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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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sábado, outubro 30, 2004

MAIS SONHOS



Certo dia, meu filho, achei tudo esquisito quando foram colher seu sangue. Olhei ao redor e vi um médico atarracado e enfermeiras desmaiadas, uma seringa no chão com sangue azul coagulado e olhares atônitos. Certamente sua mãe não acreditara quando vira dias atrás aquela maldita mancha no lençol.

Era um caso anormal, pra estudo detalhado, parece até uma imaginação. Mas, teriam peritos no assunto, para ocorrências como essa, de sangue azul e tudo? Seria uma incógnita se aproximando... Painhô pensou até em uma paranormalidade ou algo em terreiro de macumba.

Todavia, aquele líquido colorido nas veias não denunciava em nada as relações ambientais de ninguém.O fato, por si só, seria uma louca aberração da natureza. Ela que, inclusive, já nos tem mostrado e demonstrado o quanto é singular.

Então se falava: fulano tem sangue azul. Quer dizer: é uma pessoa importante. Nada de líquido nas veias. No caso aqui em particular seria um problema mais grave. Ela, a pessoa, claro, detém a excentricidade de um ser não ser habitual. E daí toda a celeuma que o caso trouxe em si.

Dizia-se, desde tempos idos, que um rei ou uma rainha tinham sangue azul, porém era uma referência no sentido figurado, evidente. Uma tradição do tempo da monarquia, infelizmente ainda posta em prática em alguns países de nossa dita civilização.

De qualquer maneira, a criança em questão, não fazia parte de trono algum, a vida apenas lhe teria pregado essa peça invulgar.


Então, o dia seguinte amanheceu turbulento. Dentro de um buraco, numa enorme montanha, saiu aquele menino a chorar. Vagou e sentou-se à beira de um rio, começando a catar peixinhos que fluíam na água límpida e descorada.

Mas, o riacho foi ficando azul e correndo paralelo com as soluçantes lágrimas. E o estreito córrego terminou vivamente colorido, numa mesclagem inesperada e desproposital do infeliz mancebo.

Acordei, meu filho, dando berros e Mainhô do meu lado bastante aflita. Acho que tive um longo pesadelo. E depois fiquei a imaginar como seria uma pessoa com sangue de outra cor no seu organismo. Talvez uma completa extravagância. Todos ali deveriam temer quanto a isto. Ou não?

As pessoas nascem, crescem, morrem. É um logicismo ilógico da vida.Vê algum sentido nisso? Homens, mulheres, crianças... Crescem os frutos e a raiz apodrece. O caule perde o viço, torna-se perro.

Gupiara um dia desaparecerá, todos desaparecerão, tristes sinas. Ela foi. É. Não é. As lembranças marcam os rostos de seus habitantes. Porém, espero ainda encontrar alhures a província desaparecida.

A vida é um sonho. É uma foda atrás da outra...



ESPAÇO LIVRE

EXISTÊNCIA

De teu ventre intumescido
nascem certezas, incertezas.
Mas de teu dileto amor
mesclam-se esperanças e
contínuos desenganos.
E enquanto brotam desejos
ou ensejos
tu aparecerás incessante
ante o despojar da vida.

O nascimento como metafísica
sucessiva.

A morte como metáfora da
aurora perdida.
Bené Chaves

por benechaves às 17:29