perfil
Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
Sonhadores

Você é nosso visitante de número


Obrigado pela visita!

links

a filha de maria nowacki
agreste
arabella
ariane
balaiovermelho
blog da tuca
clareando idéias
colcha de retalhos
dora
entre nós e laços
faca de fogo
janelas abertas
lá vou eu
letras e tempestades
litera
loba, corpus et anima
maria
mudança de ventos
notícias da terrinha
o centenário
pensamentos de laura
ponto gê
pra você que gosta de poesia
proseando com mariza
rua ramalhete
sensível diferença
su
tábua de marés
umbigo do sonho
voando pelo céu da boca

zumbi escutando blues

sonhos passados
Agosto 2004 Setembro 2004 Outubro 2004 Novembro 2004 Dezembro 2004 Janeiro 2005 Fevereiro 2005 Março 2005 Abril 2005 Maio 2005 Junho 2005 Julho 2005 Agosto 2005 Setembro 2005 Outubro 2005 Novembro 2005 Dezembro 2005 Janeiro 2006 Fevereiro 2006 Março 2006 Abril 2006 Maio 2006 Junho 2006 Julho 2006 Agosto 2006 Setembro 2006 Outubro 2006 Novembro 2006 Dezembro 2006 Janeiro 2007 Fevereiro 2007 Março 2007 Abril 2007 Maio 2007 Junho 2007 Julho 2007 Agosto 2007 Setembro 2007 Outubro 2007 Novembro 2007 Dezembro 2007 Janeiro 2008 Fevereiro 2008 Março 2008 Abril 2008 Maio 2008 Junho 2008 Julho 2008 Agosto 2008 Setembro 2008 Outubro 2008 Novembro 2008 Dezembro 2008
créditos

imagem: Walker
template by mariza lourenço

Powered by MiDNET
Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

 

 

 



sábado, outubro 30, 2004

MAIS SONHOS



Certo dia, meu filho, achei tudo esquisito quando foram colher seu sangue. Olhei ao redor e vi um médico atarracado e enfermeiras desmaiadas, uma seringa no chão com sangue azul coagulado e olhares atônitos. Certamente sua mãe não acreditara quando vira dias atrás aquela maldita mancha no lençol.

Era um caso anormal, pra estudo detalhado, parece até uma imaginação. Mas, teriam peritos no assunto, para ocorrências como essa, de sangue azul e tudo? Seria uma incógnita se aproximando... Painhô pensou até em uma paranormalidade ou algo em terreiro de macumba.

Todavia, aquele líquido colorido nas veias não denunciava em nada as relações ambientais de ninguém.O fato, por si só, seria uma louca aberração da natureza. Ela que, inclusive, já nos tem mostrado e demonstrado o quanto é singular.

Então se falava: fulano tem sangue azul. Quer dizer: é uma pessoa importante. Nada de líquido nas veias. No caso aqui em particular seria um problema mais grave. Ela, a pessoa, claro, detém a excentricidade de um ser não ser habitual. E daí toda a celeuma que o caso trouxe em si.

Dizia-se, desde tempos idos, que um rei ou uma rainha tinham sangue azul, porém era uma referência no sentido figurado, evidente. Uma tradição do tempo da monarquia, infelizmente ainda posta em prática em alguns países de nossa dita civilização.

De qualquer maneira, a criança em questão, não fazia parte de trono algum, a vida apenas lhe teria pregado essa peça invulgar.


Então, o dia seguinte amanheceu turbulento. Dentro de um buraco, numa enorme montanha, saiu aquele menino a chorar. Vagou e sentou-se à beira de um rio, começando a catar peixinhos que fluíam na água límpida e descorada.

Mas, o riacho foi ficando azul e correndo paralelo com as soluçantes lágrimas. E o estreito córrego terminou vivamente colorido, numa mesclagem inesperada e desproposital do infeliz mancebo.

Acordei, meu filho, dando berros e Mainhô do meu lado bastante aflita. Acho que tive um longo pesadelo. E depois fiquei a imaginar como seria uma pessoa com sangue de outra cor no seu organismo. Talvez uma completa extravagância. Todos ali deveriam temer quanto a isto. Ou não?

As pessoas nascem, crescem, morrem. É um logicismo ilógico da vida.Vê algum sentido nisso? Homens, mulheres, crianças... Crescem os frutos e a raiz apodrece. O caule perde o viço, torna-se perro.

Gupiara um dia desaparecerá, todos desaparecerão, tristes sinas. Ela foi. É. Não é. As lembranças marcam os rostos de seus habitantes. Porém, espero ainda encontrar alhures a província desaparecida.

A vida é um sonho. É uma foda atrás da outra...



ESPAÇO LIVRE

EXISTÊNCIA

De teu ventre intumescido
nascem certezas, incertezas.
Mas de teu dileto amor
mesclam-se esperanças e
contínuos desenganos.
E enquanto brotam desejos
ou ensejos
tu aparecerás incessante
ante o despojar da vida.

O nascimento como metafísica
sucessiva.

A morte como metáfora da
aurora perdida.
Bené Chaves



terça-feira, outubro 26, 2004

O SONHO DE PAINHÔ



Quando nasci, Painhô contou que fora sob influências simples. E então, meu filho, mandei chamar a parteira, você ali, como se diz, num pé pra sair. Embora, claro, tenha sido parto normal e era sua cabeça que viria primeiro. Tenho a impressão que sua mãe sofreu pra burro, também com aquele seu comprimento todo... não sei como ela suportou tantos meses!

Tragam a toalha depressa!, gritou a parteira, Tia Chica a correr de um lado para o outro, procurando se esmerar diante do acontecimento.O certo é que todo mundo ficou nervoso. Juro que ouvi movimentos, um alvoroço dos diabos. Desejavam ver o rebento, afinal de contas aquela criança pesara mais de cinco quilos.

Você, portanto, nasceu, contou meu pai. E confesso que senti mãos amassando meu frágil corpo, embora dissessem que era um garoto bem robusto. Contudo, diante do episódio, fiquei com uma pena danada de Mainhô. Acho que não foi moleza ela suportar nove meses uma barriga tão pontiaguda e desconfortável.

Sabia que a maternidade dos seis filhos traria conseqüências danosas principalmente no tocante à sua coluna dorsal. E atualmente tenho consciência disso, ela que vive a se queixar de dores nas superposições de suas vértebras e adjacências.

Mas, os de casa ficaram alegres. Champanhas foram abertas ao evento e um berço de proporções maiores estava à minha espera. Eu que seria a geração primogênita da família. Mundo meu, oh mundo meu, este menino é também seu, dizia Painhô ao ver-me nos braços de minha mãe. Seria, acho, dali em diante, senhor de atenções e atrações.

Todos irradiavam contentamento, o beija-flor picava néctar das flores, as árvores surgiam com belos frutos, Gupiara parecia festejar com folguedos a parição de minha mãe. Aleluia!

E com todas essas preliminares, meu pai ainda disse que fora sob influências simples? Que ingênuo! Mas, Painhô era assim mesmo. O jeitão dele em contar casos ou causos, ora aumentando ora diminuindo de acordo com suas conveniências.

A parteira avisou: a criança é linda, linda, tem um belo porte. Você está bem, nada de preocupação, nunca vi uma mulher tão forte. Dizia isso feliz da vida, pois colocara mais um ser neste nosso, não imaginava ela, ignóbil mundo. E ainda venho saborear sua comida, falou pra Tia Chica ao sair pelo corredor, a preta velha regozijada a rebolar os quadris.

Disse ainda ao meu pai que Mainhô tivesse cuidado pra não quebrar a quarentena. E que ele também se aquietasse. Mas, aqui pra nós, talvez Painhô não fosse capaz de cumprir tal obrigação e inventasse de se enxerir pra algum rabo de saia. Desconfiei e supersticiei.

Contudo, estava meu pai ali, sentado e segurando Mainhô pelo braço. E eu sendo ainda levado na barriga dela. Deitado na rede sempre armada no alpendre me disse depois que tivera naquele dia um belo sonho. E ficou a dedilhar seu violão entre uma conversa e outra com minha mãe. A inspiração, porém, pareceu fugir-lhe e ele nada cantou.


ESPAÇO LIVRE

IMAGINAÇÃO


Na escura avenida eu vi o passado
passando bem perto do meu lado
vi a chegada da outrora primavera
o namoro e afago na linda donzela
vi os olhares puros e ingênuos
o bonde caminhando na esquina
as conversas de quina a quina .
Vi, sim, o bem sobrepujar o mal
a afluência ao gostoso clube local
meninas correndo no imenso areal
brincando na mais doce inocência
e ainda numa possível coerência.
Vi a pobreza bastante amenizada
a riqueza solidamente contestada
uma igualdade nunca questionada.

Na escura avenida eu vi, mas tudo
no fascinante mundo da alegoria.


Bené Chaves



sexta-feira, outubro 22, 2004

PARENTESCO DOS SÓIS






Era domingo. Os canários do vizinho cantavam a valer, pombos voavam no telhado e, ao lado, num terreno baldio, meninos jogavam bola. Tia Chica preparava o almoço. Uma voz eclodiu da varanda: diga a preta velha que capriche, hoje estou com uma bruta fome! Mainhô apossou-se de uma cadeira e ficou a bordar um pano tingido. Certamente seria o seu enxoval, meu filho, que ela preparava com muito gosto.

Painhô contou: no sertão, depois de um dia na enxada, sol pegando fogo, os homens voltavam pra comer tardinha do dia. Porém, como alguns não tinham suprimentos em casa terminavam comendo a mulher mesmo, não literalmente, lógico. E, desse modo, o jeito era criar um bando de filhos. Foi Deus quem mandou, diziam as mulheres já prenhes. Só que esta historinha tava muito mal contada.

Ferrões também tinha um belo anoitecer. No alpendre da casa de seu avô, continuava ele, a gente sentia o cheiro gostoso de queijo do sertão, manteiga, pão assado, aquela coalhada também de leite puro, fresco, tirado da vaca, madrugadinho. Ai Tia Chica lá...

Aliás, a preta velha tinha preparado uma saborosa macarronada, dessas de deixar todo mundo com os beiços lambendo. Eu mesmo já estava sentindo aquele cheiro sem igual e doido para aproveitar o restinho na barriga de Mainhô.

Mas, juntos, fomos nós, filho, degustar a tal comida já exposta à mesa. Tia Chica se enchendo de alegria, os olhos salientes de tanto deslumbramento. Aquela iguaria que fez nos deixou empanzinados, sua mãe tendo de abrir o chambre pra poder respirar um pouco, ufa! Quase que lhe sufocou, mas acho que você consumiu feito um guloso, não?

O sol descia de posição e crescia também colado aos morros de Gupiara. Era enorme e um pouco desigual, se comparado ao parente de Ferrões. Tinha, em suas bordas, um acabamento como se tivesse sido feito com mãos de ouro. Fomos vê-lo sumir-se. A visão trouxe encantamento à cidade. Painhô, já descansado do vasto almoço, começou a dedilhar seu violão:

Tava um dia no porto de Alagoas
Encontrei tudo em belas condição
Mais de cento e cinqüenta embarcação
Entre paquetes navios e canoas
Na presença de mais de mil pessoas
Com o barco alemão me agarrei
Quando o bicho quis sair eu segurei
Nesse dia seu Minana criou fama
O oceano ficou da cor de lama
Mas o navio só saiu quando eu larguei.


Meu pai disse que nunca estivera em Alagoas, mas não acreditei nessa história.Acho que ele andou aprontando pras bandas daquele cais junto com amigos boêmios. Esse imprevisível Painhô...


E S P A Ç O L I V R E


DISSOLUÇÃO


Quero-te nua
para dissecá-la
crua e molhada
para dessecá-la
na vertical dessedentá-la.
E te quero na horizontal
dissertá-la minuciosa
dissimulá-la com
meu sêmen.
Depois dispersá-la e
desertá-la ao
distanciamento.

Bené Chaves



segunda-feira, outubro 18, 2004

DUPLO ORGULHO


Acho que vocês não imaginam como era Gupiara tempos idos. Painhô tinha consciência disso e vivia me dizendo. E o seu apreço por Mainhô superava as menos imaginadas precauções e situações. No resguardo dela ele quase não saía do leito, ali colado na minha mãe tratando do nascimento dos filhos. De beijinhos no rosto pra não variar.
Com coragem de fazer inveja a qualquer uma, Mainhô nunca foi parir em uma maternidade ou hospital para tal fim. Teve as seis crianças no quarto dela, ali mesmo, com apenas Tia Chica fazendo seus gostos e iguarias para o momento e a parteira zelosa que não teve igual. Sempre foi uma mulher destemida, meio rústica, nascida pras bandas daquele sofrido interior sertanejo.
E, portanto, eles, os filhos, foram nascendo em intermitências regulares, cada um com sua aparência própria, lógico. Eu, tido, já dito aqui, como de belo porte, pesei densos cinco quilos e duzentos gramas, com cinqüenta e dois centímetros. E era de se imaginar, pois minha mãe carregou-me com uma barriga que não tinha mais tamanho. Seria o início, então, de uma trajetória.
Gupiara tinha, apesar de tudo, a favor de si, o fato de ser uma cidade peculiar. E isso fazia muito bem ao ego daquela família.Além disso, não havia quase poluição, o ar limpo diluía indícios de possíveis impurezas. Sorte para todos, nome para o lugarejo.
Painhô gostava mesmo de prosear. E me dizia que o homem é o doador e a mulher a receptora. Sendo assim, quem dá tem mais poder. Parecia um aforismo ditado pela natureza e suas esquisitices. E o homem se orgulha, completava, se envaidece, doa a quem doer. Ele doa. Ela recebe. Pois sim!
Falavam nos arredores de Gupiara, as más e também boas línguas, que muitos filhos acarretam verdadeiros deslizes. Eram as sabedorias surgindo disfarçadas e soberanas. Porém, minha mãe os teve mesmo assim. E tanto ele como ela eram felizes naquele momento. Estavam todos nascendo para serem criados pelo mundo.
Tardinha daquele dia, a gente, meu filho, via o adormecimento do sol, as nuvens espalhadas cobrindo-o parcialmente e presumindo-se uma proteção ao todo-poderoso raio de luz. Surge, então, o objeto em detrimento do humano, que apodrece com os anos adormecendo como uma criancinha acariciada ao colo da mãe.
Quando ela acorda, vê um velhinho sentado à beira do rio catando grãos de areia. Olha para um lado e outro e exclama estupefata: mas como a vida é curta! Ontem mesmo vi um lindo menino a brincar despreocupado e feliz.
Porém aí eu já emendei delirando, pois essa estória foi vista em sonhos. Adormecera no finalzinho do dia antes de Painhô terminar seu relato.


E S P A Ç O L I V R E



TEMPORALIDADE


Na breve existência
este seu rosto
tem a sua idade
também a suavidade
do resto que vi de ti.
No seu belo corpo
a efemeridade de
um triste porvir.

A da velhice por vir.

E a morte para ti.




quinta-feira, outubro 14, 2004

O VIOLÃO DE PAINHÔ


À boquinha da noite Painhô voltou do trabalho e jantou cuscuz com tapioca, também aquela coalhada deliciosa de um leite puro, sadio. Depois foi até a cozinha e deu os parabéns a Tia Chica, ela orgulhosa, jeitão desconchavado. Obrigada, estou às ordens, precisando... E, então, meu pai aproveitou e criou um neologismo para nomear o prato saboroso: leitapioca!

Foi até ao quarto, pegou o violão, a rede já esperando e juntou Mainhô - ainda com a barriga naquele tamanho -, a preta velha e começou a cantar. Engatilhou os dedos nas cordas e não parou. Misturou letra, substituiu nomes, juntou palavras, fez o diabo. Diziam que, a exemplo de Tia Chica no fogão, meu pai, com o violão, era o cão. Tudo isso no bom sentido, lógico.

Parecia montado num cavalo pampa, caminhando léguas, não soltava as rédeas, ou melhor, as cordas. Era um autêntico cabra da peste. Neste dia, filho, eu fiz travessuras com as mãos, soltei lindas emboladas pela goela. Ninguém conseguiu me parar.

A varanda estava iluminada e a lua nascia e crescia novamente dentre os morros. Painhô pediu a Tia Chica um copo de água pra molhar a garganta, enquanto acariciava o ventre de minha mãe. E eu ali, dentro dela, quietinho, não via a hora de sair, querendo a todo custo gritar: bem que eu disse, estou com jeito agora de menino vivo.

E então meu pai respirou fundo um perfume que veio do lado do jardim e sapecou a última moda da noite:

Eu fui a loja fui a venda fui a rua
Fui comprar ferro de pua
Que é danado pra furar
Eu fui a rua fui a loja fui a venda
Fui comprar umas encomendas
Que mamãe mandou comprar.

E entrou com o estribilho, misturando sua ordem:

Ô mulher sai do sereno
Ai ai ai ai Mainhô
Que este sereno faz mal
Você é meu calor.

Sentou na cadeira e segurou a mão de minha mãe. Um bom período Painhô ficou nesta posição.Tentou escutar na barriga inchada dela alguma inquietação minha. Mas nada ouviu. Parece que eu já dormira naquele ventre volumoso. Mesmo com todo o barulho ao redor.

Na madrugada quente o galo cantou e ouviu-se um chiado estranho pras bandas do quintal. Todos foram dormir. Algumas horas depois ficou somente um ponto no firmamento. A lua estava desaparecendo e lentamente subia para dar lugar ao companheiro sol.

O dia cadenciava, clareava. E o arrebol deixou todos impressionados.

E S P A Ç O L I V R E



DIVERSIDADE


Ah, as mulheres!...
Meu patrimônio
morenas
loiras
brancas
negras.
Meu matrimônio
virgem carente
moça potente
outra insolente
mulher presente.

São acasos e ocasos
da mente?



Bené Chaves



domingo, outubro 10, 2004

INOCÊNCIA E SABEDORIA DE UM POVO




            Saudável era ouvir o vaqueiro flagrar, narrar as coisas do dia-a-dia. Sobre a sorte de um indivíduo ser ou não abastado, falava: quem tem de ter tem que se dana; e quem não tem de ter se dana e não tem. Eram as fantásticas criações daquele homem fiel aos cuidados da fazenda.
            Histórias do sertão, da cidade, do sol e da lua. Histórias de um mar que não existia. E o sofrimento vivido na carne, a seca braba dos lugarejos, a vida de amarguras de um povo. Era um sujeito querendo aprender e apreender.
            Dizia ele, a Painhô, que a maioria trabalha e luta para a minoria saborear. E isso decididamente não estava certo. Contava tudo na simplicidade e candura que lhe eram peculiares. Misturava realidade versus ficção. Desabafava também: o homem humilde é honesto, na maioria das vezes. Cadê qu?eu tenho alguma coisa? Sou místico, religioso, mantenho fidelidade nos atos. Não tive meios para a instrução, mas sei de algumas safadezas...
            Ele, meu filho, continuou Painhô, exibia idéias exóticas, no entendimento de seu avô. Mas eram constrangimentos que saíam de uma vida atribulada, sem lazer nenhum. O único prazer que tinha era uma ruma de meninos pra criar. E como não podia ter controle para evitá-los, a casa ia se entupindo ano a ano.
            A mulher, sempre servil, chegava à noite e dizia: vai precisar d'eu hoje, homem? Mas, cansado do trabalho, ele apenas respondia: hoje não, mulher. E ela, aliviada um pouco, comentava: então vou lavar somente o pé. Via-se, com isso, que não era uma pessoa que gostasse de muito asseio. Só quando pra satisfazer seu marido. E alimentá-lo de um sexo seco e bruto.
            Certa vez, filho, ele me contou uma estória comovente: na época dos festejos natalinos apareceu um vistoso homem numa dita comunidade. Então o dito sujeito olhou ao redor e viu verdadeiras aberrações. Crianças pobres comendo barro na lama e aquelas barrigas inchadas de vermes. E, de um outro lado, meninos ricos brincando em suntuosas casas com belos presentes.
            Eram, obviamente, famílias tristes x famílias alegres, pobreza x riqueza. Faces literalmente opostas. Portanto, ele perguntou: mas, o mundo não pertence a todos nós? E realizou um sonho na sua imaginação, tentando abreviar tal ocorrência calamitosa. A súbita transformação no utópico e alegórico aliviou a sua mente. Ele então pulou de felicidade. Era, lógico, a inocência falsa e quimérica de invencionices com sabor de verdade.
            Do quarto avistei a lua, perto da janela, disse meu pai. Gupiara tornava-se pródiga em noites assim, pena que a bola de encher subisse rápido, não ensejando maiores apreciações. Ficou, então, deste tamanhinho, um tico de nada no céu. E depois uma vasta nuvem cobriu nossos desejos.
            As estrelas, os morros, o satélite. A cidadezinha lançou sua última visão. Mainhô e Tia Chica ressonavam. Eu idem, ainda na barriga de minha mãe, ufa! Painhô fechou a porta e Gupiara fechara novo dia.




ESPAÇO LIVRE



VAGUEANDO...




            A chinesa Chiang Kai-shek era uma célebre mulher. Nascida em Xangai no ano de 1899, dizia lá nos seus ensinamentos que o excesso de riqueza devia pertencer à humanidade... deve haver igualdade entre os povos e as classes... paz e harmonia entre as nações... roupa, alimento e habitação para os indivíduos.
            Mas, o que vemos depois de quase um século de vida? Que seu discurso tão apregoado com louvor, parece ter desfalecido na ganância insaciável e na insensatez dos homens. Afinal, concluía ela: não sou mística, não sou visionária. Acredito no mundo visto, não no mundo não visto.
            Grande pensadora, não?



BENÉ CHAVES




quinta-feira, outubro 07, 2004

Abro hoje um parêntesis para compartilhar com todos vocês da crônica do escritor e crítico de cinema Francisco Sobreira (Natal) sobre o grande cineasta François Truffaut, falecido precocemente no mês de outubro há vinte anos atrás.(Lembro aqui, com saudade, da morte de meu pai, ocorrida também neste longínquo 1984). Eis, portanto, o comentário de nosso amigo:

FRANÇOIS TRUFFAUT


Há vinte anos morria François Truffaut, deixando um imenso vazio no cinema francês. Truffaut fazia parte daquela categoria de diretores-cinéfilos e foi certamente o número um deles. Mesmo quando já se tornara um cineasta consagrado, ele continuava a ver filmes e a escrever sobre cinema, embora parecendo que, nesse período, sem mais exercer a crítica por obrigação, tenha optado por falar das obras dos seus diretores preferidos.
Seu contato com o cinema envolveu etapas naturais que foram paulatinamente sendo vencidas. Primeiro, como espectador compulsivo, lembrando a condição de ?rato fugindo da vida?, de que fala Drummond no poema Canto ao Homem do Povo Charles Chaplin. É que o garoto François Truffaut buscava nos filmes uma forma de amenizar a solidão e a hostilidade que sentia no ambiente familiar e nos bancos escolares. E não será exagero dizer que ele se livrou dos perigos de uma existência marginal ao descobrir o cinema, pois através deste conheceu o lendário crítico Andrè Bazin, que o protegeu e o apoiou nos momentos mais difíceis de sua vida.
A etapa seguinte foi o cineclubismo, tornando-se crítico a seguir, daí a realizador de curtas e, finalmente, de longas. Como crítico foi, talvez, o mais severo e rigoroso de quantos escreviam nos ?Cahiers du Cinéma? (entre os quais, Godard, Chabrol e Rohmer, também futuros cineastas). Impiedoso no julgamento de um filme que o desagradasse, parecia disposto a destruir a carreira do diretor com a sua pena cáustica.
Por outro lado, quando gostava de um filme, a sua análise revelava uma incontida satisfação, quase a felicidade, se poderia dizer.
Se, com uma frase, pudéssemos definir o cinema de Truffaut, diríamos que ele se caracteriza por uma candente declaração de amor sob as mais diferentes e variadas formas. Alguns exemplos. O amor ao período da infância, embora a dele não tenha sido particularmente feliz, em Os Incompreendidos e Na Idade da Inocência; o amor livre das convenções sociais e das injunções morais em Jules e Jim/Uma Mulher para Dois; o amor desmesurado, abeirando-se do estado patológico em A História de Adèle H; o amor aos livros, cuja preservação em face do regime obscurantista, que os leva à fogueira, é feita pela memória dos leitores, em Fahrenheit 451; o amor ao cinema, em seu momento de criação, e por extensão aos que nela estão envolvidos, em A Noite Americana.
Ele não foi um inventor, sequer um inovador (mas tanto estes, quanto aqueles, não são muitos no cinema), no entanto, soube dotar os seus filmes de um lirismo e de uma leveza que tocavam fundo no espectador. À narrativa imprimia uma intensa agilidade, usando poucos cortes nas cenas, provavelmente inspirado no estilo de Max Ophuls, um de seus ídolos. É, pois, nessa forma sensível e delicada de tratar os temas humanos e afetivos, às vezes adicionando lances de humor, que há de ser reconhecida a sua importância.
Para concluir, uma pequena amostra do amor de Truffaut pelo cinema. Eis o que ele disse numa entrevista de 1971. ?Gosto tanto de cinema, que mal suporto a companhia das pessoas que não gostam. Certo dia dei carona a um alemão. Falei-lhe de Fritz Lang e ele não reconheceu o nome. Max Ophuls, muito menos. Então, o fiz descer do carro em Lyon, fazendo-o crer que ia parar nessa cidade?. Esse era Truffaut.


E S P A Ç O L I V R E

SAUDOSO PASSADO


Na solidão lembro-me:
efêmera jovialidade
requebros
bulícios
intumescências
furor irracional
moça virgem
moço carente
mulher potente
homem veemente
velhice indolente
idade demente.

Vida aparente...


Bené Chaves



domingo, outubro 03, 2004
Domingo, outubro 03, 2004

LUA CHEIA


            Painhô reuniu alguns amigos no alpendre, puxou o violão pra si e sentou-se na rede de armadores enferrujados. A lua surgiu com uma enorme claridade, aquele facho arredondado e amarelado quase batendo nos telhados da casa. Mainhô ainda me carregando na barriga, tudo indicava uma parição para breve. Mas, aqui pra nós, nunca vi um bucho demorar tanto!

            (Diz uma lenda que menininhos subiram e bateram naquela lua formosa. Então um homem no seu cavalo branco abriu sua gigantesca porta e os fez entrar. Ali estava uma mulher inquieta e nua, deitada entre vultuosas e pitorescas figuras. As inocentes crianças fizeram alguns pedidos que foram prontamente aceitos, mas depois desceram às gargalhadas e desapareceriam na madrugada fria. Ninguém conseguiu decifrar tais solicitações, porém São Jorge havia dito que o Sol seria o culpado da suspensão de uma noite linda. E saiu a cavalgar tentando resplandecer a Lua no interminável. Diz também a lenda que o dragão fez adormecer o astro maior, porém nunca confirmaram tal desconfiança).

            Então, a lua daquela noite tornou-se mais bela do que nunca. Não era qualquer uma, era a lua de Gupiara. Parecia que estava adivinhando e querendo escutar meu pai no violão. Ficou silenciosa e volumosa, firmemente volumosa. Painhô me disse depois que jurou existir uma particular simbiose dele com o exuberante satélite. Exagerando, creio eu.

            E com a terra ficando entre as duas maiores estrelas e recebendo de uma os raios lunares refletidos, ele cantou, disse-me, uns versos a que deu o nome de O fanfarrão:

            Dos repentes que sai de minha lira
            Já denuncio uma vida tenebrosa
            Nesta minha existência tão penosa
            Já fiz coisa que o mundo se admira
            Fiz um furo na Serra da Partira
            Qu'era maior que o Túnel do Pavão
            Bem lá dentro armei um açapão
            Todo composto de muitas navaias
            Qu'era pra ver se encontrava os canaias
            Que me viesse falar de avião.

            E espichou o estribilho, os olhos de namoro com a lua:

            Ai, ai, ai, ai Gupiara
            Ai, ai, ai minha Lua
            Ai, ai Mainhô
            Você é meu amor.

            As modas matutas traziam, às vezes, por si só, erros na composição, porém o gostoso era saber suas rimas.Que fosse pro diabo a ingerência gramatical!

            Painhô parou de vez, jogou o instrumento pro canto e abaixou a cabeça. Meu filho, dizia ele, penso comigo mesmo: o tempo passa, as pessoas se transformam, tudo se revela enigmático. A felicidade é transmutável.

            Despediu-se dos amigos e também da bonita lua, que ficou redondinha redondinha sem querer subir.Tia Chica já cochilava aos roncos, estirada lá pros fundos da casa. E minha mãe abria a boca de tanto sono.

            Que tivessem, pois, uma sossegada noite. Nada de remexerem comigo!


ESPAÇO LIVRE


ANGÚSTIA

No murmurar do
encantamento
a vida aparece
inquietante
mas a dor surge
instigante.
E a felicidade goteja
como partículas soltas
caídas do espaço.
No sussurrar aflitivo
de ilusões perdidas.

As minhas e
as tuas.

Bené Chaves