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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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domingo, maio 29, 2005




VIGÉSIMOS PRIMEIROS ALUMBRAMENTOS


Antes, porém, da desordem final e na ânsia de mixórdia pré-estabelecida no primeiro caso, quando de meu bilhete amoroso, Gracita tinha escrito algo no papel e jogou-o no bolso de minha calça. Queria, com certeza, que fosse lê-lo somente em casa. Estava, contudo, aflito e abri-o no caminho, quando pude sentir que ela de fato e de direito gostava de mim. Aparentemente acho que sentia algo, sei lá... Percebam, portanto, o que a mesma redigiu com meiguice e brevidade:
Meu querido, teu nome irradia paixão

Perdão? E também razão...

Ilusão? Não! Magia? Sim!

Teu corpo mexe minha vida!

Vi um deslumbramento nestas palavras, como se ela, Gracita, estivesse numa demonstração de carinho nunca antes oferecida, apesar de certo plágio no estilo de seus curtos versos. Mas, valeu sua intenção. Seria lógico dizer, então, que dois corpos e uma só mente estariam se unindo. Bem... Na visão que tinha de minha juventude, com certeza e exatidão uma visão longe do que consistia a realidade existencial. Os acontecimentos não eram assim como a gente desejava, eles se apresentavam intempestivos e intemperantes. Inclusive porque depois não houve nenhum acordo, muito menos perdão, se seria esta a palavra certa. Aliás, palavra interrogada nos seus versos. Tudo, enfim, dissipou-se num infeliz dia, para tristeza minha e, creio, de Gracita. Desmoronaram nossa magia?

Mas, então, quando cheguei à sua casa, já senti o ambiente incomum e fui logo abordado do inusitado incidente. Claro que fiquei perplexo com aquela estória absurdamente indefinível e delirante. E como não tive receptividade dos argumentos relatados...
Ah, as mulheres!... Agem mais com a paixão, o arrebatamento, do que com a razão. Talvez fossem fatos isolados e frutos da pouca idade das mesmas, aqui, no caso, quase uma menina. Parece-me que bastante geniosa. Portanto, vi que se tratava de um assunto intrigado e emaranhado. A pessoa a quem incumbiram de tais relatos os fez sob rigorosa intransigência e sem brechas para qualquer defesa, articulando com cuidado seu intento e sua astúcia. Pareceu-me até coisa de cinema, com possibilidades reais de um dramalhão mexicano.

ESPAÇO LIVRE



F I L M E S DECEPCIONANTES ( Diretores conhecidos ).



q
A ANGÚSTIA DE TUA AUSÊNCIA (Jean Negulesco)
q LÁGRIMAS DE TRIUNFO (George Sidney)
q VENDAVAL DE PAIXÕES (Cecil B. De Mille)
q BALADA SANGRENTA (Michael Curtiz)
q HIENAS DO PANO VERDE (Blake Edwards)
q ALIANÇA DE AÇO (Cecil B. De Mille)
q ASSIM MESMO EU TE AMO (Jean Negulesco)
q QUANDO O AMOR É PECADO (Robert Siodmak)
q OS DEZ MANDAMENTOS (Cecil B. De Mille)
q PRECE PARA UM PECADOR (Frank Tashlin)
q DAVID E BETSABÁ (Henry King)
q RENÚNCIA DE UM TRAPACEIRO (Francesco Rosi)
q ANASTÁCIA (Anatole Litvak)
q SUAVE É A NOITE (Henry King)
q SANGUE ARDENTE (Nicholas Ray)
q JURAMENTO DE VINGANÇA (Sam Peckinpah)
q A CHAVE (Carol Reed)
q NO CAMINHO DOS ELEFANTES (William Dieterle)
q NOITE DE PÂNICO (Julien Duvivier)
q O PASSAGEIRO DA CHUVA (René Clément)
q OS INSACIÁVEIS (Edward Dmytryk)
q O TIGRE SE PERFUMA COM DINAMITE (Claude Chabrol)
q A RONDA DO AMOR (Roger Vadim)
q QUATRO HERÓIS DO TEXAS (Robert Aldrich)
q SANSÃO E DALILA (Cecil B. De Mille)
q TEMPESTADE SOBRE WASHINGTON (Otto Preminger)
q EM NOME DO DIABO (Marco Bellocchio)
q CANDELABRO ITALIANO (Delmer Daves)
q O HOMEM DO RIO (Philippe De Broca)
q A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO (Anthony Mann)
q TEXASVILLE (Peter Bogdanovich)
q DIÁRIO DE UM VÍCIO (Marco Ferreri)
q CASSINO (Martin Scorsese)
q DO OUTRO LADO, O PECADO (Stanley Donen)
q BARRABÁS (Richard Fleischer)

Bené Chaves











terça-feira, maio 24, 2005

VIGÉSIMOS ALUMBRAMENTOS

A grande rivalidade existente entre uma pessoa querida e a outra que prejudica ou fere, delimita a distância que cerca o mal do bem. Aí, então, você fica totalmente sem ação quando o primeiro substantivo masculino engole com facilidade o segundo. Mormente em se tratando de questões puramente sentimentais, porque é mais fácil você difamar e ter um respaldo de gente insidiosa do que procurar avivar o aspecto verídico da questão.

E foi o que aconteceu num lance posterior comigo e minha namorada.Tanto que debati e rebati o assunto, mas parece que pisei numa tecla em falso. Melhor dizendo: pisaram. Então, a querela voltou com todo gás. Pior ainda: uma incógnita flutuou no ar, passado; flutua no ar, presente e com certeza flutuará no ar, futuro. O verbo aqui conjugado nas suas três formas. Mas, o correto é que Gracita soube... Será que soube mesmo ou foi apenas um pretexto? As mulheres e seus mistérios desde cedo... Eis aí, portanto, a minha dúvida. Resta alguma dúvida?

O problema foi fuxicado e em conseqüência disso esticado, negócio de inclinação para inclemência. Porém, passou-se assim: foram dizer para a ditosa (ou desditosa?) Gracita que eu tinha ido ao cinema com uma garota. Pode um troço desse, a maledicência voltar a todo vapor? Não sei... Parece coisa de inveja, invenção, inversão ou investida. Fiquei malvisto. Aquilo foi uma arrelia, um acontecimento de zanga. Claro que tinha ido ao cinema, uma de minhas paixões desde então. Contudo fui sozinho, nada de companhia. Talvez alguém me viu e resolveu contar sua estória, olhando o lado perverso e depois rindo à toa do acontecido. O estranho nisso tudo, porém, é o nome do filme, um faroeste com os atores Kirk Douglas e Jeanne Crain: Homem sem Rumo, do cineasta King Vidor. E coincidentemente, ou não, estava eu lá no cinema. Pois é, fiquei sem rumo nessa trama ou trapaça. Melhor dizendo: duplamente sem paradeiro.

A vida, diante de tantos enredos, além de seus marruás maldizentes, é asselvajada, inflexível. Diria até que ela é paradoxal. Ou são seus astuciosos habitantes? Tudo se configura ambíguo, nada é como se apetece, pois interferências outras chegam inesperadamente e os fatos honestos não são executáveis. As coincidências marcam, às vezes, a sorte das pessoas, como também a desgraça. E efetuam-se, depois, o desejável ou o detestável. São as chamadas conseqüências e inconseqüências de uma existência, quem sabe, talvez danosa.

ESPAÇO LIVRE



PROMISCUIDADE


O mundo está mudo...
Munido de droga, lixo
luxo, sexo, dinheiro e
desvairada corrupção.

Unido de família, religião
farsa, hipocrisia, alienação
e pseudo-sacramento.

O mundo está imundo
e desunido de
guerra
paz
amor
paixão.

Bené Chaves



sexta-feira, maio 20, 2005

DÉCIMOS NOVOS ALUMBRAMENTOS


Fiquei surpreso diante da atitude de carinho de Gracita e retribui-lhe o afeto com um leve beijo na face, sem antes olhar se via algum vulto ao redor. Tinha medo que aparecesse alguém e tudo fosse por água abaixo. Eu estava abatido, perplexo mesmo diante de acusações e frustrações de pessoas alheias a um convívio sadio, com toda certeza pessoas malambeiras. Não tinha sido mole a encrenca que fizeram, mas, agora, parecia ir tudo bem. Pelo menos aparentemente... Ou seria alguma simulação, um interregno?

Passado o incidente de que fui vítima apressei-me a encarar minha namorada com mais assiduidade, procurando sempre estar ao seu lado para evitar posteriores e possíveis pseudoverdades a sua pessoa. Não iria admitir que inescrupulosos e maldizentes fossem interferir na nossa relação. Era, sem dúvida, gente inditosa querendo desenlaçar aquela união adolescentemente sacudida. Dito e feito parti como se fosse para uma batalha. Uma inconcludente, inarredável, paradoxal e gostosa batalha.

Portanto, tudo seguiu, dali em diante, seu rumo normal e sem novidades. Alvíssaras!... Como as coisas eram ainda delicadas e se tratando de um namoro recente e logicamente na pós-puberdade, Gracita saía comigo sempre acompanhada de um parente. Claro que eu não gostava da atitude de seus pais, pois pareciam ver-me como uma pessoa sem confiança. Mas, eram os hábitos da época, embevecidos por uma sociedade sempre faladeira. Aliás, esta prática é antiga e talvez sujeita a conservar-se anos seguidos, pois desde períodos rudes e rudimentares ela permanecia entre nós. Infelizmente numa escala ainda calamitosa para aquele momento de então. (Aos poucos, no entanto, ficou-se sabendo de seu desuso, devido mais a uma insolência dos jovens e do avanço do tempo e menos da intransigência de alguns rígidos pais).

Paralelamente à insensatez de alguns, pude, claro, preservar minha insígnia e mostrar também que era um jovem correto e que em todo o tempo buscou a verdade. Minhas amigas e amigos que o digam, como também antigas paqueras. Atormentasse ou não, avaliava uma vida melhor para todos. E que as pessoas conseguissem, num curto espaço de tempo, a liberdade avocada. Mesmo que fosse arrotada na base do sacrifício, em combates de qualquer natureza.

Porém, nem tudo são flores neste mar de amores e desamores, sabores ou dissabores, já dizia dona Dolores.(A senhora em questão era uma velha prudente e que calculava com profunda sabedoria suas frases lapidares, ensejando inclusive aqui uma rima com seu próprio nome. Acudo-me, portanto, de suas virtudes). E no caso de meu namoro com Gracita, o mal voltou a sobrepujar o bem, enquanto substantivo masculino.

ESPAÇO LIVRE



ESPELHO



Na ilusão perdida vi a
tentativa de rejuvenescer
teu corpo triste, curvado.

E a imagem doce acolhendo
as últimas esperanças.

Aquela de ser como símbolo
da vida imortal.

Lutando contra o acaso
enfurecido de desejos
ante olhares de títeres.

Bené Chaves



segunda-feira, maio 16, 2005

Compartilho hoje com vocês do comentário que fiz sobre As Aventuras de Robin Hood, filme de Michael Curtiz e que foi publicado na Tribuna do Norte há dez anos atrás.


AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD


De um total de cinco versões (inclusive uma em desenho animado), esta fita da dupla Michael Curtiz & William Keighley (cujo nome consta apenas nos créditos, pois logo cedeu o lugar ao primeiro) é seguramente a melhor de todas.

As Aventuras de Robin Hood, produção 1938, conta a história da famosa lenda extraída dos livros de Walter Scott. No século XII, surge, na Inglaterra, um fora-da-lei, um justiceiro que rouba dos ricos para ajudar aos pobres. Na tentativa de debelar a tirania do príncipe João que se apodera do trono na ausência do rei Ricardo Coração de Leão, o lendário personagem espalha sua força pela floresta de Sherwood empenhado em atenuar o sofrimento daquela gente pobre. Aí entra o aspecto social da questão, como a exploração, a cobrança de gordos impostos (ah, sempre os terríveis e cruéis impostos...) e conseqüentemente as injustiças decorrentes de tais imposições.

A diversidade de opiniões e atitudes é aqui mostrada e levada às últimas conseqüências. E o que é pior: entre dois irmãos. Enquanto o bondoso rei Ricardo é querido e amado pelo povo local, seu rival, ou seja, o príncipe João, é odiado e execrado pelos mesmos habitantes. Revela-se, então, a disputa entre familiares, que dizem ser pior do que entre estranhos. É a ganância pelo poder, pelo dinheiro e também autoritarismo, mais uma excrescência de tantos que correm para sugá-lo.

E remonta-se, portanto, em uma versão moderna (embora ainda no século XII) de uma passagem da Bíblia, quando Caim e Abel eram partes extremas. Um representava o Bem e o outro o Mal, de onde surgiam desde aquela longínqua época disputados embates entre ambos. Daí a vida ainda seguir nesta corrente infindável de orações e devorações.
Clássico do gênero de aventuras, a fita de Michael Curtiz (Casablanca, 42) traz um ator (Errol Flynn) no rastro de seu sucesso em Capitão Blood (do mesmo Curtiz, realizado em 1935) vivendo um tipo sedutor, sagaz, ousado. É sem dúvida, como já falamos, o melhor Robin Hood que já apareceu nas telas, pois muito se disse e se falou do bonachão Flynn no papel de grande conquistador. Basta dizer que as mulheres da época foram literalmente seduzidas pelo ator/personagem. Correram, inclusive, notícias de que o mesmo tivera um caso com a atriz do citado filme. E como viviam brigando entre ciúmes e traições, a Olívia de Havilland ficava com tanta raiva que chegava ao extremo de colocar pimenta nos seus lábios para que o personagem não a beijasse com demasiada freqüência. Ou com demasiado ímpeto.

Alegre e movimentado, As Aventuras de Robin Hood não deixa de ser libertino, irônico, pois, participando de cenas audaciosas, o personagem também acrescenta um senso de humor e deboche que certamente enaltecem o valor do filme (vide o famoso duelo de espadas no final, considerado relevante para a época).

E um dos pontos altos também é a trilha sonora, que com certeza fustiga as cenas de ação. Assim como a doce e meiga (sem levar em consideração os apimentados beijos) Marian (Olívia de Havilland, linda) dando mais vitalidade a um jovem sedutor. Quem não gostaria de tê-la nos seus braços?

O filme de Michael Curtiz claro que influenciou sobremaneira as fitas de capa-e-espada dos anos posteriores, como deixou também patente a denúncia inicial das injustiças sociais, das arrogâncias/ganâncias e toda uma gama de iniqüidade e desafeição inseparáveis do mundo atual.

ESPAÇO LIVRE

AINDA SOBRE A JUSTIÇA...



Þ O irreverente e moderno filósofo americano Barrows Dunham, autor do excelente O Homem contra o Mito (Editora Civilização Brasileira S/A, 1966), corroborando opiniões outras, deu uma sentença final: parece até que quanto maiores os lucros da injustiça, maior a segurança dos que a cometem. Por conseguinte, não mais acreditamos que a razão controla a vida. Entendemos que a vida controla a razão. Dito isto e proclamando um certo niilismo, completou o pensador Oswald Spengler: a vida não tem finalidade. A humanidade não tem finalidade.
Mas, o homem bom, o homem feliz, é aquele justo, harmonioso, o homem cujas qualidades de caráter, perfeitamente aplicadas, executam sempre a nota certa na sinfonia da cooperação social, finalizou o filósofo Platão.
E novamente apelamos para o pensador Barrows Dunham quando ele diz que uma sociedade na qual ninguém jamais fez algo em benefício dos outros seria uma sociedade na qual nenhuma divisão do trabalho poderia existir. Dificilmente seria, a rigor, uma sociedade.



quarta-feira, maio 11, 2005

DÉCIMOS OITAVOS ALUMBRAMENTOS


Gupiara continuava crescendo a passos largos, enquanto a maioria de sua população não crescia a passos curtos. A distância entre elas avolumava-se com uma maior intensidade, visto que os mandatários acercavam-se da carência e ignorância de seu povo investindo mais em obras de interesses duvidosos (como já denunciamos anteriormente aqui), deixando os habitantes pobres em segundo ou terceiro planos e na sua já costumeira amargura. Era visível e notório tal procedimento, sobretudo quando indiretamente planejavam vultuosas e vultosas arteirices. Mas, mesmo sabendo-se da impostura que era peculiar nestes casos, nada se podia fazer, pois tudo tinha seu lado entremostrado e depois projetado com ardilosa perspicácia. Ardume no fiofó dos outros parece refrescamento, não? Sim, sim, principalmente quando se envolvem singularidades. Ou, então, excrescências. O antegozo ou antegosto de atos e fatos...

Na adolescência a gente incha e se enche de prazer, querendo a todo instante explodir junto à mulher amada. É um momento delicioso em que você é despertado por um estímulo causado num órgão receptor e de imediato levado ao sistema nervoso central. Troços que chegam, assim, de supetão. São expectativas, fervências. Mudanças psicológicas e corporais. E quando se quer algo impróprio, tudo se faz para adquiri-lo, porque certamente é mais gostoso. O proibitivo é desejado, uma proeza de quem o consegue. Também não deixa de ser um risco, porquanto você fica à mercê de ser descoberto a qualquer momento. Tendo-se ponderação os acontecimentos fluem com melhor tranqüilidade e correm assoberbados.

No caso em questão, isto é, da audácia e conseqüente dúvida acerca de comentários sobre os meus anotados e intrigados versos, fiquei com um pouco de receio e esperei uma decisão de minha namorada. (Ah, que bela ela estava naquela sua aparente ingenuidade!). Tinha quase certeza de que tudo não passava mesmo de mexericos, entrecortados com palavras ditas e desditas. Pude estimar, com clareza, todos os falatórios. E deduzi que a razão estava acima da aclamação, porém, no mesmo nível da aclaração. Iria gracitar com minha Gracita e ninguém a tiraria de mim, a não ser ela mesma. Fui e vim, enfrentei-a sem medo, disposto e resoluto.

Portanto, bati à sua casa e com o coração disparado (a taquicardia parecia levar-me ao paroxismo) vi que tudo não passou de intrigas, uma injúria de que estava sendo vítima, creio que com a finalidade de abalar nosso recém, mas invejoso relacionamento. Disse-me que tinha gostado do poema e entendia a situação vexatória que passei. Fiquei aliviado, ufa!, além dos batimentos cardíacos terem se normalizados.

São, parece, sei lá, invencionices da vida mesmo. Entendo o quanto você fez tudo com paixão e sinceridade. E ela completou dizendo que eram fantasias de nossas existências juvenis. O certo é que fiquei boquiaberto com o que Gracita dizia, dando-me a entender, com suas palavras, certa semelhança de uma mulher quase madura, experimentada, precoce. Assustei-me, um pouco, com seu relato e fiquei mais surpreso quando a mesma acariciou meu rosto demonstrando talvez gratidão.

ESPAÇO LIVRE



ambigüidade


entre tuas macias coxas

eu afogo minhas lágrimas

afago teu sexo

pensando no amanhã

no anoitecer e amanhecer

de nossas e novas vidas.


Bené Chaves



sábado, maio 07, 2005

DÉCIMOS SÉTIMOS ALUMBRAMENTOS


Soube, desde cedo, que versos (preferencialmente de boa qualidade) são para serem cantados em qualquer tempo ou numa ocasião que se fizesse necessária. E naquela etapa da vida, embora tais poemas feitos por nós não tivessem um artesanato poético à altura, a gente sentia o corpo ferver de emoção e impaciência. Só em saber que as garotas leriam os textos os rapazes ficavam loucos de ansiedade. Então, embora ainda tímido, no andamento do namoro, fui lá na casa de Gracita e entreguei a missiva, antes dizendo que ela somente abrisse quando estivesse sozinha. Fiquei nervoso diante do que sairia da mente juvenil da menina, apesar de saber que também era imaturo o suficiente para ter uma visão aprofundada do problema. Enfim, a solução seria esperar. E saí feliz da vida, de volta para casa, porquanto tinha me realizado com aquela oportunidade aparentemente não obstada.

No entanto , supus que ela pudesse não ter gostado dos versos, não pelo seu atributo literário, inclusive porque a mesma não era nenhuma estudiosa naquelas artes, mas originalmente pelo conteúdo erótico do texto. Realmente não fui cauteloso, porém tenho a ligeira impressão de tê-lo feito de propósito. E fiquei num impasse doloroso, parece que não dormi à noite. Era outra noite que não dormira, já que na anterior queimara as pestanas na confecção do atrevido e não sei se oportuno poema. Sabia (que precocidade!) o quanto seria difícil descrever e cantar a mente de uma mulher. No caso aqui, em particular, de uma donzela.

Mas, tudo teria de ser assim, com coragem e determinação, sem medo e procurando o que fosse melhor para mim e também para ela. Sei que tinha apenas elaborado umas palavras carinhosas (e fantasiosas, no arrebatamento da idade...) com o intuito, lógico, de agradar minha namorada. Acho que todos os meninos da época e que tivessem uma sensibilidade em gestação fariam o mesmo. Nada tinha como certeza. Tudo era ainda obscuro. As alegrias (e farturas) ou as tristezas (e carências) viriam com o tempo. Já que não estava cometendo nenhum crime, iria enfrentar Gracita, enfrentá-la-ia com as armas de que dispunha: os versos. Lindos ou feios, bons ou ruins, porém seriam os daquela ocasião.

Pude avaliar depois, através de comentários injuriosos (não sei a razão, mas geralmente as apreciações são sempre para atingir alguém ou fazer o mal, no caso direi, então, as depreciações), que minha namorada ficara apreensiva e sentindo-se burlada com o meu bilhete. E a malícia surgiu tentando deteriorar a minha imagem. Ela achou, diziam, que eu estava dando-lhe uma cantada, querendo seduzi-la por meio de palavras e maneiras estudadas. Ou tudo não passaria de intrigas? Sei não o que pensei, fiquei somente esperando o desfecho para emitir uma opinião.

(Estão vendo como não se faz uma paz? De um troço simples, bonito e talvez não fugaz, quase ninguém se satisfaz. E de uma besteirinha à toa tudo fica seco, mirradão. Aí você fica caladão, no oitão, embora com razão. Dou-lhe, portanto, um puxão, vá atrás do seu quinhão. Surge, então, um rifão. E você cai na contramão e sai mancando depois como um bufão. Sim. Não?).

Elaborei tal parêntesis para tentar suportar, através de rimas, as inquietudes surgidas. E daí superar as adversidades acontecidas não sei de onde. Desassossegos existem em toda parte, resta a nós outros sermos fortes e mostrarmos o lado bom de uma vida em comum.

ESPAÇO LIVRE

VAZIO


Na tua ausência
sinto-me solitário
mas solidário.
E diante de bela foto
dispo-me por inteiro.
Vendo-te na parede
branca e crua
carrego-a nua entre
corredores iluminados
de um tempo de emoções.

E na cama sozinho
suplico tua necessidade.

Bené Chaves



terça-feira, maio 03, 2005

DÉCIMOS SEXTOS ALUMBRAMENTOS


É certo, então, que Gracita (era como eu a chamava) despertou em mim uma atenção logo de início. Fiquei entusiasmado vendo tão doce menina ao meu lado quase todos os dias, ou melhor, quase todas as noites. Poderia muito bem está exagerando e tecendo comentários alheios à verdade, pois não posso provar o que estou dizendo, mormente quando tudo não passa de palavras escritas. Inclusive porque minha imagem adolescente era essa. Eu via as coisas na plenitude daquele estágio jovem, talvez desapercebendo o que viesse a ser de verdade. Para mim era outro momento sublime que teria de aproveitá-lo na sua essência. Contudo, tenho absoluta convicção de que os leitores acreditarão no que estou a dizer. Visualizarão os detalhes descritos, com certeza, ou construirão um retrato falado. Melhor dizendo: escrevinhado.

Porém quem conheceu, na época, a pessoa a que me refiro, lógico que me dará razão. Só que seria impossível (e nada também que pudesse voltar àquele período) um contato direto, claro, não interessando a ninguém, pois tal garota só deve existir, no presente (com sua beleza em evidência) através de fotografias. E eu as perdi, tanto uma como a outra, ao longo de minha existência. O que passou, infelizmente, são fatos irreversíveis. Ficam apenas a descrição, as sombras e réstias de uma época finda. Uma época de saudosa memória, daquela menina de pele morena e suave, de rosto deslumbrante, onde seus olhos desassossegados me abasteciam de prazer. Não gosto nem de pensar ou descrever o que o tempo destrói com seus passos implacáveis. É duro você ter de presenciar o desgaste em doses meio homeopáticas de um bom período vivido na sua juventude.

E a minha Gracita (que intimidade já, hein?) foi alvo, no medrar de uma paixão, de alguns versos que elaborei. Um canto em que exaltei seu encanto, compartilhando, averbando e avivando tal união. Eis o que fiz, no arrebatamento da oportunidade:
Mar /ia, na melancolia
enigma, agonia.
Na vida...
Teu nome emite o quê?
Impulso, pulso, depressão, pressão.
É um nome singelo
e sem dúvida belo.
Teu corpo é ternura, carinho,
desejo e tesão.
Sexamor ou desamor?
Palavra mulher... Símbolo.
Invenção e magia.
Sofreguidão ou comunhão?
Teus olhos me iluminam
de sexo e ação.
Ah, quanta inquietação!
Mar /ia, Maria: tristeza, alegria.
Quão meigo encanto e
devastador imanto!

Pareceu-me atrevimento tal texto para uma menina-moça, inclusive por estarmos iniciando um namoro. E principalmente naquela fase adolescente. Mas, eu nem sabia mesmo o que fizesse na minha imaturidade. E o poema saiu assim, talvez com uma linhagem própria da fase que vivia.

ESPAÇO LIVRE


CANDURA



No escurinho de meu quarto eu não vi
aquela moça acenando tristemente
a música feia e insossa na janela
o carro que corta a madrugada
a violência sempre desfraldada
o ladrão feito gato no telhado
aquele político vil e safado
o olhar malicioso da vizinha
o grito gostoso de um orgasmo
e o homem no maior marasmo.
Também não vi naquele escurinho
as crianças surradas pelos pais
a mulher brigando com o marido
aquela voz da prostituta cantora
e a trepada do casal no matagal.
Tudo isso não vi, porque estava
sonhando com a inocência.

Bené Chaves