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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
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a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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terça-feira, agosto 17, 2004

TIA CHICA

Meu pai nasceu no alto sertão, em um lugarejo chamado Ferrões. Desde cedo começou a trabalhar no cabo da enxada, como se dizia. Criou calo nas mãos. E andava não sei quantos quilômetros a pé para alcançar o grupo escolar do município próximo. Porém, foi praticamente um autodidata.

Andou depois por esse mundo afora, desambientado e desprovido. De aldeolas e cidades... E de tudo sentiu e viu, desde terrenos incultos onde medram plantas agrestes, como o mandacaru, a oiticica, o cajueiro-bravo, o xiquexique. Lá nos cafundós-do-judas!

Portanto, passado esse período de indecisões e privações, conheceria minha mãe em Gupiara, claro. Atrelou-se ali talvez pelas coincidências e circunstâncias da vida. Ou como já dissera: atraído pela lenda dos diamantes.

E depois de alguns meses de ter arrumado os trapos com sua mulher, decidiu contratar uma boa cozinheira para a culinária. O estado dela, lógico, facilitou, pois aquela barriga não parava de encher. Evidente que sim...

Chegou, então, Tia Chica, uma velha gordona, retinta. Diziam que suas mãos eram de ouro. Perto do fogão, a preta era o cão. No bom sentido, óbvio. E o cheiro de sua comida atraía e embriagava o quarteirão inteiro.

Acho até que meu pai deve ter se arrependido, pois seria quase certo que ele iria engordar quilos e mais quilos. E sua mulher, ah!, nem se fala, aí sim, deveria ficar igual a um balão. Aquele aroma enfeitiçava qualquer um. Parecia magia.

Tia Chica jurou pra meu pai que conheceu a pessoa que explorou aqueles diamantes. Pela alma de minha mãe, dizia ela, cobrindo os cabelos esvoaçados e com aquele enorme cachimbo no canto da boca. Caíram-lhe pedras do bolso, pode acreditar. Inclusive cheguei a juntar algumas, porém o cretino foi rápido e sumiu, arrebentando-as de minhas mãos, completou um pouco furiosa.

(Ah, quantas saudades daquelas iguarias! Agora mesmo, enquanto escrevinho aqui, sinto o cheiro da comida esmerada pelas mãos de magia da preta velha).

Assim era a verdade de Tia Chica. Assim falava e jurava. Mas, podia ser também apenas a lenda e o anedotário de Gupiara.

Era. Não era. Parecia ser. Não ser. Era não. Parecia não ser.




ESPAÇO LIVRE




Parafraseando...


Diziam os estudiosos de Voltaire (1694-1778) – cujo verdadeiro nome era François Marie Arouet – que ele era uma pessoa paradoxal ao extremo. Foi preciso a parteira dar-lhe palmadas para que sobrevivesse. Os médicos não lhe deram mais do que quatro dias, mas ele enganou a todos e viveu 84 anos. Desprezava a humanidade, embora gostasse dos homens. Ridicularizava o clero, porém dedicou um de seus livros ao Papa. Falaram também que odiava a hipocrisia, empenhando-se com o riso na tarefa de afligir seus mentores. Todavia, era um hipócrita na atitude com os judeus. Não acreditava em Deus, mas sempre procurou encontrá-lo.

No entanto, tinha um discernimento incomum em relação às instituições políticas e sociais de seu tempo. E numa profunda verdade sentenciava: “rio-me, para não enlouquecer”.

E o que diremos nós, caro Voltaire, já tão calejados, hoje em dia, dessas malfadadas instituições? O jeito mesmo é rir, amargamente rir, senão enlouqueceremos todos.


Bené Chaves

por benechaves às 08:57