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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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terça-feira, abril 01, 2008




ITINERÁRIO ALFABÉTICO (4)




MEU colégio era obrigação ir pra missa. Confessionário, hóstia, um verdadeiro santo. Imaginem que até cantar em coral da igreja eu cantei. Fiz a chamada primeira comunhão bem comportado e as traquinices e indiferenças (ou descrenças) vieram com o tempo. Mas, na narração desta letra estava em estado de graça. Ou presumia que estava.

Hora da celebração: era mais um pretexto de moças e padres carentes. E as paqueras aconteciam nos bastidores entre um olhar e outro. Os sacerdotes depois largavam tudo e fugiam com as meninas também ávidas para pegar o seu homem. Era um sacrilégio em nome de uma pseudovocação. O que valia mais seria o desejo em pleno palco de uma igreja que ficava desmoralizada ante o fastio de também falso-moralistas. E quando cresci entendi melhor a trama amorosa dos padres no horário dito religioso, mas com os olhos nas lindas (algumas nem tanto) donzelas ansiosas para casar.
O fato é que pouco tempo depois não existiam quase presbíteros naquele educandário. Muitos deles fugiram com as meninas-moças que, nas suas supostas inocências, viam naqueles domingos matinais uma oportunidade de um casamento talvez seguro em nome de um desejo inicial.

NÃO sei porque nasci uma pessoa tímida, muito tímida, nada puxando ao meu pai. Talvez as raízes ancestrais tenham vindo de Mainhô, sei não... E às vezes também era um pouco pensativo. Mais tarde soube através de minha mãe que teria puxado a ela no aspecto da timidez. Seria um predestinado e teria sido enviado para detonar e clarear mentes obtusas e que pudesse tomar impulsos extraordinários com o decorrer do tempo? Sei que a vida tem lá seus mistérios, a origem de todas as coisas voa igual um passarinho além mares. Quando atravessa o tempo, não sabe de onde partiu.
E somente tenho certeza que saí de um enorme buraco, porém não sabia a razão e nem para onde iria depois. Achei, contudo, bacana ser um menino sensível, que tentava compreender tudo. Entretanto, um temor sempre surge na nossa frente e a gente fica a lamentar um medo da obscuridade. O diabo é que parece que ainda não consegui superar!

O carnaval chegou e a gente formou um bloco: 'A cobra que mordeu o Belo', uma espécie de roteiro matinal destinado às brincadeiras do período. O título não soube bem o motivo, se existia ou não a citada cobra, embora soubesse que o tal significado indicasse alguém de especial atenção. E a razão da existência da turma de rapazes seria o assalto às casas conhecidas, uma talvez leve (ou pesada) maneira de tomarmos uma bebidinha a mais. Uma velha camioneta servia de percurso, pena que as mocinhas da época, ainda acanhadas ou pressionadas, não aparecessem como integrantes também do citado acompanhamento. Eram somente marmanjos, o que não deixava de ser triste. E teria sido ótimo se algumas delas estivessem perto de nós, então a alegria ia ser redobrada.
Mas, a compensação nós tirávamos no divertimento, de vez em quando exagerado pelos mais afoitos. Porém eu não deixava de me lembrar que as supostas donzelas pudessem estar ali nos fazendo belas parcerias. Sim, adivinhei o motivo do título do bloco: era um belo carnaval. É de lamentar apenas que o ofídio o tenha mordido.


PAINHÔ às vezes ralhava comigo, implicava quando não o obedecia. Mas, tudo isso era coisa de criança mesmo. Bem que eu lutei pra ficar no ventre de Mainhô... Mas, infelizmente, não somos donos de nossos narizes. E ele gostava de um cocorote que doía pra valer. Minha cabeça voava e passava dias com o couro cabeludo doendo. Quem mandava ser medonho, hein? Sei que o cérebro tem os seus emaranhados, ninguém imagina, é cheio de ondulações. Quando um tálitro é dado com força, aí esfacela, a moleira afunda. Evidente que não foi o meu caso, mas sofria um pouco com aquela indisposição. Os embaraços, situações incômodas, não posso precisar ou alegar de que foram. São acontecimentos que aparecem ao acaso.
Porém, nossas vidas são ambíguas. E o simples fato d' eu existir acarreta súbitos interesses alheios. Perguntas são postas e daí surgem discussões que raramente têm respostas que satisfaçam o interlocutor.


ESPAÇO LIVRE

ARIDEZ



Rasgo o véu de tua pureza
e te cubro com meu corpo
deixando os ávidos sexos
a pelejar entre o êxtase e
uma crucial indecisão.

Na transitoriedade da dor de
um suposto amor.

E depois contemplo o ato
na tensão inacabada do
capítulo da existência.

Bené Chaves

por benechaves às 20:32