Duvivier e René Clair no mesmo país. Qual a razão disso? É muito provável que o mais francês dos diretores, na visão do historiador e crítico Georges Sadoul, não tenha se adaptado à realidade da sociedade ameicana, nem ao sistema de cinema hollywoodiano. O mesmo Sadoul afirmou, com um certo exagero, que esses anos de Renoir na América foram quase perdidos para o cinema.

Foi o mais ilustre, mas não o único da família Renoir a se envolver com o cinema. O irmão Pierre foi ator (teve a sorte de atuar em O Boulevard do crime, a obra-prima de Marcel Carné), e o filho deste, Claude, destacou-se como um talentoso diretor de fotografia, tendo trabalhado em alguns filmes do tio.

Jean Renoir faleceu em 1979, há 25 anos, portanto, nos Estados Unidos, onde estava residindo.


ESPAÇO LIVRE
PARAFRASEANDO...

Vivendo lá nos idos dos anos 531-478 a C., o filósofo Confúcio ? quanto aos caminhos e descaminhos obscuros de uma vivência justa ? declarava: se a humanidade fosse governada com justiça durante apenas um século, toda violência desapareceria da terra. Procurava compreender o ser humano, porém batia na tecla de que não me preocupa muito que os homens não me entendam.O que me aflige é não os entender.
Vejam como naquele tempo as pessoas já eram difíceis. Avaliem vocês, caros leitores e leitoras, se Confúcio vivesse no mundo atual, com um elo forte de corrupção atiçando as falsas probidades humanas. Acho que ele não resistiria...



domingo, novembro 07, 2004

ESTÓRIAS DE VERSAR



Meu pai chegou no alpendre e viu Mainhô sentada na cadeira, movimentando os lábios. Então cobriu seus olhos e ela teve um moderado susto. Disse: fazia um sapatinho de crochê, aqui pro nosso filhinho, apontando para a barriga. Deu, então, um beijo na face dela e deitou-se na rede descansando, enquanto Tia Chica não chamava para a janta.

Pegou o violão e tentou ensaiar alguns versos. Mas, meu filho, eu não me sentia bem. Na verdade às vezes a gente fica meio indisposto. E, naquela beirada de noite, estava macambúzio. Sem nem entender a palavra que falou fiz de conta que a tinha compreendido.

A lua não quis sair e tudo ficou no escuro mesmo. Me lembrei, então, quando criancinha, o papai-oião rondando nossa imaginação e estórias de assombração dizendo das proezas dos lobisomens, minhas mãos cerradas à saia de Mainhô. Existia também o papa-figo, sinal de alerta para menino desobediente, sobreaviso de brincadeira e inocência.

Época boa aquela, que devia ter persistido. Arre, arre! Grunhem-se e soltem-se gritos de pavor contra o dito progresso da civilização.

Mas, meu pai disse que tinha feito alguns versinhos e começou a citá-los, embora sem entusiasmo:

Ah, vidinha sem graça essa
jamais ultrapassa...
perpassa e repassa
que raramente traspassa
cheia de muita desgraça.
Ah, vida louca, paradoxal
não tendo sentido factual
ilógica e sempre usual.
De dor e pouca raça
sentimentos perdidos
amores tantos sofridos
e outros adquiridos.

Além de não esconder um certo descontentamento, Painhô ocultou, virou o rosto, fincou os olhos somente nas cordas do violão. E a lua pareceu solidária com ele e solitária como ele, pois ninguém conseguiu enxergá-la na ocasião.

Continuou, portanto, sua peregrinação nostálgica:

Da menina passada
a virgem que não olhou
da mulher amada
e a velhice que chegou.

Vida de gigantesca trapaça
sem leito, nenhuma taça
deixando pessoas sem praça
vidinha que passa e não passa.


Gupiara ficou triste naquela noite, todos ficaram melancólicos. Painhô pareceu-me fazer uma previsão futura. Mainhô me disse que até a comida de Tia Chica não saboreava. A cidade era nossa vida, mas, paradoxalmente, não era. Meu pai não queria que ela crescesse, desejava Gupiara bonita, humana. Acho que ele tinha razão que a própria razão desconhecia.



ESPAÇO LIVRE


EXTREMOS


Sonho para não ter decepções

vivo só para sonhar ilusões

luto não atingindo soluções

padeço rogando justas decisões

amo querendo sempre uniões

morro cessando imaginações .






quarta-feira, novembro 03, 2004

ESTÓRIAS DE CONTAR



Naquela noite de lua cheia, Painhô carregou minha mãe pelo braço e foram os dois pro alpendre. Tia Chica ficara na cozinha preparando outra de suas iguarias. E os dois começaram a repassar dias gloriosos. Ela, a lhe contar que estava muito feliz desde que o conhecera. Dizia então: vim traçar com você o meu destino e não me arrependo. Vê como são as sinas da vida!...

Meu pai deitou na rede e, ao invés do violão, começou a contar fatos do passado. Somente os dois ali, ao som de um silêncio abismal. E falou da estória famosa do pote, que ficou conhecida naquela região e circunvizinhanças:

Numa reunião quase semanal que era feita na casa de um amigo, todos se entretinham no jogo de cartas ou então em conversas de jogar fora. E algumas cervejinhas ao lado, que ninguém é de ferro. A noite, portanto, distendia-se salutar quando um dos presentes pediu um copo de água. Mas, como a dona da casa estava ocupada em fazer petiscos, solicitou que tal pessoa não se envergonhasse e fosse beber tão precioso líquido.

A casa era meio esquisita e pra se ir até à cozinha, tinha-se de passar pelo corredor que levava aos dormitórios. E lá se foi o destemido cidadão em busca do seu desejo.

Contudo, passaram-se alguns minutos e nada do indivíduo voltar. Daí, depois de breve intervalo, retorna ele, mais alegre do que pinto em beira de cerca. E como se tivesse saciado toda sua sede.(Registre-se aqui de que pinto em beira de cerca fica alegre porque toma banho nas lagoas das imediações, evidenciando com isso seu refrescamento e sentimento de alegria).

O ditoso sujeito, portanto, confidencia aos companheiros o que ocorrera... E logo a seguir os demais seguem em fila, um a um, o itinerário estranho e curioso. Porém, volta e meia, a sede ataca novamente àqueles já saciados.

Desconfiada, pois o marido estava grogue, a anfitriã vai olhar o sucedido. E depara-se no corredor com a porta do quarto semi-aberta. Ali, ela descobre o motivo de tanta sede. Sua filha dorme numa posição sensual e convidativa aos olhos dos sequiosos. E bote atração nisso!

Vexada e confundida, a esposa grita em alto e bom som ao marido já alcoolizado: chega Gusmão, vem ajeitar tua filha senão eles secam o pote! Apesar do mesmo, lógico, ainda conter água escorrendo pelo gargalo.

Tia Chica grita que a janta está esfriando. Os dois ficaram tão absortos que não sentiram o cheiro vindo lá de dentro e tampouco o chamado da preta velha.


ESPAÇO LIVRE



CANTO PARA UMA MULHER


Dou-te um amor de versos
amores diversos
mas quero-te em beijos
passear ao redor de ti
dos seios generosos
à vulva suculenta.

Num orgasmo paroxístico
derramar o sêmen espumante
tua palavra em desmonte
teu corpo a faiscar de calor.

E em contínuas invenções
fodê-la diuturnamente.

Sem dor, temor, dó
e tremor.