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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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quinta-feira, outubro 25, 2007










VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (17)


De Lamartine Babo e Francisco Mattoso:



Eu sonhei que tu estavas tão linda
Numa festa de raro esplendor
Teu vestido de baile lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor.

*

Tomei-te aos braços, fomos bailando
Ambos silentes
E os pares que rodeavam entre nós
Diziam coisas, trocavam juras
A meia voz.

*

Olhavas só para mim
Vitórias de amor cantei
Mas tudo foi um sonho; acordei.


Obs: Alguns versos de 'Eu sonhei que tu estavas tão linda'(1942), de Lamartine Babo em parceria com Francisco Mattoso. Babo foi um compositor de grande sensibilidade e humor. Era também carnavalesco, com hinos louváveis para diversos clubes. Segundo conta o Almirante(Henrique Floréis Domingues), Francisco Mattoso mostrou a Lamartine esta música ainda sem letra. E o mesmo, então, apaixonou-se pela melodia. Convidado a terminar a obra, modificou algumas notas e compôs os versos. E a parceria se estabeleceu.
Tal música foi gravada pelo Francisco Alves em outubro de 1941, mas, infelizmente, Mattoso, que era também pianista, não chegou a conhecer o sucesso de sua melodia, pois morria jovem, acometido de tuberculose, com apenas 28 anos. Nasceu, portanto, em 8 de abril de 1913, em Petrópolis e morreu no dia 18 de dezembro de 1941, no Rio de Janeiro.
Lamartine Babo nasceu no Rio de janeiro em 1904, uns dizem que no mês de janeiro e outros afirmam que foi no dia 8 de março. Teria falecido em 16 de junho de 1963.

ESPAÇO LIVRE





CLAMOR


Quero-te amar
inexorável e
selvagemente.
E de teu ventre
fazer jorrar um
orgasmo misto de
dor e compaixão.

O grito mudo
de doar-se com
amargura.


SENTENÇA

Nos meandros do sofrimento
nas agonias do prazer
acasos e casos de rancor
a dor que dói não
é a do ódio.

É a dor do amor!


Bené Chaves










quinta-feira, outubro 18, 2007



O texto abaixo já foi publicado aqui em 2004, no primeiro mês de vida do blogue. Compartilho novamente com vocês uma leitura. Ou releitura.


OUTRAS EMBOLADAS


Meu pai me contou que na cidade onde nasceu os estrondos eram maiores do que em Gupiara. Quando raramente apareciam, os trovões mexiam com a terra. Imagine você que um dia o solo balançou como se fosse abrir... Nossa-Mãe-de-Deus!, não quero nem pensar, teria dito esfregando as mãos. Pois bem, as coisas eram assim ao contrário, iguaizinhas a hoje em dia.
Na seca brava -continuava ele- todos morriam de sede, porém nas enxurradas morriam afogados. Não dava pra entender tudo. E aquele povo nunca estava satisfeito. As intempéries não vinham aos poucos, chegavam, isso sim, em farturas. Juro não ter visto gente pra sofrer mais do que aquela. Pobres-coitados! Qualquer dia mato a saudade e vou rever o que restou dali. Triste sina...
Os olhos de Painhô se enchiam de lágrimas. Tinha lembrança das coisas. Era um sujeito bom. Mas, o que foi, foi. E o coração dele batia alto. Acho que existia sentimento demais para um mundo de perversidades, preconceitos, traições e, sobretudo, desamor. Queria amar a todos e, principalmente, amar as mulheres. E a dele em especial, um amor diferente, fraterno, singular. Disso não arredo pé, meu filho, vem aqui do meu íntimo, do meu gene - dizia com certo orgulho.
No mato longe, as cobras rastejavam inquietas e galhos eram pisados pelos cascos dos pampas. Nuvens cresciam, escureciam, voltavam a clarear. Raízes apareciam timidamente e a terra floria novas esperanças. As faces, em curtos momentos, se tornavam menos tristes.
Do alpendre, encostado na volumosa e redonda barriga da mulher (e com Tia Chica a preparar suas iguarias), Painhô pegou o violão e começou a ditar suas modinhas:

Saco bisaco bisaco saco de chumbo
Chapéu de coro é corumba
Macaxeira do Pará
Nego danado nunca diga que me deu
Pois você brigou mais eu
Quase morre de apanhar
Eu dou na testa dou na venta e no olho
Que o nego fica zarolho
Com vontade de chorar.

E continuou depois o estribilho:

Ai ai ai ai Maria
Ai Maria
Maria é meu amor

Vendo que minha mãe começou a verter lágrimas de tanto rir de suas estranhas cantorias, dedicou esta 'quadrinha' pra ela e alisou-lhe o cabelo:

Mulher dos olhos d'água
Não olhe pra mim chorando
Que a rua não está cheia
Nós estamos namorando

E voltando com o estribilho, abriu um longo sorriso, gritando pra dentro da casa quando sentiu o cheiro mágico vindo de lá:

Ai Tia Chica você é nosso amor
Sai do sereno qu'este sereno faz mal
Amor sereno. Serenamor.

E como a noite já estava ficando tarde, no dizer do povo, levou o estribilho e mudou as palavras:

Ai ai ai Gupiara
Ai Gupiara
Você é meu amor

Acho que meu pai extrapolou de cansaço nesta noite, a lua ficando do tamanhinho de nada e quase um ponto no espaço. Tenho a impressão que ele foi dormir mesmo. Soube depois pela preta velha que não se ouviu um gemido no quarto.
Mas, que ele dormiu abraçadinho com minha mãe, ah... disso tenho certeza!

ESPAÇO LIVRE


DUALIDADE


Na ânsia de despi-la
eu visto-me de prazer.

E na decepção de vesti-la
eu dispo-me de ilusão.


Bené Chaves



sexta-feira, outubro 12, 2007


(Este selo foi uma indicação da Luara, do blogue www.luar-luara.blogspot.com).




VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (16)



De Newton Teixeira e Jorge Faraj:


A Deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol num dourado sonho
Vai claridade buscar.

*

Minha rua é sem graça
Mas quando por ela passa
Seu vulto que me seduz
A ruazinha modesta
É uma paisagem de festa
É uma cascata de luz.

*

Infeliz na minha mágoa
Meus olhos são poços d'água
Sonhando com seu olhar
Ela é tão rica e eu tão pobre
Eu sou plebeu e ela é nobre
Não vale a pena sonhar.


Obs: Alguns versos de 'A Deusa da minha rua'(1940), música da época de ouro do romantismo, com melodia de Newton Teixeira e letra do Jorge Faraj, considerado o poeta dos amores impossíveis. Nesta valsa ele descreve o contraste entre a beleza da musa e a pobreza da rua. Teixeira também era cantor e violonista, tendo como parceiros habituais o Mario Lago, David Nasser, Cristóvão de Alencar e outros. Compôs a primeira música 'Tudo me fala do teu olhar' aos 20 anos e em parceria com o Cristóvão de Alencar. Nasceu no Rio de Janeiro, no bairro do Irajá, em 06 de abril de 1916. E faleceu também na cidade maravilhosa no dia 09 de outubro de 1972.
Jorge Faraj, compositor, poeta, aos 18 anos, inspirado pela literatura, escreveu seu primeiro verso. Largou a profissão de mecânico para fundar o jornal ‘O Botafogo’, com amigos do bairro. E tornou-se o responsável pela seção de Poesias. Conheceu em um café o compositor e flautista Benedito Lacerda e mostrou-lhe uma valsa a qual ele fez a letra. A parceria daria ainda muitos sucessos à dupla. Nasceu em 09 de julho de 1901 e morreu em 14 de junho de 1963 no Rio de Janeiro.


ESPAÇO LIVRE

O primeiro poema faz parte do livro 'Cinzas ao amanhecer'(Sebo Vermelho, 2003) e já foi publicado aqui. O segundo, porém, é inédito. Espero que tenham boas leituras.

CICLO-VICIOSO

Ontem lembradas
e festejadas.

Nascidas sob
a égide de sorrisos.

Hoje molduras
nas paredes úmidas.

Eclipsadas em
raras lágrimas.

Amanhã pedaços
de quase nada.

Relegadas ao
esquecimento.


SONHO



Ah, se eu pudesse!...
passaria em pasárgada
desceria no país de são saruê
sonharia estar em gupiara
amaria todas as mulheres
e você em especial.

Ah, se eu pudesse!...
ressurgiria entre cinzas
voltando a seduzi-la
na eterna jovialidade.

E no crepúsculo sombreado
apagaria as chamas naturais
das vicissitudes.


Bené Chaves



sexta-feira, outubro 05, 2007

O texto abaixo já foi publicado aqui em 2004. Coloco-o novamente para uma apreciação ou uma reapreciação. Espero que tenham uma boa leitura
O VIOLÃO DE PAINHÔ
À boquinha da noite Painhô voltou do trabalho e jantou cuscuz com tapioca, também aquela coalhada deliciosa de um leite puro, sadio. Depois foi até a cozinha e deu os parabéns a Tia Chica, ela orgulhosa, jeitão desconchavado. Obrigada, estou às ordens, precisando... E, então, meu pai aproveitou e criou um neologismo para nomear o prato saboroso: leitapioca!Foi até ao quarto, pegou o violão, a rede já esperando e juntou Mainhô - ainda com a barriga daquele tamanho -, a preta velha e começou a cantar. Engatilhou os dedos nas cordas e não parou. Misturou letra, substituiu nomes, juntou palavras, fez o diabo. O violão de Painhô era, no mínimo, diferente. Parecia brilhar se alguém o tocasse, seja literalmente ou quando de seus acordes saíssem uma bela canção. Transmudava-se com o dedilhar de seus mágicos dedos. Diziam que, a exemplo de Tia Chica no fogão, meu pai, com o violão, era o cão. Tudo isso no bom sentido, lógico.Parecia montado num cavalo pampa, caminhando léguas, não soltava as rédeas, ou melhor, as cordas. Era um autêntico cabra da peste.
Neste dia, filho, eu fiz travessuras com as mãos, soltei lindas emboladas pela goela. Ninguém conseguiu me parar. A varanda estava iluminada e a lua nascia e crescia novamente dentre os morros. Painhô pediu a Tia Chica um copo de água pra molhar a garganta, enquanto acariciava o ventre de minha mãe. E eu ali, dentro dela, quietinho, não via a hora de sair, querendo a todo custo gritar: bem que eu disse, estou com jeito agora de menino vivo.
E então meu pai respirou fundo um perfume que veio do lado do jardim e sapecou a última moda da noite:
Eu fui à loja fui à venda fui à rua
Fui comprar ferro de pua
Que é danado pra furar
Eu fui à rua fui à loja fui à venda
Fui comprar umas encomendas
Que mamãe mandou comprar.
E entrou com o estribilho, misturando sua ordem:
Ô mulher sai do sereno...
Ai ai ai ai Mainhô
Que este sereno faz mal
Você é meu calor...
Sentou na cadeira e segurou a mão de minha mãe. Um bom período Painhô ficou nesta posição. Tentou escutar na barriga inchada dela alguma inquietação minha. Mas nada ouviu. Parece que eu já dormira naquele ventre volumoso. Mesmo com todo o barulho ao redor.
Na madrugada quente o galo cantou e ouviu-se um chiado estranho pras bandas do quintal. Todos foram dormir. Algumas horas depois ficou somente um ponto no firmamento. A lua estava desaparecendo e lentamente subia para dar lugar ao companheiro sol.O dia cadenciava, clareava. E o arrebol deixou todos impressionados.
ESPAÇO LIVRE



A CONSTRUÇÃO (EM CORDEL) DO SÍLVIO CALDAS (RN)


O poeta e escritor Sílvio Caldas (RN) lançou em cordel (sextilha) 'A Construção do Brasil' no dia 27 próximo passado. Compareci ao evento e compartilho com vocês de alguns trechos do referido livro. Espero que tenham uma boa leitura.

O ano: mil e quinhentos;
Cabral e os quatrocentos,
Sem contar tripulação
Aporta na nossa 'ilha'
Pensando que a maravilha
Fosse pequena, pois não.

*

Na sua carta afamada,
Descrevendo a arrojada
Aventura de Cabral,
Com muito puxa-saquismo
Fez nascer o nepotismo
Corrupção e coisa e tal.

*

Assim nasceu a República
A chamada coisa pública,
Nova fonte de ilusão.
Deodoro: só dois anos;
E os nossos mil desenganos
Logo continuarão.

*

Aí sim, povo enganado
Governo tão relaxado
Como tal, nunca se viu
Maldita prorrogação
Infeliz dessa Nação
Que dom Fernando iludiu.

*

Houve dólar na cueca,
A deputada sapeca,
Dançarina de salão
Cassaram a Casa Civil,
Delúbio não resistiu,
Houve muito comilão.

*
Mas já no primeiro ano,
Que tristeza! O desengano
Tomou conta da Nação:
A corrupção atrapalha,
Tem operação navalha
Nunca vi tanto ladrão.