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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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quinta-feira, setembro 27, 2007







VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (15)



De Noel Rosa e Vadico:


Seu garçom faça o favor
De me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
...

*

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
...

*

Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro.

*

Telefone ao menos uma vez
Para 34.4333
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório.

*

Que não estou disposto
A ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol.


Obs: Alguns versos de 'Conversa de Botequim'(1935), uma das mais conhecidas músicas do Noel Rosa, aqui novamente em parceria com Oswaldo Gogliano, o popular Vadico. Sabe-se que o compositor de 'Feitiço da Vila'(1936) largou o curso de medicina para se dedicar inteiramente à música. Esta composição é típica do exemplo de malandros da época que tentavam conseguir tudo (ou quase) na base de muita conversa fiada. Pode-se dizer ainda que Noel foi o responsável pela união do samba do morro com o do asfalto. E que mudou, consequentemente, a História da Música Popular Brasileira.

ESPAÇO LIVRE

Compartilho com vocês de dois poemas. O primeiro já foi publicado aqui, porém o segundo é inédito. Espero que tenham uma boa leitura.

CONCUPISCÊNCIA


Há no teu olhar
o sorriso do amanhã
a quietude da paisagem
teu sexo voraz e audaz
a inquietude da miragem
o flexível clima que
enaltece a paz.
Há a certeza sobretudo
do teu amor capaz de
se doar ao extremo
como bênção sem deuses.

Quero-te a ti antes
de querer-te a mim
e possuo-a como mulher
isenta dos contos de fada.


TEMPÊRO

Na imensidão (azul) do mar
eu quero afogar-me
dentro de ti.

E depois beber de teu
(vermelho) orgasmo.

Em uma mesclagem
de prazer em cores.

Nos sabores de teu corpo.

Bené Chaves



sexta-feira, setembro 21, 2007

O texto abaixo já foi publicado aqui em 2004. Sai novamente para os que ainda não tiveram a oportunidade de lê-lo. Espero que tenham uma boa leitura.

MAINHÔ


Gupiara a cada dia tornava-se uma cidade de bem (ou mal?) sucedidos negócios. Homens gananciosos apareciam, queriam munir-se, intrometer-se e tomarem conta da província. Primeiro, porque só pensavam em ganhar rios de dinheiro.Segundo, não respeitavam ninguém nos supostamente escusos contatos. E aquilo ia seguindo uma tendência de apodrecer suas possíveis dignidades.
Meu pai não disse nada acerca de tudo, mesmo porque, acho, estaria com intenções de também usufruir de um pequeno comércio. Mas somente se fosse algo justo, pois, pensava, sobretudo, na família. Em mantê-la com honradez de homem vivido no sertão. Nada que depreciasse sua integridade.
A versão de que pretendia ficar rico por conta dos diamantes explorados, não passava de pura especulação.Inclusive todos os fatos não foram mais do que uma lenda, mesmo Tia Chica tendo declarado o contrário. Era a sua fantasia, a nossa fantasia. O sonho de Gupiara.
Mas, naquela tardinha, caía uma neblina e refrescava um pouco o parco jardim da casa de Mainhô. As nuvens medravam, o sol murchava e as flores desprendiam.A folhas, alegres, remoçavam. Pingos d'água intumesciam. E das telhas desciam apressados, respingando sobre a terra molhada. Ruídos aumentavam depressa.
Um enorme relâmpago clareou a casa e assustou minha mãe. E eu fiquei com um bruto medo de que ela não abortasse devido ao susto, claro, pois estava ali dentro da barriga dela. Tumultuou mais ainda quando um estrondo pipocou, causando medo naquelas duas frágeis criaturas. Elas se agarraram como crianças.
Ao escurecer, o inesperado temporal passou. Então minha mãe lamentou aquela meleca da chuva. Os últimos resquícios escorriam, o sol transpunha o círculo, a noite surgia bem viva. E as nuvens fugiam ante a presença soberana da lua.
Mainhô abriu a porta e sentiu um sorriso no ar, agradecida. As escassas rosas soltavam perfumes, as raízes fortaleciam. Tia Chica enxugou o alpendre cantarolando algumas canções. E então as duas desfrutaram daquele prazer, a fragrância invadindo seus corpos.
Na cidade onde nasceu, Mainhô me contou, tempos depois, que algo semelhante teria acontecido. Choveu bastante e um estranho aroma invadiu narinas inteiras, hipnotizando um povo crédulo. Era um fenômeno raro, meu filho, não se soube de nenhuma explicação. Talvez tenha sido somente um sonho.
Um tal de Nhozé, continuou ela, conhecido cantador da região, juntou a cambada toda e gritou:

Povo sofredor não desespere
Enquanto houver vez você espere
Um dia há de chegar
E todos estaremos por lá
Onde quer que se vá

Era um homem negro, alto, muito magro. Remexia e esfumaçava. Parecendo até que o cheiro daquelas rosas tivesse tido influência direta nas suas cantorias. E ele levou horas seguidas, entrando pela madrugada adentro. Deu chapinhada no quengo.
Porém, quando Mainhô quis continuar notou que eu já adormecera no seu colo de mãe.


ESPAÇO LIVRE


A POESIA (Haicai) DE LÍVIO OLIVEIRA (RN)


O amigo, poeta e escritor Lívio Oliveira(RN), lançou no dia 06 de setembro próximo passado o seu livro 'Pena Mínima', de haicais. Compartilho aqui com vocês de algumas amostras do mesmo. Espero que tenham uma boa leitura.


Haicai do Começo

Todo início tem
dores que não se sente.
Somem no desejo.

Tempo

Pertenço à época
de uma tensão freqüente
feita à mão das horas.

Sono

Acordo, não durmo.
Pássaro improvisando
Um jazz no meu sono.

Haicai do Sertão

II.
Portal do sertão:
Algarobas pendulares
Verdejam do cinza.

Haicai sobre um corpo de mulher

III. Lábios

Tateio-te a boca
albergue de língua acesa,
moldura molhada.





sexta-feira, setembro 14, 2007



(Este selo foi uma indicação do excelente blogue 'Antigas Ternuras' (www.antigasternuras.blogspot.com) do amigo Marco Santos.







VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (14)



De Dorival Caymmi:


O que é que a baiana tem?
Tem torço de seda, tem! Tem.
Tem brincos de ouro, tem! Tem.
...
Tem saia engomada, tem! Tem.
E tem graça como ninguém...

*

Como ela requebra bem!
...
Quando você se requebrar
Caia por cima de mim.
Caia por cima de mim.

*

Um rosário de ouro, uma bolota assim,
Quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim.
Só vai no Bonfim quem tem!


Obs: Alguns versos de 'O que é que a baiana tem', música composta em 1938 e gravada em dueto por Carmen Miranda e Caymmi em 1939. Este samba foi incluído na trilha sonora de 'Banana da terra', filme de Wallace Downey e interpretado pela Carmen.
Dorival Caymmi nasceu em Salvador/Bahia no dia 30 de abril de 1914, atualmente, portanto, já com seus 93 anos bem vividos. Sua primeira composição foi 'No sertão'. Em 1937 mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo e trabalhar como desenhista. Depois fez alguns testes na Rádio Tupi e foi contratado. O seu dom seria mesmo a música. Casou-se em 1939 e teve três filhos que tiveram o mesmo caminho musical do pai. A genética aí funcionou na sua totalidade. Recebendo inúmeros prêmios e homenagens pela importância cultural, Caymmi foi o cantor e compositor que melhor soube divulgar a Bahia e suas belezas.

ESPAÇO LIVRE

O primeiro poema faz parte do livro 'Cinzas ao amanhecer'(Sebo Vermelho, 2003) e já foi publicado anteriormente aqui. O segundo é inédito. Espero que tenham uma boa leitura.

BÊBADO BORDEL

No cabaré entrei

vivi amarga noite.

Sentei na mesa

de perna cambeta.

Tirei a roída

velha jaqueta.

Pisquei a mulata

cor de jambo.

Gozei na ação

cantei invenção.

Não era loira

morena ou ruiva.

Era a madrugada.

Embriaguei então

minha solidão...


BÊBADO DESEJO


Quero embriagar-me no teu corpo
lamber-te os vícios da sensatez
e sugar as gotas que restaram
de uma lasciva paixão.

Quero-te em cores!
Também em preto-e-branco!
Quero-te em sabores!

Que tu te embriagues de mim
a ferir meu dolente corpo
com os odores de tuas vísceras.

E em um momento final e fatal
brotar-te na cavidade de
uma inebriada esperança.

Bené Chaves



sexta-feira, setembro 07, 2007



(Este 'certificado blog' foi uma indicação do blogue 'retalhos d'alma' (www.anne_voce.blogger.com.br).

O texto abaixo já saiu aqui em 2004. Volto a mostrá-lo para os que ainda não tiveram oportunidade de lê-lo na ocasião.

PAINHÔ


Meu pai era um sertanejo brabo e, paradoxalmente, manso ao mesmo tempo. Ele tinha esta peculiaridade. Vivia dizendo que a vida no campo era a saúde do corpo. Então, de manhã cedinho saía galopando o cavalo pampa e corrigindo as coisas do meu avô. Seguia pro curral, segurava aquela bonita vaca pelo laço e depois prendia o filhote bezerro perto do peito da mesma.
Ali, ele tirava algumas poucas latas do leite morno e espumante e enchia copos e mais copos, depois distribuindo nos arrabaldes, aquela população agradecendo sua generosa atitude.O que sobrava dava pra encher a pança dos que moravam na fazenda.
Ele era feliz e sabia que era. Sou um sujeito simples e sem lengalenga, costumava falar. As pessoas gostavam dele, principalmente aquelas mocinhas que viviam à cata de um marido pra arrumar suas vidas.(Mas aí já existia um certo interesse, menos pelo que possuía e mais pelo belo porte de masculinidade).
Meu avô não tinha muito, mas o pouco que tinha ajudava muita gente. E essas coisas no sertão são de grande valia para todos.
Porém, depois Painhô pegava seu chapéu de couro e se metia no mato em busca de serviço. Eu gostava daquilo, dizia ele sorrindo.Acho que foi nesse período que Painhô começou a tocar violão. Embora com a sequidão quase cruel, imaginava o gado pastar livremente. E as bostas das vacas caírem em abundância naquela terra, dando adubo pros terrenos sedentos de água.
Após tomar uma coalhada gostosa feita mesmo pela mãe, dele, lógico, sentava-se na pequena varanda e, antes de cantar algo, soltava um arroto de desprendimento, mansidão e olhando aquela imensidão. Os cantos melódicos e às vezes românticos enchiam o corpo de todos de um prazer incomum. Ladrões inexistiam, a violência não campeava e, portanto, a noite seria nossa.
Meu avô dizia pra Painhô que macho que é macho tem de provar de vários melaços. Pra saber o melhor e ficar comendo, completava, desviando o olhar de sua mulher.Meu pai, então, atiçou, mesmo sabendo não ser verdade o que dizia:

Aqui neste sertão
Mulher é feito pilão
Sem tripa sem tudo
E também sem coração.


Painhô lambeu os beiços e passou a língua entre os dentes, entrecortando uns acordes e fixando repentes:

Minha mãe brigou comigo
Só por causa de uma urupema
Quanto mais se ela visse
Meu namoro no cinema.

A lua surgiu e desapareceu, a noite ficou melancólica. Ele olhou ao redor e disse: tudo na vida gira em torno dos dois sexos: o feminino e o masculino, claro. E ultimou: é uma tamancada de vida! Seguimos o rumo da existência, cônscios ou não de nossas obrigações, completou.
Não sei porque falou isso, porém falou. Era assim mesmo, cheio de improvisos.
Levantou da cadeira, deu boa-noite e foi dormir. Sabendo ele, entretanto, que as mulheres tinham um coração de ouro. Amanhã cedinho reiniciaria novas tarefas.


ESPAÇO LIVRE




A POESIA DE FERNANDA PASSOS(São Luis/Maranhão)

Compartilho hoje com vocês de dois poemas da Fernanda Passos( São Luis/Maranhão), do blogue 'Poesia na Veia' (
www.pnaveia.blogspot.com), onde a mesma mostra originalidade e vigor. Espero que todos tenham uma ótima leitura.



O DESEJO

O desejo essa luxúria
Ensejo de mais querer
Loucura que não sacia
Fogo que faz arder

O desejo troço louco
Clamor por mais tesão
Mesmo que seja pouco
Aniquila a razão

O desejo coisa insana
Corta a pele de quem ama
Tira os pés do chão

O desejo essa chama
Bota fogo na cama
Vulcão em erupção

DEIXA

gozo gozo gozo

tara de mais querer

querer de mais tesão

tesão de mais viver

viver de te lamber

lamber teu dedão

ah!!

não?!

deixa!

a gueixa quer você

lamber querer viver

tesão dedão gozo

deixa?

depois não se queixa.