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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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sexta-feira, agosto 27, 2004

DIVAGAÇÕES EM GUPIARA




                  
                  É na idade remota que se tem melhor oportunidade para desfrutar uma vida que pareça inocente e pura. Porque enquanto a gente rola o mundo inteiro enrola. Os ensinamentos, assim como o crescimento, só atrapalham, pois muitas vezes aprendemos, crescemos e apreendemos errados.
                  A mutação do tempo, acho, inclusive, uma perversidade. A instabilidade espacial acarreta dissabores incontroláveis, discrepâncias indissolúveis e impalpáveis.
                  Então, tenho a ligeira impressão que cada pessoa tem algo incomum escondido nas membranas do encéfalo. A sua parte póstero-inferior combina inteiramente com a súpero-anterior. E daí vem o que se chama de 'inteligência', passando o indivíduo a verter, com maior ou menor intensidade, suas vicissitudes naturais.
                  Devo dizer, em conseqüência, depois de todo este palavreado, que só estou aqui graças a um ímpeto amoroso de meus pais. Claro que sou o fruto daqueles gozos paroxísticos, conclusos e tempestuosos. Embora não tenha sabido qual a estação climática na hora precisa de tal acontecimento.
                  E estou falando de mim para mim, pois ainda me encontro no ventre de minha mãe e nem sei quando irei sair. Isso é mais do que evidente. Vou ainda esperar, esperar... Ou melhor, quem vai esperar, no caso, é ela.
                  Contudo, passado aquele período, Painhô lembrou o orvalho que caía numa noite dessas, as vidraças embaçando e as folhas, ante a agressividade da chuva, fazendo um barulho que metia medo na minha mãe e em Tia Chica.
                  E então ele contou que pensou na guerra e viu crianças e mães chorando e bombas atingindo cidades inteiras. O fogo destruindo tudo. As árvores, os ventos fortes e o rio próximo coberto de galhos. Pensou depois, não sei a razão, na briga entre a noite querendo permanecer e o dia procurando se insurgir.
                  Era, enfim, um duelo cósmico.
                  Mas, sem tardança, os trovões, relâmpagos e árvores silenciaram. Passarinhos voltaram a cantar na escuridão atrelados em fios e ramos secos. Contou ele que ouviu um eco e subitamente parou de chover, os pingos suspensos na atmosfera. D'água e constelação.
                  Naquela noite Painhô não pôde cantar, a lua não teve como aparecer e certamente ficou escondida da adversidade. Porém, quem deve ter gostado foi ele. Mandou a preta velha se recolher e agarrou minha mãe de mansinho. Penso que com meu pai não tinha tempo ruim e nem bom. Chovesse ou fizesse sol, surgisse ou não a lua. E logo depois da janta... capaz até de dar uma congestão.
                  Foi quase uma punição que a noite não estivesse estrelada, pois Painhô não cantou suas modinhas. Deixou distraidamente em cima da cômoda uma que fez sobre aquele fato que me disse no capítulo anterior:

                                    Não afrouxo nem no grito
                                    Aquela mulher bonitoza
                                    Sempre com seu requisito
                                    E também muito gostosa
                                    Claro que quero seu priquito.

                  Avaliem se minha mãe descobre uma coisa dessas!

Bené Chaves



ESPAÇO LIVRE



                  
O contista natalense Bartolomeu Correia de Melo (Lugar de estórias e Estórias quase cruas) me enviou um poema(inédito) para este 'espaço livre'. Eis, portanto, o texto de nosso amigo:

AGULHAS


Ah, as mulheres...
Como não vê-las
como novelos
de trama atroz?
Indestrincháveis
mas amoráveis,
enrosco terno
dentro de nós.
Tecer eterno,
de amarradios,
viscoso fio,
doce retrós.
Cerzir interno
de teias fêmeas,
e queixas gêmeas,
antes e após.
Ah, linha tênue,
nó de amargura
que nos costura
juntos e sós...




terça-feira, agosto 24, 2004

O PROGRESSO CHEGANDO



                Minha mãe tinha dezesseis anos quando foi morar em Gupiara. Poder-se-ia bem dizer naquela época que a província era uma urbe pacata. Mas, a cada dia ia crescendo aos olhos vistos e teimava em não ter mais a aparência de um simples município. Parecia, para tristeza minha, que o progresso começava lentamente a estampar-lhe na face. E contrariando também o enorme cartaz posto na sua entrada. Infelizmente, como todos nós, ela também crescia.
                Então, o ar límpido desapareceu aos poucos para dar lugar aos estímulos de cidade intermediária. Será que as autoridades já teriam mandado rasgar o anúncio na entrada do lugarejo? Tudo isso para mim era uma lástima: pequenas indústrias com nomes estrangeiros, a fumaça que iniciava e enfeava poluindo o antigo ar puro.
                Porém, minha mãe agitou sua vida. De tardinha, ao cair da noite, saía a passear com amigas nos recantos não tanto pitorescos da então província. Foi ali, naquela aparente inocência, que viria a conhecer meu pai. As casualidades e ocasionalidades existenciais fizeram de seu trajeto,quase diário, uma destinação para sua vida. E olhe no que deu...
                Painhô quando avistou aquela moça caiu logo de amores, paixões arrebatadoras, desejos insaciáveis. Acho que foi amor à primeira vista. Ou à segunda, sei não. Ela ali, virgenzinha, virgenzinha, no ponto de cocada.
                Contou-me, com enxerimento, que nunca tinha afrouxado diante de uma donzela, mas referindo-se a outra palavra que talvez não seja bom dizer aqui.
                Se era uso habitual, achei estranho pro período dele. Mas, meu pai sempre foi assim, às vezes aquilo tudo podia ser uma mera brincadeira. Ele sempre respeitou as mulheres e nunca as tratou com desdém.
                Na certa que tava querendo inventar alguma modinha. E eu também já não era assim tão pequenininho que não pudesse saber dos fatos.
                Fiquei meio encabulado com aquelas conversas e, de qualquer maneira, pensei comigo: "também quando tiver maior vou fazer o mesmo, ou seja, nunca afrouxar diante de uma mulher". E atualmente sei que a máxima 'tal pai tal filho' parece prevalecer. Segui à risca o que me falou, fossem ensinamentos ou não.
                Diziam em Gupiara que o sol era o homem porque ele é rijo, forte. E a lua seria a mulher, ou seja, meiga, suave e doce. Mas, sei também que as regras tinham suas exceções tanto de um lado como do outro.
                O sol e a lua nunca se encontram.E os sexos opostos? Talvez justamente por se encontrarem existam tantos entreveros amorosos entre eles. E a metáfora assim se realizaria.
                Contavam também que no período de lua cheia o homem parecia e aparecia mais afoito em suas conquistas amorosas. E acho que Painhô não fugiu à regra. Basta saber de suas proezas com o instrumento musical. Ou melhor, após suas cantorias. Minha mãe que o diga, quando ele saía de fininho agarrado à sua cintura...

Bené Chaves




ESPAÇO LIVRE

(poema de Mariza Lourenço)



                                                
COMPENSATIO

Lá:

Um sinal abre, a palavra avança
Descompromissada e livre
Homens e mulheres trepam
Um mundo inteiro geme
Escandalosamente aflito
Assombrosamente vivo.

Aqui:

Tudo continua belo
Feito um antigo réquiem
Criminoso e lento
Tudo continua
Presumivelmente certo
Dentro desta expectativa morna
De pasta e sexo aos domingos.




sexta-feira, agosto 20, 2004

AS EMBOLADAS DE PAINHÔ



O lusco-fusco de Gupiara encantava a todos. Do alpendre largo meu pai se aconchegou com minha mãe e foram olhar a hora do crepúsculo. A noite ficou quieta e a espontaneidade fluiu. Na cozinha o cheiro da arte exemplar de Tia Chica. E meu pai com gáudio no rosto, minha mãe também. Longe dali, folhas secas caíam grudando na bosta das vacas que pastavam distraidamente.

Enquanto a preta velha servia o leite gostoso e espumoso, aquele arroto ia saindo com satisfação. Por cima e por baixo. Painhô, então, levantou-se e voltou ao terraço, colocando a rede nos sujos armadores. Viu, dali, deitado, a enorme lua que surgiu dentre os morros. Ela quase roçando seu rosto. Ficou extasiado com a bonita paisagem.

Gritou pedindo o violão e convidou as duas mulheres para o ouvirem cantar. Acho que Gupiara escutou também aquele chamamento. Moveu as duas mãos e iniciou as modas:

Menina dos olhos d'água
Me dê água pra beber
Não é sede não é nada
Só vontade de te ver.

Afinou o estribilho na segunda pauta:

Ai céu céu céu
Ai céu sereno
Ai céu me leva
Para os braços da morena.

Enquanto minha mãe saía um pouco, talvez pra tomar água, não sei, meu pai aproveitou sua ausência e sapecou baixinho:

Mulher casada
Que duvida do marido
Toma a mão no pé do ouvido
Pra deixar de duvidar.

Mas, quando ela voltou, procurou agradá-la. Painhô era assim, cantava o momento, de acordo com suas conveniências:

Homem casado
Beliscou mulher dos outros
Pode-se dizer morto
Na ponta do meu punhal.

E, olhando, de soslaio, para a mulher, inventariou outra moda, claro, tocando com entusiasmo:

Mulher de vergonha
Não se meta em beliscada
Seja fiel ao marido
Senão fica atrapalhada.

Ao longe, alguns pampas relinchavam e um ruído estranho estendeu-se no matagal. Tudo ali era livre, belo, sadio. Mas, no fundo, sentia-se uma falta de esperança ao se olhar o horizonte, as plantações ressequidas, o povo sempre sofrido, a água escassa.

Painhô levantou da rede, calçou os chinelos e puxou o violão pra debaixo de um braço e a mulher pra debaixo do outro. Não sei não, mas, toda vida que meu pai ia cantar, despertava-lhe uma fome diferente, acho que de sexo. Ele me contou depois que foi dormir, mas tenho em mente que era apenas uma força de expressão.

E ele ia lá dormir numa situação daquela...



ESPAÇO LIVRE


ATO FINAL


Os teus sensuais seios
brotaram em mim
tumescências viscerais
cobiças violentas
flagelações...

E no alvorecer tardio
você trouxe a aurora
e eu te dei perene
a última gargalhada.

Bené Chaves



terça-feira, agosto 17, 2004

TIA CHICA

Meu pai nasceu no alto sertão, em um lugarejo chamado Ferrões. Desde cedo começou a trabalhar no cabo da enxada, como se dizia. Criou calo nas mãos. E andava não sei quantos quilômetros a pé para alcançar o grupo escolar do município próximo. Porém, foi praticamente um autodidata.

Andou depois por esse mundo afora, desambientado e desprovido. De aldeolas e cidades... E de tudo sentiu e viu, desde terrenos incultos onde medram plantas agrestes, como o mandacaru, a oiticica, o cajueiro-bravo, o xiquexique. Lá nos cafundós-do-judas!

Portanto, passado esse período de indecisões e privações, conheceria minha mãe em Gupiara, claro. Atrelou-se ali talvez pelas coincidências e circunstâncias da vida. Ou como já dissera: atraído pela lenda dos diamantes.

E depois de alguns meses de ter arrumado os trapos com sua mulher, decidiu contratar uma boa cozinheira para a culinária. O estado dela, lógico, facilitou, pois aquela barriga não parava de encher. Evidente que sim...

Chegou, então, Tia Chica, uma velha gordona, retinta. Diziam que suas mãos eram de ouro. Perto do fogão, a preta era o cão. No bom sentido, óbvio. E o cheiro de sua comida atraía e embriagava o quarteirão inteiro.

Acho até que meu pai deve ter se arrependido, pois seria quase certo que ele iria engordar quilos e mais quilos. E sua mulher, ah!, nem se fala, aí sim, deveria ficar igual a um balão. Aquele aroma enfeitiçava qualquer um. Parecia magia.

Tia Chica jurou pra meu pai que conheceu a pessoa que explorou aqueles diamantes. Pela alma de minha mãe, dizia ela, cobrindo os cabelos esvoaçados e com aquele enorme cachimbo no canto da boca. Caíram-lhe pedras do bolso, pode acreditar. Inclusive cheguei a juntar algumas, porém o cretino foi rápido e sumiu, arrebentando-as de minhas mãos, completou um pouco furiosa.

(Ah, quantas saudades daquelas iguarias! Agora mesmo, enquanto escrevinho aqui, sinto o cheiro da comida esmerada pelas mãos de magia da preta velha).

Assim era a verdade de Tia Chica. Assim falava e jurava. Mas, podia ser também apenas a lenda e o anedotário de Gupiara.

Era. Não era. Parecia ser. Não ser. Era não. Parecia não ser.




ESPAÇO LIVRE




Parafraseando...


Diziam os estudiosos de Voltaire (1694-1778) – cujo verdadeiro nome era François Marie Arouet – que ele era uma pessoa paradoxal ao extremo. Foi preciso a parteira dar-lhe palmadas para que sobrevivesse. Os médicos não lhe deram mais do que quatro dias, mas ele enganou a todos e viveu 84 anos. Desprezava a humanidade, embora gostasse dos homens. Ridicularizava o clero, porém dedicou um de seus livros ao Papa. Falaram também que odiava a hipocrisia, empenhando-se com o riso na tarefa de afligir seus mentores. Todavia, era um hipócrita na atitude com os judeus. Não acreditava em Deus, mas sempre procurou encontrá-lo.

No entanto, tinha um discernimento incomum em relação às instituições políticas e sociais de seu tempo. E numa profunda verdade sentenciava: “rio-me, para não enlouquecer”.

E o que diremos nós, caro Voltaire, já tão calejados, hoje em dia, dessas malfadadas instituições? O jeito mesmo é rir, amargamente rir, senão enlouqueceremos todos.


Bené Chaves



sexta-feira, agosto 13, 2004

O Princípio de todos nós



Tudo começou com invencionices, partindo da premissa de que o Universo foi criado em apenas uma semana. Se foi, nunca soube de outra tamanha engenhosidade.Mas, deixa isso pra lá. Afinal de contas todas as coisas não passam de símbolos, ilusões e desilusões. Sei, porém, que a caverna abrigou a geração precípua, o labrego, primeiros sinais de desenvolvimento e adaptação aos costumes terrestres.

As pedras apareceram, os insetos se acasalaram e os rudes se mesclaram. E surgiu, então, o homo-sapiens. Depois emergiu a estória de Adão e Eva. Mas foi tudo somente estultícia, porque o primeiro homem comeu - não literalmente - a primeira mulher, claro. E eles, Adão e Eva, nunca souberam disso.

Coisa de acasalamento dos tempos idos, selvageria de antanho, que, acho, não deve ser muito diferente da atual. Apenas diverge quanto ao meio ambiente.

Não é mesmo uma trapaça?

Daí surgiram novos povos, a linguagem tomou impulso e aprenderam a cultivar a terra. E o chafurdo iniciou.

Nada tenho a ver com feitos anteriores, suposições, superstições ou fés inabaláveis. Apenas acho que são calabouços que nos prendem ao infinitivo. Somos mesmos uns tontos a perambular algures, alhures, indefinidos e perplexos ante a magnitude de um Universo.

Enquanto digo isso, em lugares estranhos à nossa percepção visual, acontecem as mais esquisitas façanhas, manhas e artimanhas. Milhões de pessoas morrem de fome, existe guerra, autodestruições, desespero, desamor e, conseqüentemente, a não solidariedade ao próximo. E o ser (dito) humano, continuando a trair seus semelhantes em farsas, hipocrisias e delações.

O mundo, portanto, surgiu a emaranhar, a confundir e até a consagrar cousas, lero-lero e lousas. Daqui em diante nada sei, sei apenas que ele foi inventado e não criado.

Bené Chaves



ESPAÇO LIVRE

O escritor e crítico de cinema Francisco Sobreira (Natal) enviou um poema para ser publicado neste 'espaço livre'. Portanto, compartilho com vocês o texto do nosso amigo:

VELHO NUMA MANHÃ DE DOMINGO


O velho está sozinho na ante-sala da casa.
Seu olhar abrange o pequeno trecho da rua,

paisagem que a retina fixou há muitos anos.
Mas, talvez, não seja para a rua, nem para os raros transeuntes,
que ele estenda os olhos dispensados de lentes.
Quem sabe se neles não permaneça um resto de brilho,
provindo de lembranças de remotos domingos.
E, assim, o velho não se sinta sozinho entre os familiares
que o deixam isolado naquele domingo.



segunda-feira, agosto 09, 2004

O CASAMENTO



Meu pai foi, então, morar em Gupiara. Depois daquele chamego com minha mãe, a barriga dela começou a crescer. E o falatório também. Para evitar maiores constrangimentos, apressaram o casório. Somente assim os fuxicos parariam, embora o ventre dela não pudesse fazer o mesmo. Teria, portanto, de esperar nove ingratos e enjoados meses.

E lá foi ele providenciar tudo na única igrejinha de Gupiara. O padre da mesma avexado na conclusão dos trabalhos. A barriguinha dela, ixe!, roncando e resmungando. Logo logo arrumaram os trapos e foram morar juntos.

Enquanto a noite clareou aquele largo alpendre, os grilos entoavam zumbidos desconcertantes. No ar o silêncio de todos nós. As árvores balançavam com o vento forte e cresciam mais barulhos nas matas.
Passarinhos juntavam-se em galhos murchos começando cantos agradáveis.A imensidão do descampado, naquela área suburbana, não deixava margens. Tudo ali era e não era, no semi-árido grande e ressequido.

Diziam ser meu pai um sujeito inteligente, sabido, conhecedor da vida e das coisas inerentes a ela. E tocava um violão de fazer inveja.

Quando a lua voltou a crescer, ele improvisou pequenos versos no aconchego daquele espaçoso alpendre, soltando sua voz vigorosa:


Só não vou na sua casa
Porque tem muita ladeira
Os cachorros latem muito
Sua mãe é cavaleira.


Falava que tal 'quadrinha' era pros rapazes com medo da possível futura sogra. Caía, então, na gargalhada. E com o estômago redondinho de depois da janta saborosa da recém-esposa, continuou suas modas envaidecido que só:


Rapaz solteiro
Namorou mulher casada
Tá com a vida atrapalhada
Na ponta do meu punhal



Parava depois, emitia três ou mais sons e corria livremente o estribilho:

Ô mulher sai do sereno
Ô mulher sai do sereno
Qu'este sereno faz mal.


Minha mãe começou a alisar o cabelo dele e ele sentiu um friozinho de arrepio pra banda do cangote. Largou de imediato o instrumento musical, pegou-a pelos braços e danou-se certamente para o quarto. Aí nem me perguntem, pois não sei mais o que aconteceu. Deve ter acontecido sim...


ESPAÇO LIVRE

Expectativa

Esperando
não ando
caminho imóvel.

Esperando
vocês esperam
não saem do lugar.

Esperando não
se pode esperar
nem andar.

Tampouco
lutar.


Bené Chaves



quinta-feira, agosto 05, 2004

O início


Tudo começou naquele dia em que meu pai deitou-se com minha mãe. O verbo aqui, lógico, é força de expressão, porque acho que eles foram além de um simples acolhimento. Afinal, nem sei quando e onde foi isso. Mas sabia que não era toda hora que se tinha a oportunidade gostosa para se realizar sonhos e delírios. Não sei se meu pai concretizou o dele, sei apenas que eu nasci. E tenho a ligeira impressão que tudo partiu daquele encontro talvez furtivo. As conseqüências que se danassem! Os desdobramentos, ah!, que fossem pastar...

Parece mesmo que os dois se encantaram, claro, como acontece com os ditos e ditosos casais numa tarde ou noite de inverno ou verão. Sobre isso nada posso acrescentar e ninguém depois me disse qual estação fazia na ocasião daquele assanhamento.

O tempo passa e carrega com ele o chamado ciclo-vicioso. Então, a espiral fica enorme. A vida é uma loucura? Nada como atos e fatos. E eles, os fatos, se tornaram realidade depois do embate amoroso entre aquelas duas criaturas.

Em Gupiara a lua nascia e crescia dentre os morros. Se alguém conseguisse a proeza de chegar até lá, acho que poderia alcançá-la no seu estágio supremo. A cidade dormia cedo, todos se recolhiam após a janta. Fora, o vento azucrinava as portas com um ruído fino e impertinente.



ESPAÇO LIVRE


Sobre a vida e a morte


Sobre a morte, esse fantasma que ronda nossas vidas e nos pega de surpresa, já comentava o célebre escritor argelino Albert Camus: "o que me espanta sempre, quando sempre estamos tão dispostos a sutilizar noutros assuntos, é a pobreza de nossas idéias acerca da morte". E acrescenta adiante que "terei de morrer, mas isso nada quer dizer, porquanto não chego a acreditar e só posso ter a experiência da morte dos outros". Todavia, diz ele: "... penso então: flores, sorrisos, desejos de mulheres, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de viver".

Apenas como ilustração: no excelente filme de Bergman, O sétimo selo, o assunto é focalizado e, na sua seqüência final, mostra a sempre temível Morte carregando enfileirados todos os personagens da trama.

Mas, vamos falar da vida... E sobre ela temos o depoimento realista do escritor Henry Miller, quando diz, entre outras coisas, que " a meu ver o mundo caminha para a ruína. Não é preciso muita inteligência para ir vivendo, do modo que as coisas andam. Na verdade, quanto menos inteligência se tem, mais se progride", arrebatando depois que "eu queria encantar, mas não escravizar; queria uma vida mais ampla, mais rica, porém não à custa dos outros; eu queria libertar a imaginação de todos os homens..."

E diante dos questionamentos da vida e da morte, apelamos para o filósofo Confúcio, que viveu lá nos idos dos anos 531-478 a C. Dizia ele, com a sabedoria que lhe foi peculiar: "como hei de compreender a morte, se ainda não compreendo a vida ?"

Bené Chaves



domingo, agosto 01, 2004

o apanhador de sonhos

Quanto mais você racionaliza, menos você cria.

(Raymond Chandler)

                    por Bené Chaves



                Gupiara meu amor



                Nasci numa cidade chamada Gupiara. É uma palavra de origem indígena, dizem que vem do tupi Kuru-piara.Tal designação deve-se a crença ou lenda dos que moram no morro. Alguém, em tempos idos, achou um depósito de diamantes na parte alta do lugarejo. Imensas jazidas em cascalho. Esse sujeito, no mínimo, deve ter ficado milionário.
                Também não sei porque meu pai inventou de morar ali. Será que tava pensando em competir com o ilustre cidadão acima? Talvez tenha sido apenas uma coincidência, sei lá...
                Gupiara tinha mais ou menos uns oitenta mil habitantes, população essa de descendentes e emigrantes. Era bom morar naquela pacata cidade, a pracinha então sendo o palco de suas lorotas. As loas ao suposto homem descobridor se tornavam freqüentes, fantasiosas.
                Na entrada da mesma, naquela luz frouxa, vislumbrava-se um enorme cartaz com os dizeres: é proibido não ser honesto, justo. Também é proibido haver progresso, corrupção.
                Foi tal placa que me fez gostar da província. Pareciam ser sérios os dirigentes da cidade. Pareciam...
                Porém, cresci com a própria e com ela me criei, na aparente inocência e suposta pureza. Gupiara tornou-se, em pouco tempo, a minha principal existência.
                Tudo começa, portanto, como o fato é contado: antes e depois, depois e antes, sem qualquer ordem cronológica.


ESPAÇO LIVRE



ESTRADA DA VIDA


No meu longo e penoso caminhar
naquela velha floresta obtusa
eu atalho as últimas distâncias
recolho frutos gastos e podres
chegando ao teu difícil encontro
na esperança deles renascerem.

E então possuo-a no esplendor
de uma nova existência.


Bené Chaves