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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
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a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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terça-feira, novembro 23, 2004

CARNAVAL EM GUPIARA




Quando meu pai chegou em Gupiara já era quase época de carnaval. Então ele fez logo amizade nos seus arredores e junto com pessoas de sua idade organizaram um bloco para a festa que se aproximava. E fundaram um de nome esquisito: O Inferno das Cuias. Apesar do nome feio e estrambótico, o pequeno grupo queria se divertir pra valer. E realmente aproveitaram aqueles dias de uma festa profana, no dizer ainda de velhas carolas que viviam cuidando mais de assuntos não pertinentes às mesmas.

Acho que Painhô não tinha conhecido minha mãe, porque depois me disse que se enrabichou por uma suposta donzela que era um verdadeiro antro do prazer. Dessas de você ficar babando e depois comer (a baba, claro) com os próprios lábios.

Época difícil aquela, a idade era um martírio, meu pai ainda na agitação do espírito e querendo aproveitar o restinho de uma pós-adolescência. E a juventude, mesmo que um pouco tardia, seria adequada para a dita ocasião.

No lugar onde Painhô nasceu nunca brincara o carnaval, não existiam condições para isso. Ali, só havia uma seca brava, a enxada e a terra falavam melhor. E sua mãe, minha avó, portanto, exagerava nos cuidados de seus filhos. Sabia ela que eles eram jovens e queriam aproveitar a idade, principalmente Painhô, o mais velho de todos.

E meu pai vivia dizendo que o tempo não espera por ninguém, é efêmero e tem lá as suas encrencas. Mas, o melhor era não decifrá-lo por enquanto. Quando chegasse a hora ele teria um compromisso com a verdade. Nua e crua.
A vivência faz o homem, a consciência depende do lado humano, sua criação, o modo de olhar o mundo e julgá-lo. A festa do começo do ano era a alegria do povo, porém, era, também, paradoxalmente, a sua tristeza. Um desalento endógeno.

Seriam três ou quatro dias para desabafar incertezas, enganar-se em desilusões. E depois viriam os resquícios das cinzas, apenas a desesperança que ficara para trás. Aquela mesma borralha espalhada e absorvida pelo ser humano na continuidade de uma vida de valores inexistentes.

Mas, diante de si, Painhô olhou o entusiasmo na rua e não fez por menos, caiu no chafurdo com o bloco carnavalesco. Os outros na ilusão de noventa e seis horas, perdidos no meio da vida. Sumidos numa pseudo-alegria.

O carnaval fora embora. Nada mais de confetes, serpentinas ou pierrôs. Ou mesmo o palhaço fazendo muganga. As máscaras caíram nos esgotos de uma existência não atingível.


ESPAÇO LIVRE


DÚVIDA FINAL


Aos poucos se chega ao fim
um tempo de raras glórias
incertezas da época acabada
interinidade não propícia.
As cinzas então rarefeitas
cobrem o ar da cor plúmbea
no espaço de pouco duração.
Imaginam-se inocentes
nas penugens de uma vida.

E espalham-se no infindável.

Bené Chaves

por benechaves às 21:38