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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
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a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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domingo, novembro 07, 2004

ESTÓRIAS DE VERSAR



Meu pai chegou no alpendre e viu Mainhô sentada na cadeira, movimentando os lábios. Então cobriu seus olhos e ela teve um moderado susto. Disse: fazia um sapatinho de crochê, aqui pro nosso filhinho, apontando para a barriga. Deu, então, um beijo na face dela e deitou-se na rede descansando, enquanto Tia Chica não chamava para a janta.

Pegou o violão e tentou ensaiar alguns versos. Mas, meu filho, eu não me sentia bem. Na verdade às vezes a gente fica meio indisposto. E, naquela beirada de noite, estava macambúzio. Sem nem entender a palavra que falou fiz de conta que a tinha compreendido.

A lua não quis sair e tudo ficou no escuro mesmo. Me lembrei, então, quando criancinha, o papai-oião rondando nossa imaginação e estórias de assombração dizendo das proezas dos lobisomens, minhas mãos cerradas à saia de Mainhô. Existia também o papa-figo, sinal de alerta para menino desobediente, sobreaviso de brincadeira e inocência.

Época boa aquela, que devia ter persistido. Arre, arre! Grunhem-se e soltem-se gritos de pavor contra o dito progresso da civilização.

Mas, meu pai disse que tinha feito alguns versinhos e começou a citá-los, embora sem entusiasmo:

Ah, vidinha sem graça essa
jamais ultrapassa...
perpassa e repassa
que raramente traspassa
cheia de muita desgraça.
Ah, vida louca, paradoxal
não tendo sentido factual
ilógica e sempre usual.
De dor e pouca raça
sentimentos perdidos
amores tantos sofridos
e outros adquiridos.

Além de não esconder um certo descontentamento, Painhô ocultou, virou o rosto, fincou os olhos somente nas cordas do violão. E a lua pareceu solidária com ele e solitária como ele, pois ninguém conseguiu enxergá-la na ocasião.

Continuou, portanto, sua peregrinação nostálgica:

Da menina passada
a virgem que não olhou
da mulher amada
e a velhice que chegou.

Vida de gigantesca trapaça
sem leito, nenhuma taça
deixando pessoas sem praça
vidinha que passa e não passa.


Gupiara ficou triste naquela noite, todos ficaram melancólicos. Painhô pareceu-me fazer uma previsão futura. Mainhô me disse que até a comida de Tia Chica não saboreava. A cidade era nossa vida, mas, paradoxalmente, não era. Meu pai não queria que ela crescesse, desejava Gupiara bonita, humana. Acho que ele tinha razão que a própria razão desconhecia.



ESPAÇO LIVRE


EXTREMOS


Sonho para não ter decepções

vivo só para sonhar ilusões

luto não atingindo soluções

padeço rogando justas decisões

amo querendo sempre uniões

morro cessando imaginações .




por benechaves às 21:03