terça-feira, julho 29, 2008 |
 (Quadro de Pablo Picasso) No dia 01 de agosto, sexta-feira próxima, este blogue estará completando 04 anos de existência. Quero deixar o registro e agradecer a todas as pessoas que o visitam, especialmente aos amigos e amigas que comentam uma ou outra postagem. O sucesso ou não do mesmo se deve a uma regular continuidade. E, acredito que sim, esta continuidade se deva a presença de todos vocês. Talvez muitos não tenham o devido tempo para visitas ou algo como uma timidez para anotar. De qualquer maneira fico muito grato aos que comparecem com suas gentis e carinhosas palavras. Já disse uma vez e volto a repetir: verei até onde e quando poderei ir. O andamento (mais uma vez) dirá se devo permanecer ou não. Já tive vontade de encerrá-lo desde o ano passado, mas a saudade foi maior e resolvi voltar no meio do caminho. Perdi muitos elos queridos, não sei a razão. Talvez uma razão própria da indefinição que é a vida. Ou de qualquer imprevisibilidade. Mas ela é assim mesmo, se resume em acasos, casos, ocasos e descasos.
QUARTOS ALUMBRAMENTOS
Desde o momento que conheci Alba, uma enorme euforia tomou conta de mim, o corpo tremia quando olhava aquele morenaço de olhos verdes a acariciar-me às vezes somente as mãos, outras vezes o meu imberbe rosto. E meditava sobre um possível e talvez sério relacionamento. O homem, de um modo geral, pensa e tenta se firmar como uma pessoa capaz de obstáculos talvez até inacreditáveis. A mulher, por sua vez, sensível e maternal quase sempre, muito embora, com raras exceções, um pouco (ou muito?) difícil de entender, procura conciliar supostas exacerbações e, então, assenta-se como uma companheira leal. Mas, em outras ocasiões, dá-se justamente o contrário. E a recíproca fica num vai-e-vem danoso, a chamada infindável e insondável intermitência de valores. Por isso mesmo, seria imprevisível qualquer união ou desunião de pensamentos. Eu e Alba éramos ainda jovens, não tínhamos noção alguma de uma circunstância maior que pudesse se avizinhar. Portanto, a insistente pergunta: poderíamos enfrentar situações vexatórias e contraditórias contanto que permanecêssemos juntos um ao outro? Não sabia até onde iria o presente devaneio, mas o meu intento era tão somente viver aquela fantasia, fosse ela duradoura ou não. Coisa de menino besta e ansioso para arrebatar uma libido que florescia na viçosa idade. E acho que a recíproca também era verdadeira, embora castrada pelas normas repressoras do sexo feminino. Ou de uma sociedade falso-moralista. A vida era assim mesmo... Que ninguém duvidasse dela, pois a própria entortava e retorcia do jeito que quisesse, se fazendo senhora de suas determinações e deteriorações. Ela antevia as destrezas e pústulas, contudo também as pusilanimidades de uma existência. Dizia-se que vivia em constante mistura consigo. E, claro, com os outros em geral. Era uma vida arrevesada, não sei, contudo, se também arrevessada. Diante, no entanto, de tantas indefinições, todos ficam indignados com a mesma, vendo-a passar aleatória ante circunstâncias e circunvizinhanças. Seria uma natureza determinante ou certa força energética, absoluta? Pois sim! Pois não! Sim! Não! Pois! Senão? Eu não me incomodava com deliberações existentes e estabelecidas sejam lá por quem. Minha idade não permitia. Queria apenas levar adiante aquela paixão adolescente e efervescente. Que fosse pro diabo qualquer resolução em contrário! Seguia uma conceituosa e ambígua definição de Painhô: "o essencial da vida existia pra se comer (literalmente ou não) mesmo, não via necessidade de me necessitar".
ESPAÇO LIVRE
AURORA DA VIDA
Na madrugada madrugadinha eu pensei em ti. Nos nossos sonhos de outrora e na jovialidade dos encantos. Pensei na minha primeira noite. Ou primeiro dia? De como estavas excitante em uma camisola palpitante. Sonhei e me vi sorrindo no patamar de uma glória. Tu a pelejar e a cantar cânticos de extrema felicidade. Eu a embalar e cariciar vontade. Era o êxtase de um momento que dolorosamente esvazia...
Agora, na madrugada fria e triste vivo de lembranças mornas e mortas. De como o perverso tempo destrói o fluir de uma imaginária flor.
E, então, no meu amor madrugadinho os olhos desesperam recordações de breves e findos caminhos/carinhos.
Bené Chaves
quarta-feira, julho 23, 2008 |
VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (34) De J. Piedade e Oswaldo Martins: Tudo acabado entre nós Já não há mais nada Tudo acabado entre nós Hoje de madrugada Você chorou e eu chorei Você partiu e eu fiquei Se você volta outra vez Eu não sei Nosso apartamento agora Vive à meia luz Nosso apartamento agora Já não me seduz Todo o egoísmo Veio de nós dois Destruímos hoje O que podia ser depois.
Obs: Versos da música 'Tudo Acabado'(1950), que fez grande sucesso na voz de Dalva de Oliveira na 'peleja' de um desamor que passou a existir com o Herivelto Martins e que chegara praticamente ao fim. E víamos, então, os dois lados opostos de um sentimento se 'duelando' usando uma famosa canção para tal propósito. E as acusações múltiplas se sobressaíam entre uma voz feminina e outra masculina. O compositor J. Piedade(José da Rocha Piedade) era freqüentador assíduo dos cassinos e cabarés da Lapa nos anos 30 e 40. Nascido no Rio de Janeiro em 3 de setembro de 1920, ele compunha os sambas e aproveitava para 'vendê-los'. E, certamente, iria gastar todo o dinheiro na vida boêmia que levava. Podemos destacar como suas melhores músicas: 'Navio negreiro', gravada pelo Dorival Caymmi, 'A mulher do padeiro', marcha de enorme sucesso no carnaval de 1942 e também 'Chora doutor', gravada pelo Blecaute para o carnaval de 1959. J. Piedade faleceu em 2 de dezembro de 1978 na cidade do Rio de Janeiro.
Sobre o parceiro Oswaldo Martins não encontramos nenhum dado biográfico. Soubemos apenas que fez parceria com Nelson Cavaquinho e Nelson Washington na composição 'Palhaço'.
ESPAÇO LIVRE OPOSTOS
Surgisses na bela aurora brilhante e cinzenta para cessar no crepúsculo frio, de gotas cristalinas.
O orvalho a cair e purificar o rosto suave e sorridente sob o pulsar de fagulhas entre a vida e a morte.
Bené Chaves
terça-feira, julho 15, 2008 |
TERCEIROS ALUMBRAMENTOS
Tive minha primeira namorada aos quatorze anos. Uma bela pré-adolescente (ou já adolescente, creio), acho que ainda na floridade, no máximo treze primaveras. Não soube bem, não perguntei, podia ter até mais do que isso. Estava desabrochando como uma pétala. Mas, uma moça quase feita - como se dizia - e do meu tamanho. Era de se admirar que ela tivesse tal estatura, batendo palmo a palmo comigo. As meninas da época, como quase todas as mulheres de um modo geral, teriam suas alturas bem menores do que a dos rapazes que as cortejavam.
Logo me encantei com aquela morena, eu bobo ainda, numa idade fogosa e necessitada de desejos próprios ao período juvenil. Não me lembro onde a conheci, porém tenho certeza que foi o dia mais feliz do almejado período. Uma cegueira completa e de momento para a jovem visão de um menino ávido por um relacionamento seja lá o que fosse. Seria uma oportunidade de ouro.
Os relacionamentos, ah, os relacionamentos! Diziam por si só dos encantos e por que não dizer os cantos de nossas existências...Afora uma briguinha ou outra o sexo oposto dava-se literalmente aos ensejos de nossas libidos. E isso era o que todo rapaz desejava. E deseja ainda, evidente que sim.
Alba era o nome de minha namorada. Um nome doce, delicado, apaixonante. Dotada de um belo corpo em formação, seus olhos verdes faziam a diferença. Resplandecendo de um modo expressivo e mágico, também se assoberbava do poder de tê-los. Os seus seios, então, nem se falam: surgiam tímidos, arredondados e voluptuosos. E quão desejosos! O quadril, ah, tinha a perfeita forma de um violão, desses novinhos em folha, saído da fábrica e delineando-se no simultaneamente anexo.
Descendo um pouco, via-se um lindo umbigo afeiçoado na pequena e bem-feita circunferência. Mais abaixo, a vagina... Ah, que vulva! Em crescimento, é verdade, porém denotando as partes sensíveis e esboçadas. E surgindo já com pequenos pêlos de um marrom escuro, a pequena região triangular se mostrava jovial, pouco intumescida, mas apetitosa. Poder-se-ia dizer que estava se recheando, saborosa e delicada em sua fase de mutação. Assim eu no início imaginava Alba, lógico, pois ainda não conhecia suas partes, principalmente as íntimas. Apenas sonhava vendo o formato do corpo que se punha à minha presença. Afora os olhos esverdeados, evidentemente. Tudo seria a vontade surgida de um menino (no singular ou plural) em estado latente, embora as moças da época fossem reservadas o suficiente para um ato mais libidinoso.
Não era bem assim. Quando muito, se podia pegar nas mãos. E como eram suaves as mãos de Alba! Aquilo já deixava os rapazes eriçados, inclusive eu com minha morena e recém-namorada. E diante de tantas indefinições do período mesmo, elas se mantinham em um posicionamento de retaguarda. Às vezes alguém mais afoito queria avançar o sinal, mas não saberia ao certo qual reação viria do lado oposto. E ela, Alba, parecia não fugir à regra. Parecia... Eita mundozinho já ficando sem-vergonha, mal-amanhado! Capaz de numa cusparada enorme arreganhar todas as suas entranhas, seus nocivos e incubados desejos. Aí vocês vão ver, com certeza irão presenciar, apreciar e atestar. Ou desapreciar... Ou desatestar...
ESPAÇO LIVRE
O poeta Eduardo Gosson(RN) mandou-me dois poemas de sua última lavra. Compartilho com vocês a publicação dos mesmos. E espero que tenham uma boa leitura:
UMA CANÇÃO PARA ISABELLA
As trevas prevaleceram e uma Isabella padeceu num vôo de pássaro, silenciado.
Isabella, eras linda e trazias no olhar a alegria que só as crianças são portadoras.
Isabella, bela. Hoje, estrela no coração de Deus.
AMÉRICA LATINA
Para Ernesto ‘Che’ Guevara
Há uma América dentro de nós: sangra, dói dilacera.
Há uma outra América, a da esperança, Ernesto ‘Che’ Guevara.
terça-feira, julho 08, 2008 |
VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (33) De Vicente Paiva: Vem de uma remota batucadaUma cadência bem marcada Que uma baiana tem no andar E nos seus requebros e maneiras Na graça toda das palmeiras Esguias e altaneiras a balançar São da cor do mar, da cor da mata Os olhos verdes da mulata Tão cismadores, fatais, fatais E no beijo ardente e perfumado Conserva o travo do pecado Dos saborosos cambucás.
Obs: Versos da música 'Olhos Verdes'(1950), do compositor acima. Vicente Paiva Ribeiro também era cantor e arranjador, nascido na cidade de São Paulo no dia 18 de abril de 1908. Em 1926 começou sua carreira como pianista em Santos e logo seguiu para o Rio de Janeiro. Gravando os sambas 'Beijar não é pecado'(Oscar Cardona), na Victor, 'Mulher'(Pascoal Barros), e o samba-canção 'Machuca'(Donga/De Chocolat), estreou como cantor em 1929. Compôs, com Nelson Barbosa, em 1935, a famosa 'Marcha do cordão da Bola Preta', conhecida como 'Segura a chupeta', relançada para o carnaval de 1962 com gravação da Carmen Costa. Em 1937, também no carnaval, fez grande sucesso com a marcha 'Mamãe eu quero', uma das músicas carnavalescas mais conhecidas de todos os tempos, que ele gravou com seu parceiro Jararaca. De 1945 a 1952 foi diretor musical e regente da orquestra da Companhia de Revistas de Walter Pinto, uma das mais solicitadas no Rio de Janeiro, principalmente, no carnaval. E em 1951 a Dalva de Oliveira gravou 'Ave Maria'(com Jaime Redondo), com enorme sucesso. Aliás, o samba 'Olhos Verdes' também foi gravado pela Dalva no mesmo ano. Vicente Paiva faleceu no Rio de Janeiro/RJ em 18 de fevereiro de 1964.
Realço aqui alguns belos versos de 'Ave Maria'(1951):
Abençoai estas terras morenas
Em seus rios, seus campos
E as noites serenas, Abençoai as cascatas E as borboletas que enfeitam as matas.
ESPAÇO LIVRE
 O poema abaixo faz parte do livro 'Cinzas ao amanhecer' (Sebo Vermelho, 2003). Já foi publicado aqui no início de 2005. Espero que todos tenham uma boa leitura. Ou releitura. MARTÍRIO
A vida nos faz órfãos não da ausência de pais mas da presença e ainda temporalidade existencial.
Ela arrebenta o ser que temos em nós.
E triunfal segue aniquilando-nos.
Bené Chaves
terça-feira, julho 01, 2008 |
SEGUNDOS ALUMBRAMENTOS
Estou então aqui, na minha pré-adolescência. E farei qualquer coisa para não decepcionar ninguém. Talvez haja alguma discordância quanto a pensamentos, palavras e ordens, porém nada que seja algo discrepante ou insolúvel. Ou ainda que não tenha uma conclusão de ambas as partes. Estarei sempre pronto, portanto, para tentar resolver questões que ocorram. E divergir, caso faça-se necessário. Tinha também consciência que os pais toldavam nossa efervescência inocente e não se faziam toleráveis. Alguns até exageram nos seus atos. Teriam tais filhos cometidos delitos ou peraltices inimagináveis? Porém, afora essas questiúnculas decorridas, as coisas poderiam voltar ao normal. E minha tenaz vivacidade (arre!) desabrochava-se com todo o ardor que lhe era peculiar, deixando, então, tudo de lado. Todos sabiam das esquisitices de velhos genitores que exigiam muito de uma educação controlada e coisa e tal. Mas, às vezes, o tiro saía pela culatra. Ou seja: gerações inteiras se revoltavam contra possíveis arbitrariedades. Porém, deixando de lado fatos pendentes, o resto ia tudo bem. Mormente quando se apregoava algo em torno de minha postura como uma pessoa querida e devidamente interessada em assuntos outros que se afinassem verdadeiros. Eu tentava fazer todos acreditarem na minha palavra, pois era uma das únicas (ou poucas?) que realmente valia, dado que nem sempre apareciam alocuções que se assemelhassem com a dita. Caráter verboso? Então, cresci assim e desse jeito estou. Não tento me gabar de nada, apenas quero exprimir algo que nasceu comigo. É a tal raiz de que falava Painhô. Procuro, também, na medida do possível, repassar para todos, o que tem sido uma tarefa difícil. Porque a gente sabe que é preciso repisar a tecla várias vezes. Depois, claro, devem surgir novos horizontes e tudo se evidencia esclarecedor. Estão atentos ao meu raciocínio? Tudo é o que é e não adianta meter o pé, dizia o antigo e acomodado provérbio. Desde cedo, no entanto, me veio à mente uma determinação. E, lógico, não vou opô-la a vexames. Portanto, tentarei lutar contra a renitente mediocridade que ainda assola o ser (dito) humano. Enquanto divagava em questionamentos ambíguos, Painhô aproximou-se trazendo o enorme livro, já de páginas amareladas, que mantinha na sua velha estante. Leia aqui esta passagem, filho. E me entregou o espesso volume. Li em voz alta: " O velhinho vinha vindo sorridente e sem dente. Olhou-me com apreciação. No seu caçar, ele era o dono daquele rancho graúdo e de léguas. Vinha no cavalo, com valimento. Eram reses aos montes, a gente não podia contar em dedos, tinha de imaginar. Os mugidos se espalhavam. A não ser a área imensa, o resto não valia nada. E o esperto velhote saiu tangendo o gado magro para pastar nas vizinhanças. Eh boi! Eh boi! Eh boi!". Sabia que meu pai sempre foi apaixonado por uma fazenda e tudo o mais. Porém, ele interrompeu minhas divagações. Não o reprovo, evidente que não, ele tinha lá seus arroubos também. E, de certa forma, eu gostava daquele mundão chocho, choco, goro. Eram sinais de uma raiz...
ESPAÇO LIVRE
SOMATÓRIO


Na conversão do tempo os meus encantos sumiram. Os cantos também. E os desencantos.
Restam-me apenas resquícios de ávidos e diluídos amores. Belos rostos e corpos a lembrar e a lua para sozinho apreciar.
Bené Chaves
|