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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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sábado, julho 28, 2007




No dia 01 de agosto, quarta-feira próxima, este blogue estará completando 03 anos de existência. Quero deixar aqui o registro e agradecer a todas as pessoas que o visitam, especialmente aquelas amigas e amigos que comentam uma ou outra postagem. O sucesso ou não do mesmo se deve, acredito que sim, a presença de todos vocês, embora tenha notado também uma assustadora queda nos comentários. Talvez muitos não tenham o devido tempo para visitas ou algo similar. De qualquer maneira fico muito grato aos que comparecem com suas gentis e carinhosas palavras. Verei até onde e quando poderei ir. O andamento dirá se devo permanecer ou não. Já tive vontade de encerrá-lo, mas a saudade foi maior e resolvi voltar no meio do caminho. Perdi muitos elos queridos, não sei a razão. Mas a vida é assim mesmo, se resume em acasos, casos, ocasos e descasos.
O texto abaixo já foi publicado aqui em meados de 2004. Volto a repeti-lo para as novas amigas e novos amigos que surgiram neste espaço de tempo. Contudo, o poema é inédito.







INOCÊNCIA E SABEDORIA DE UM POVO

Saudável era ouvir o vaqueiro flagrar, narrar as coisas do dia-a-dia. Sobre a sorte de um indivíduo ser ou não abastado, falava: quem tem de ter tem que se dana; e quem não tem de ter se dana e não tem. Eram as fantásticas criações daquele homem fiel aos cuidados da fazenda. Histórias do sertão, da cidade, do sol e da lua. Histórias de um mar que não existia. E o sofrimento vivido na carne, a seca braba dos lugarejos, a vida de amarguras de um povo. Era um sujeito querendo aprender e apreender. Dizia ele, a Painhô, que a maioria trabalha e luta para a minoria saborear. E isso decididamente não estava certo. Contava tudo na simplicidade e candura que lhe eram peculiares. Misturava realidade versus ficção. Desabafava também: o homem humilde é honesto, na maioria das vezes. Cadê que eu tenho alguma coisa? Sou místico, religioso, mantenho fidelidade nos atos. Não tive meios para a instrução, mas sei de algumas safadezas... Ele, meu filho, continuou Painhô, exibia idéias exóticas, no entendimento de seu avô. Mas eram constrangimentos que saíam de uma vida atribulada, sem lazer nenhum. O único prazer que tinha era uma ruma de meninos pra criar. E como não podia ter controle para evitá-los, a casa ia se entupindo ano a ano.
A mulher, sempre servil, chegava à noite e dizia: vai precisar d'eu hoje, homem? Mas, cansado do trabalho, ele apenas respondia: hoje não, mulher. E ela, aliviada um pouco, comentava: então vou lavar somente o pé. Via-se, com isso, que não era uma pessoa que gostasse de muito asseio. Só quando ia satisfazer seu marido. E alimentá-lo de um sexo seco e bruto.
Certa vez, filho, ele me contou uma estória comovente: na época dos festejos natalinos apareceu um vistoso homem numa dita comunidade. Então o dito sujeito olhou ao redor e viu verdadeiras aberrações. Crianças pobres comendo barro na lama e aquelas barrigas inchadas de vermes. E, de um outro lado, meninos ricos brincando em suntuosas casas com belos presentes.
Eram, obviamente, famílias tristes x famílias alegres, pobreza x riqueza. Faces literalmente opostas. Portanto, ele perguntou: mas, o mundo não pertence a todos nós? E realizou um sonho na sua imaginação, tentando abreviar tal ocorrência calamitosa. A súbita transformação no utópico e alegórico aliviou a sua mente. Ele então pulou de felicidade. Era, lógico, a inocência falsa e quimérica de invencionices com sabor de verdade.
Do quarto avistei a lua, perto da janela, disse meu pai. Gupiara tornava-se pródiga em noites assim, pena que a 'bola de encher' subisse rápido, não ensejando maiores apreciações. Ficou, então, deste tamanhinho, um tico de nada no céu. E depois uma vasta nuvem cobriu nossos desejos.
As estrelas, os morros, o satélite. A cidadezinha lançou sua última visão. Mainhô e Tia Chica ressonavam. Eu idem, ainda na barriga de minha mãe, ufa! Painhô fechou a porta e Gupiara fechara novo dia.

ESPAÇO LIVRE


MORDACIDADE


De teu ventre saem
as labaredas que
apagam ambigüidades
de um amor disperso.

Numa voracidade
momentânea.


Bené Chaves

por benechaves às 08:27