
DUPLO ORGULHO
![]() DUPLO ORGULHO Acho que vocês não imaginam como era Gupiara tempos idos. Painhô tinha consciência disso e vivia me dizendo. E o seu apreço por Mainhô superava as menos imaginadas precauções e situações. No resguardo dela ele quase não saía do leito, ali colado na minha mãe e tratando do nascimento dos filhos. De beijinhos no rosto pra não variar. Ele era muito carinhoso, tratava sua esposa com afeição própria de um homem simples. Depois ele me contou tal história bem ao seu jeito. Com coragem de fazer inveja a qualquer uma, Mainhô nunca foi parir em uma maternidade ou hospital para tal fim. Teve as seis crianças no quarto dela, ali mesmo, com apenas Tia Chica fazendo seus gostos e iguarias para o momento e a parteira zelosa que não teve igual. Sempre foi uma mulher destemida, meio rústica, nascida pras bandas daquele sofrido interior de várzea agreste. E, portanto, eles, os filhos, foram nascendo em intermitências regulares, cada um com sua aparência própria, lógico. Eu, tido, já dito aqui, como de belo porte, pesei densos cinco quilos e duzentos gramas, com cinqüenta e dois centímetros. E era de se imaginar, pois minha mãe carregou-me com uma barriga que não tinha mais tamanho. Seria o início, então, de uma trajetória. Gupiara tinha, apesar de tudo, a favor de si, o fato de ser uma cidade peculiar. E isso fazia muito bem ao ego daquela família. Além disso, não havia quase poluição, o ar limpo diluía indícios de possíveis impurezas. Sorte para todos, nome para o lugarejo. Painhô gostava mesmo de prosear. E me dizia que o homem é o doador e a mulher a receptora. Sendo assim, quem dá tem mais poder. Parecia um aforismo ditado pela natureza e suas esquisitices. E o homem se orgulha, completava, se envaidece, doa a quem doer. Ele doa. Ela recebe. Pois sim! Sem isso ocasionar nenhum machismo de sua parte. Falavam nos arredores de Gupiara, as más e também boas línguas, que muitos filhos acarretam verdadeiros deslizes. Eram as sabedorias surgindo disfarçadas e soberanas. Porém, minha mãe os teve mesmo assim. E tanto ele como ela eram felizes naquele momento. Estavam todos nascendo para serem criados pelo mundo. Tardinha daquele dia, a gente, meu filho, via o entorpecimento do sol, as nuvens espalhadas cobrindo-o parcialmente e presumindo-se uma proteção ao todo-poderoso raio de luz. Surge, então, o objeto em detrimento do humano, que apodrece com os anos adormecendo como uma criancinha acariciada ao colo da mãe. Quando ela acorda, vê um velhinho sentado à beira do rio catando grãos de areia. Olha para um lado e outro e exclama estupefata: mas como a vida é curta! Ontem mesmo vi um lindo menino a brincar despreocupado e feliz. Porém aí, nesta parte, eu já emendei delirando, pois essa estória foi vista em sonhos. Adormecera no finalzinho do dia antes de Painhô terminar seu relato.
![]() Foto de Maaria Antonia Bueno, in Olhares.com VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (19)
O texto abaixo já foi publicado aqui. Sai novamente para os que não tiveram oportunidade de lê-lo na ocasião, no ano de 2004.
![]() Certo dia, meu filho, achei tudo esquisito quando foram colher seu sangue. Olhei ao redor e vi um médico baixinho ao lado de enfermeiras apavoradas e dando faniquito ao ver uma seringa saindo de sua veia com sangue azul a fluir com leveza. Depois via aquele líquido coagular ante olhares atônitos. Certamente sua mãe não acreditara quando vira dias atrás aquela maldita mancha no lençol. Era um caso anormal, claro, pra estudo detalhado e parecendo até uma imaginação. Mas, teriam peritos no assunto, para ocorrências como essa, de sangue azul em um ser humano? Seria uma incógnita se aproximando... Painhô pensou até em uma paranormalidade ou algo em terreiro de macumba. Embora não acreditasse neste lado empírico da vida. Todavia, aquele líquido de cor nas veias não denunciava em nada as relações ambientais de ninguém. O fato, por si só, seria uma louca aberração da natureza. Ela que, inclusive, já nos tem mostrado e demonstrado o quanto é singular. Então se falava: fulano tem sangue azul. Quer dizer: é uma pessoa importante. Nada de substância diferente no corpo. No caso aqui, em particular, seria um problema mais grave. Ela, a pessoa, lógico, detém a excentricidade de um ser não ser habitual. E daí toda a celeuma que o caso trouxe em si. Diziam, desde tempos idos, que um rei ou uma rainha tinham sangue azul, porém era uma referência no sentido figurado, evidente. Uma tradição do tempo da monarquia, infelizmente ainda posta em prática em alguns países de nossa dita civilização. De qualquer maneira a criança em questão não fazia parte de trono algum, a vida apenas lhe teria pregado essa peça invulgar. E como na existência às vezes aparecem fatos estranhos, levou-se o caso como mais uma aberração e ironia da mesma. Então, o dia seguinte amanheceu turbulento. Dentro de um buraco, numa enorme montanha, saiu aquele menino a chorar. Vagou e sentou-se à beira de um rio, começando a catar peixinhos que fluíam na água límpida e descorada. Mas, o riacho foi ficando azul e correndo paralelo com as soluçantes lágrimas. E o estreito córrego terminou vivamente colorido, numa mesclagem inesperada e desproposital do infeliz mancebo. Porém acordei, meu filho, assustado e dando berros e vendo sua mãe do meu lado bastante aflita. Acho que tive um longo pesadelo. E depois fiquei a imaginar como seria uma pessoa com sangue de outra cor no organismo. Talvez uma completa extravagância. Todos ali deveriam temer quanto a isto. Ou não? Acredito que sim. E fica somente o fato como uma tradição e em sentido figurado. Os monarcas que o digam. As pessoas nascem, crescem, morrem. É um logicismo ilógico da vida. Vê algum sentido nisso? Homens, mulheres, crianças... Crescem os frutos e a raiz apodrece. O caule perde o viço, torna-se perro. E depois ninguém fica sabendo o que aconteceu. Ou se aconteceu. Gupiara um dia desaparecerá, todos desaparecerão, tristes sinas. Ela foi. É. Não é. As lembranças marcam os rostos de seus habitantes. E os nossos também. Surgirá, no interstício, uma urbe diferente, desumana, alheia aos anseios de um povo. Porém, espero ainda encontrar alhures a província desaparecida. Será que terei tal alegria? No aspecto da vivência ser um sonho, penso que sim. Pois na realidade ela pode ser apenas, entre risos e lágrimas, uma foda atrás da outra... ESPAÇO LIVRE ![]() A POESIA DE CARMEN VASCONCELOS(RN) A RAINHA DE SABÁ Não Senhor,não tenho ganas de sabedoria. Apaziguai minhas dúvidas, minhas zangas, mas com inocência ou beatitude... ou até com santidade, para que possa, eu também, assim como vós, viver contorcida de amor. TIRÉSIAS Eu fui o suor do Deus, fui suas lágrimas, fui um anjo feito do seu sangue. E assim me apossei do segredo sagrado. Furaram-me os olhos, feriram-me com desonras, mas não me roubaram o segredo. Decretaram pena de exílio à doida que havia em mim. Ela foi degredada, banida, mas não me arrastou o segredo. Continuo macho e fêmea, permaneço com gula de amor. Sei que gozo não se mede, nem para pedir perdão, nem para afagar os deuses. MEDOS Aonde vou ando com meus medos meus medos me aquecem feito febres Eles perduram como avisos pendurados nos meus desvãos fincados nos meus desvios Mas nas tabuletas coradas de ferrugem já não leio meus medos corroídos eu os lanço ao mundo não como flechas envenenadas não como espadas, não como punhais não como se fossem estiletes Lanço meus medos como revérberos de embaraços Meus medos andam comigo como credos meus dedos desfiam as lãs os rosários dos meus medos neles me fio Não tenhas medo, meu amor, não temas não tenhas medo dos medos que eu tenho despachado nas encruzilhadas.______
![]() VERSOS QUE CANTAM E ENCANTAM (18) De Herivelto Martins: Barracão de zinco Sem telhado, sem pintura Lá no morro, Barracão é bangalô. Lá não existe Felicidade de arranha-céu, Pois quem mora lá no morro Já vive pertinho do céu. Tem alvorada, tem passarada Alvorecer Sinfonia de pardais Anunciando o anoitecer. E o morro inteiro no fim do dia Reza uma prece, Ave Maria... ... Ave Maria... Ave. E quando o morro escurece Eleva a Deus uma prece Ave Maria... Ave Maria... Ave... Maria. Obs: Versos da música 'Ave Maria no Morro' (1942), de Herivelto Martins, compositor nascido no Rio de Janeiro em 30 de janeiro de 1912 e que com apenas três anos apresentava-se declamando. E dizia: 'Nasci pra namorar/ Toda moça bonita que eu vejo/ Dá vontade de casar'. O seu pai, o agente ferroviário Félix Bueno Martins, era um apaixonado pelo teatro. E promovia grupos de teatro amador. Foi, então, depois que o Herivelto conheceu o compositor José Luis da Costa, o Príncipe Pretinho, que lhe deu uma oportunidade para a carreira artística. Passou a viver em 1936 com a cantora Dalva de Oliveira com quem teve um filho, o também cantor Pery Ribeiro. Observando em uma ocasião o barulho dos pardais se recolhendo às árvores para dormir, sentiu que tal gesto daria um samba e compôs os primeiros versos de 'Ave Maria'. No entanto, relatou em depoimento para o Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro: "Eu me preparei para mostrar ao Benedito Lacerda e então cantamos eu ao violão e Dalva com aquela bonita voz crente que estávamos agradando. Terminada a apresentação, o Lacerda tirou os óculos, esfregou os olhos e disse: meu compadre, isso é música de igreja, vamos fazer música para ganhar dinheiro". E assim começaram aqueles primeiros acordes com alguma desilusão. Depois a composição constituiu-se em grande sucesso. Herivelto Martins produziu mais de 100 músicas e foi personagem muito importante na MPB. E também líder classista dos compositores. Morreu em 17 de setembro de 1992. ESPAÇO LIVRE O primeiro poema faz parte do livro 'Cinzas ao amanhecer' e já foi publicado aqui. O segundo, contudo, é inédito. Espero que tenham uma boa leitura. ![]() RUPTURA A distância de idade faz entristecer sem poder tocá-la amá-la querer. Na ilusão perdida meu jovem olhar. A desesperança humana de doar. A minha e tua curta existência não poderá quebrar diferente diferença? PROBIDADE Rasgo tuas vestes cubro-a com temor e deixo-te vestida. Com a nudez de teu corpo. Bené Chaves
![]() O SONHO DE PAINHÔ Quando nasci, Painhô contou que fora sob influências simples. E então, meu filho, mandei chamar a parteira, você ali, como se diz, num pé pra sair. Embora, claro, tenha sido parto normal e era sua cabeça que viria primeiro. Tenho a impressão que sua mãe sofreu pra burro, também com aquele seu comprimento todo... não sei como ela suportou tantos meses! Tragam a toalha depressa!, gritou a parteira, Tia Chica a correr de um lado para o outro, procurando se esmerar diante do acontecimento. O certo é que todo mundo ficou nervoso. Juro que ouvi movimentos, um alvoroço dos diabos. Desejavam ver o rebento, afinal de contas aquela criança pesara mais de cinco quilos. Você, portanto, nasceu, contou meu pai. E confesso que senti mãos amassando meu frágil corpo, embora dissessem que era um garoto bem robusto. Contudo, diante do episódio, fiquei com uma pena danada de Mainhô. Acho que não foi moleza ela suportar nove meses uma barriga tão pontiaguda e desconfortável. Sabia que a maternidade dos seis filhos traria conseqüências danosas principalmente no tocante à sua coluna dorsal. E atualmente tenho consciência disso, ela que vive a se queixar de dores nas superposições de suas vértebras e adjacências. Mas, os de casa ficaram alegres. Champanhas foram abertas ao evento e um berço de proporções maiores estava à minha espera. Eu que seria a geração primogênita da família. Mundo meu, oh mundo meu, este menino é também seu, dizia Painhô ao ver-me nos braços de minha mãe. Seria, acho, dali em diante, senhor de atenções e atrações.Todos irradiavam contentamento, o beija-flor picava néctar das flores, as árvores surgiam com belos frutos, Gupiara parecia festejar com folguedos a parição de minha mãe. Aleluia! E com todas essas preliminares, meu pai ainda disse que fora sob influências simples? Que ingênuo! Mas, Painhô era assim mesmo. O jeitão dele em contar casos ou causos, ora aumentando ora diminuindo de acordo com suas conveniências. A parteira avisou: a criança é linda, linda, tem um belo porte. Você está bem, nada de preocupação, nunca vi uma mulher tão forte. Dizia isso feliz da vida, pois colocara mais um ser neste nosso, não imaginava ela, ignóbil mundo. E ainda venho saborear sua comida, falou pra Tia Chica ao sair pelo corredor, a preta velha regozijada a rebolar os quadris. Disse ainda ao meu pai que Mainhô tivesse cuidado pra não quebrar a quarentena. E que ele também se aquietasse. Mas, aqui pra nós, talvez Painhô não fosse capaz de cumprir tal obrigação e inventasse de se enxerir pra algum rabo de saia. Desconfiei e supersticiei. Contudo, estava meu pai ali, sentado e segurando Mainhô pelo braço. E eu sendo ainda levado na barriga dela. Deitado na rede sempre armada no alpendre me disse depois que tivera naquele dia um belo sonho. E ficou a dedilhar seu violão entre uma conversa e outra com minha mãe. A inspiração, porém, pareceu fugir-lhe e ele nada cantou. ESPAÇO LIVRE
O poema abaixo faz parte do livro "Cinzas ao Amanhecer" e já saiu aqui. Vai de novo para quem não o viu na ocasião. Espero que tenham uma boa leitura. ![]() CANTO À INOCÊNCIA Eu não pedi o mundo desse jeito para mim não queria a guerra, apenas a paz não pedi rivalidades entre os seres somente concórdia e não poderes. Não queria que a corrupção dominasse a hipocrisia e falsidade se alastrasse. Pedi justiça e não sabida esperteza também uma simples e plena justeza. Não, não imaginei o mundo assim... queria sim, que ele não fosse ruim que a poderosa e sempre disputada grana não matasse os ditos humanos entre si e a violência / fome acabasse para ti. Não queria tampouco a velhice chegando a gente, então, alcançando o triste fim e a morte como um pesadelo enfim. Não, não pensei que o mundo fosse... nem para todos e, claro, nem para mim. Um universo aparentemente belo mas paradoxalmente não serafim. Desejava outro mundo de amor sem qualquer insuportável dor. Bené Chaves |