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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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domingo, março 26, 2006


MONÓLOGOS IMPERTINENTES


Pra começo de conversa vá pra ponte que caiu, pra não revelar ditado pior. E faça o favor de me deixar sossegada. Que cara mais chato... Fica o tempo todo importunando a gente e ainda por cima quer ter razão. Ora bolas! Não estou aqui pra agüentar chateação de ninguém, ouviu? E vê se sai daí, senão chamo seu pai e ele resolve isso agora. Demais fiquei muito aborrecida com o que aconteceu trasantontem, lembra-se? É... Mas me lembro bem e não pense que vou esquecer assim de um momento pra outro não. Vai ficar aqui, oh, guardadinho na minha cachola. Você pensa que a gente é doida e deixa passar suas maluquices sem quê nem mais, não é mesmo? Está muito enganado... Hein? Taqui pra você! E não adianta ficar imaginado mil e uma coisa. Sei que todos irão dar razão a mim. Cabrinha mais besta! Fica aí com suas travessuras e não assume nada, a gente é que paga o pato, né? Onde já se viu... Deixe-me dizer a sua mãe, sei que ela dará um bom carão em você, meninão do rosto esburacado e branco que nem lesma. Então quero ver você estrebuchar, ora se quero! Você sabe que não gosto de mexer com os outros. E por que toda essa arenga comigo? O que eu fiz? Diga, se tiver coragem. Quando acaba fica se fazendo de bicho danado. Hum! Hum! Quer saber de uma coisa? Até que ia dar um presente no seu aniversário. Mas, depois de tudo isso... Oh!, jamais, jamais. Tanto que gostava de você, lembra? Quando era pequenininho eu o levava pra passear na praça, no parque de diversão, a roda-gigante e o trenzinho fantasma, você, oh, todo elegante, de óculos escuros, parecia até gente. E chegava a me beijar pra que eu fosse, lembra disso? Só gostava mesmo de comer bagana, essas coisas desse tipo. Era um dia feliz pra todos nós e eu ficava radiante. Pois é: agora você me dá o troco. Tem nada não, a vida é assim... Um dia atrás do outro e uma noite no meio, uma alegria, uma tristeza, outra surpresa e decepção. Fiquei desgostosa de tudo, não imaginava tal reviravolta, pelo que fiz ou não fiz. Lembro que sua mãe dizia que você gostava de mim pra burro. E seu pai, ah!, nem se fala... Todos me queriam bem. E claro que retribuía suas afeições. Agora você me vem com essa... Estou farta e acho que arrumarei minhas malas e vou embora. Demais, não precisa chorar, viu? Seu fingido! Não foi o único culpado? Tire sua cara de menino velho de cima de mim!

"Não quero ir embora não, até que gostei do que ele fez comigo. Mas a gente não pode dar assim o braço a torcer, não é mesmo? Senão fica tudo muito feio, a gente tem de aparentar não estar gostando, sabe... Como quem ama e não ama. Tenho meu orgulho também. Sei que fui chata com ele, o pobrezinho não merecia, não queria e eu ali insistindo, insistindo, feito gato em cima de gata, que situação triste aquela. Essa vida é mesmo lascada! Lógico que o vi nascer, fui eu mesma quem trocou sua roupa, toda bonitinha, olhe meu filho, esta aqui está melhor, fica mais bonitinho, uma coisinha fofa de verdade. E agradava, agradava, limpava, inclusive, o seu pênis branquinho, meio duro ainda, como quem não quer querendo. Como era gostoso vê-lo nuinho sem pêlo, quando ia dormir ficava tesa, olhando algo, ai, ai... Depois o melaço escorrendo pelas pernas, minha nossa-senhora! É nisso o que dá: está vendo, não agüentei e foi um corre - corre de louco, puf!, puf!... Concordo que era uma quenga, gostava por demais de sexo, ficava em uma quentura dos diabos, imaginando a delícia de um pau entre minhas pernas. Porém, depois, com o passar dos tempos, fui me endireitando, hoje sou uma mulher - pode-se dizer - respeitada, não sou mais uma não sei o quê, uma zinha qualquer, estou agora na minha vidinha limpa e pronto. Acho que mereço o perdão, sei lá... Vou ficar calada pra ver a reação dele".

ESPAÇO LIVRE

A minha amiga Fabiana Lamego, do blogue
http://reflexoesdevida.blogspot.com/, mandou-me um poema de sua autoria. Compartilho com vocês, então, o texto da amiga:

VIDAS...

Se pudesses desnudar
os véus íntimos do meu ser...
verias tua imagem
refletida nas vidas
que passeamos gêmeos
sem nunca nos alcançarmos.
Verias minhas esperanças
sempre vãs de dizer-te que te amo
naqueles dias azuis.
Se pudesses penetrar minha alma
verias quantas existências
tecidas de amor cristalino
nas quais construí
meus sonhos e meus castelos.

Só para imortalizar-te
eterno, renascendo
e me fazer feliz!











domingo, março 19, 2006

NOS TEMPOS DA INFÂNCIA

Na Gupiara de minha infância não tive maiores problemas, acredito que os obstáculos foram transpostos com serenidade e dentro do que se esperava acontecer. Como sucedia, claro, com a maioria das boas famílias de então. Supus ter iniciado os primeiros passos com menos de um ano e nos meses indicados feitos os desjejuns necessários com o leite materno. Lembram-se do que dizia a parteira? Aquele ali vai ser um menino de belo porte, falava a mesma para os curiosos de plantão. Se tive uma criação com carinho não sei bem, mas tudo levou a crer que não reclamara ou objetara . Dissera, inclusive, que preferiria não ter sido gerado. Mas, como já tinha nascido que me deixasse ser conduzido. E a rima surgia aí como uma primeira instância do momento. Dali poderia sair, quem sabe, um grande futuro. Ou, então, um enorme fracasso. O prosseguimento das facetas que teriam a possibilidade de sobrevir, ser-me-ia, talvez, o ponto fundamental a determinar o elo de minha existência. Deveriam caber, sobretudo, as dúvidas quanto a um pior ou melhor relacionamento com todos. E, partindo dessa premissa, poder eu dimensionar, desde cedo, as diretrizes do modo de ser ou viver, sabendo-se de minha inclinação para tentar modificar conjunturas estranhas e simuladas.

Lembrava, embora longinquamente e com uma visão dificultada, como fora aqueles dias infantis na casa de Painhô e Mainhô, como a tranqüila Gupiara despertava os desejos dos que diziam amá-la. Era uma cidade larga, de ruas esboçadas, contínuas e abertas, as avenidas contornadas de belas e frondosas árvores. Nos canteiros não se viam pedintes menores e nem famílias flageladas, seus traços seriam demarcados e perfilavam-se com harmonia. Numa imaginação culinária diria que se podia degustá-la com facilidade e sem o medo de algum engasgo. E saber, em conseqüência e de antemão, que sua índole e sabor não iriam fazer mal a nenhum de seus habitantes. Como não existia, ainda, a possibilidade de poluição e asfixia, presumia-se que a fumaça saísse timidamente do seu miolo e não indicasse uma futura e imprevisível feiúra. E a não agitada população parecia feliz com tudo, mesmo porque sentia um início e rasgo de esperança. Seria uma suposta alegria o princípio daquela suposta pacata cidade. Um esboço sem mistura... Também sem insensibilidade.

Mas, nem só de contentamento se deve enfrentar a razão da existência. O prazer e deleite seriam certamente efêmeros. E as dificuldades iriam aparecendo quase duradouras, em proporções que chegavam a assustar a maioria. Disso tínhamos consciência, batidas que foram as teclas várias vezes. Além do mais, o próprio condicionamento humano trazia resultados infelizes porque se eximia com irresponsabilidade dos deveres que lhes eram peculiares. Diante da plêiade de circunstâncias eu crescia. E também crescia Gupiara. No mesmo período que vi suas feições mudarem não me dei conta das transformações que iam ocorrendo, daí causando uma surpresa quando a presenciei inchar-se aos poucos. Diria que, num quase piscar de olhos, exagerando, estaria a cidade ficando presunçosa e alheia aos interesses que tanto desejei. A rivalidade ia cercando os seus encantos de outrora, deixando-a com um pronunciado e ambicioso preço.

ESPAÇO LIVRE
Mais uma vez a presença do amigo e poeta Eduardo Gosson. O seu livro 'Poemas das Impossibilidades' deve sair ainda neste semestre. Vamos lê-lo, portanto:




CANÇÃO DESESPERADA DO LÍBANO



Bombas explodem
no Líbano
matando a Vida

Crianças já não
pastoreiam...
não se pode colher
lindas maçãs
nem ouvir
o sussurro
dos ventos que sopram
do deserto

Os vinhedos
secaram
A voz do poeta
Kalil Gibran
emudeceu

Bombas explodem
no Líbano...










domingo, março 12, 2006


O dia 30 de maio (04 dias após o meu aniversário) de 1984 foi muito triste para mim. Perdia naquela manhã o meu pai. O meu Painhô que tantas vezes descrevi aqui nos textos. Fui ainda visitá-lo na Unidade de Terapia Intensiva, mas encontrei-o coberto de fios elétricos pelo corpo inteiro. Ele não via ou ouvia mais nada, não sei. Fiquei paralisado alguns minutos e saí sem esperança alguma. Chorei, chorei muito. Poucas horas depois aconteceu o seu encantamento. O relato a seguir saiu publicado na Tribuna do Norte em 29 de julho do mesmo ano. Espero que todos tenham uma boa leitura.

VIDA À MORTE


Casualmente o viu pela última vez antes de descer o patamar e se dirigir ao consultório médico. Houve um pequeno diálogo de palavras atenciosas naquele rápido encontro. Depois o homem também saiu para suas tarefas rotineiras, ficando no ar um clarão do derradeiro momento em que passaram um pelo outro. E, quando chegou de - noitinha, avisaram que ele, o senhor bondoso e humilde, visto por acaso no começo daquela tarde, sentira-se mal na ante-sala da médica que já o examinara. Depois de um eletrocardiograma em que tudo estava bem ele tivera uma tontura e desfalecera nos braços da profissional.
Fora avisado do acontecido e voou ao lugar indicado. Embora detestasse hospitais, teve de entrar no mesmo. Ficou ainda mais nervoso quando viu um punhado de gente, algumas pessoas chorando, outras simplesmente conversando, adiante terceiros discutindo assuntos alheios. Teve receio, seu corpo tremulou quando soube que se tratava de um caso sério.
Horas e horas se seguiram de angústia e desespero ao se confrontar (e, claro, todos que também se encontravam no local) com a triste realidade. Então vieram notícias sombrias e desenganadoras, metralharam enfim o infeliz anúncio: - O coração não suportou, está morto!
É evidente que naquele momento se acabara mais uma existência, uma singular existência. Seria, porém, verdade o que diziam? Morto? Ou estaria apenas sonhando? Ninguém acreditou na voz rouca e cortante. Houve um burburinho no suposto silencioso hospital...
Era um dia de uma manhã normal, nuvens cobriam pouco a pouco um céu meio azulado, de cor infinda. O irritado cidadão não dormiu naquela noite, somente ficou a chorar não acreditando ainda no irreversível fato e ato. Pensou que talvez pudesse estar vivendo um sonho de olhos abertos. E a vida pareceria ser uma verdadeira utopia, não passava mesmo de um ato violento. Desde o momento da feitura de um ser humano. O prazer vivenciado no instante era delicioso, óbvio, nada se comparava àquele deslumbramento. E quando nascia dali uma vida de raras alegrias e muitos problemas ou tristezas, os culpados éramos todos nós.
Argumentou que o desaparecimento súbito ou não de um ente querido também era outro tipo de brutalidade, fazendo-o, então, entristecer-se de tais ocasiões. E concordou quando um amigo comentou que a morte seria como uma porrada na cara. Ou no estômago. Todos teriam, mais cedo ou mais tarde, de enfrentar o nefasto episódio. Era apenas uma questão de tempo e sorte. Ou azar. Então, sentiu-se impotente diante de atos impiedosos e desprezíveis, de um verdadeiro conjunto de conseqüências danosas.
Achou, inclusive, que houve displicência no atendimento médico, essas coisas de aparelhos adequados em locais certos, etc., etc. Pra se ter uma leve idéia não existia um balão de oxigênio no consultório, daí todo o embaraço. Contudo, nosso coração é mesmo traiçoeiro, dizia para si, parece uma máquina a enferrujar-se com o tempo. Nada o detém. E tudo agora era tarde, não adiantavam lamentações, disso sabia e repetia. O inevitável estava ali.
O interlocutor falava, andava, procurava um meio de fazer vogar sua inútil luta contra a morte, se juntava a multidão, gritava que vivia num mundo de farsas, de expressões idiomáticas (e também, algumas vezes, idiotas), de malevolências. Desejava uma vivência eterna, terna, aqui na terra, uma vida sem crueldades, ambições inescrupulosas, desprazeres quase irrestritos, um mundo justo. Um mundo onde o Bem sempre superasse o Mal. Embora soubesse que desde os primórdios as coisas já tivessem nascidas erradas, trejeitadas e traspassadas de fanatismos e cobiças. Nada se criou de saudável.
Lógico que há de se convir que aquele cidadão quisesse uma bela existência para todos, talvez uma luta ineficaz, porque se sabia relacionada a uma indeterminável ação vivente. Andou um tanto pela rua deserta, queria ficar sozinho, pensar em algo que pudesse condicionar seus argumentos. E tudo parecia ser em vão, estaria ele perdido nas trevas. Então desabafou: putavida!
Mas, os fatos relatados na sabedoria que lhe era peculiar, na certa se orientariam para se amoldarem aos preceitos do inelutável cidadão. Sofria ele com as mazelas dessa ignóbil vida que não aceitava. Pra que desgraça maior? Ficavam somente os resíduos espalhados no turbulento cotidiano. A morte estava ali, se defrontando e se insurgindo contra todos os presentes ou ausentes. Ela se tornara dona absoluta de nós.
Embora o tempo estivesse normal uma tempestade invadiu lá fora, razão pela qual fez o ilustre homem acordar de um pesadelo. Ou melhor, aceitá-lo com raiva na sua impactante e brutal realidade. Copiou, então, uma idéia genial. E como no melhor da ficção, imitando o bom filme Superman, de Richard Donner, deu vários vôos ao redor da terra e a fez retroceder alguns anos. Era a arte querendo talvez modificar a vida. Conseguiu, com isso, juntar, não somente seu pai, mas, também, os entes queridos. E, então, todos surgiram a cantar e encantar como nos velhos tempos. Seria a sua renúncia dali em diante...
Continuemos neste delírio?

Bené Chaves






segunda-feira, março 06, 2006

O SONHO


Naquela madrugada de chuva em Gupiara acordei assustado com fortes e grossos pingos batendo na janela. Era com se alguém estivesse tentando entrar no quarto. Levantei-me e fui ao banheiro. Quando voltei estava fazendo frio e me cobri dos pés a cabeça. Daí foi um pulo para ressonar e sonhar algo perturbador. E vi-me, então, na iminência e decidido mesmo de sair da cidade. Ir morar numa casa de campo de qualquer vilarejo. Talvez achasse que Gupiara já não despertava minha atenção como de tempos passados. Mas, mesmo estando longe dela, não deixei, evidentemente, de me informar sobre os acontecimentos do seu dia-a-dia. Parecia paradoxal querer notícias de minha querida cidade, mas era assim que agia e reagia. E apesar dos comentários não serem nada elogiosos e sempre apontando um monstrengo em construção, notava que meus sentimentos voltavam às raízes. Acho que criara um eterno e terno amor àquele lugar e a algumas pessoas infiltradas na minha vida. Afinal, fora ali que vivi e revivi os melhores momentos da mesma.

No sonho não deixava dúvida, já adulto a reparar uma experiência a quantos desejassem. Instantes de uma orientação adequada e colocada em prática na árdua tarefa. E se foi uma decisão minha sair do complexo demográfico em plena efervescência, sabia também da indisposição que me levara a tal atitude. O feitio imposto à Gupiara fez, com certeza, que tomasse novo rumo. Claro que tive opinião contrária de quase todos, desde os menos íntimos como dos familiares. Caminhava para o inevitável e insuportável, que seria, óbvio, a velhice. Isto é, se algum fato novo não viesse interromper minha existência. Ficava comovido, de uma comoção brutal e impactante. A partir dali estaria relegado a um enorme e imprevisível esconderijo. Restavam-me, então, as lembranças dos bons períodos, desde quando nasci e fui disposto no mundo pelas intimidades de meus progenitores. Eles que o digam de suas aconchegâncias.

Mas sem ainda saber como fui gerado, se em dia de calor ou frio, sol ou lua, o sonho apenas mostrara que teria sido com amor e uma gostosa luta na cama ou algo similar. Neste pormenor a minha visão era ofuscada pela instabilidade do ambiente. Observei reflexos suavizantes e uma pálida luz me tentando mostrar o ocorrido. E da união dos corpos desejosos de Painhô e Mainhô e particularidades outras eu devo ter surgido depois de uns nove meses. Ou como dissera minha mãe, revelando que talvez estivesse gostando do aconchego de seu ventre. Se pudesse escolher era evidente que não sairia de lá tão cedo. Em seguida, coube-me dissertar e dissecar atribulações desde pequeno, enquanto ser humano a acusar o perfil de uma pessoa honesta. E no estado letárgico, no conforto daquele frio colchão, vi-me já adulto como um sujeito que fosse de encontro também com arrogâncias e prepotências de outrem na maleabilidade transitória da vida. Eram minhas prerrogativas e um dilema que teria ainda de atingir.

Sonhei, inclusive, Painhô contando a velha história de quem nunca bebera mel. Ele dizia: meu filho, neste mundo não somos nada, olha o que aconteceu com aquele sujeito. E quando reparei devidamente vi um desastroso lambuzado escorrendo corpo abaixo do indivíduo. Seria a razão de ele ter ido com muita sede ao pote. Uma insana cobiça de algum principiante no ato de devorar. Tal lampejo ocorreu-me de supetão, talvez na evidência de mostrar a ganância de nosso semelhante. E minha mãe e meu pai bem sabiam da árvore genealógica que ressurgia com o nascimento de um filho. Seria o caso de dizer que o espermatozóide quando entra no óvulo palpitante e feliz, sua geração se desenvolve com sabedoria e amor. As lendas ou fatos vão dando continuidade, desta maneira, a tais afirmações acolhidas com sensatez.

A chuva tinha ido embora quando despertei do sono e sonho. O amanhecer ia inundando aos poucos o meu quarto, uma luz entre frestas fez-me acordar de um leve pesadelo e uma breve imaginação. Teria de ir ao trabalho. Era segunda-feira de uma Gupiara de cinzas.
ESPAÇO LIVRE


O MELHOR DO FAROESTE NO CINEMA


Com a participação de 12 pessoas ligadas ao cinema, o jornal natalense Tribuna do Norte publicou no dia 10 de julho de 1994 sua enquete sobre 'os melhores westerns de todos os tempos'. Interessante notar que os dois primeiros colocados são fitas atípicas dos cineastas. E como na última colocação dois filmes aparecem com a mesma pontuação, os mesmos dividem a posição entre si. Vamos, portanto, ao resultado final:

1. Os Brutos Também amam (George Stevens, 53) - 97 pts.
2. Matar ou Morrer (Fred Zinnemann, 52) - 75 pts.
3. Rastros de Ódio (John Ford, 56) - 63 pts.
4. Paixão dos Fortes (John Ford, 46) -58 pts.
5. No Tempo das Diligências (John Ford, 39) - 55 pts.
6. O Homem que Matou o Facínora (John Ford, 62) - 44 pts.
7. Onde Começa o Inferno (Howard Hawks, 59) - 34 pts.
8. Rio Vermelho (Howard Hawks, 48) - 31 pts.
9. O Homem dos Olhos Frios (Anthony Mann, 57) - 25 pts.
10. Consciências Mortas (William A. Wellman, 43) - 19 pts.
11. Duelo de Titãs (John Sturges, 59) - 19 pts.