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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
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castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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sábado, novembro 25, 2006

UM EPISÓDIO SUI-GENERIS




Éramos ainda jovens. E tínhamos saído de mais uma das reuniões do Cine Clube Tirol. Estava uma bela noite naquele sábado. Caminhamos com tranqüilidade entre árvores frondosas que ainda existiam e pretendíamos estirar a noitada em qualquer bar que se avizinhasse. Lembramos do Glacial, o barzinho de seu Oscar, que ficava a alguns bons metros de onde estávamos. Podíamos ir sem medo de assaltos, a cidade ainda oferecia segurança. As ruas eram pouco iluminadas, mas podia-se percorrê-las sem qualquer anormalidade em seu caminho. Pensávamos assim e assim teria de ser. Então fomos nos sentar em uma mesa gentilmente cedida pelo dono do bar, que ficava no começo da avenida Rio Branco descendo pelo Baldo até ao Alecrim ou subindo pela mesma até chegarmos na Ribeira. Estávamos em uma divisória de bairros. Em um glacial bar.
O seu Oscar era uma pessoa aparentemente calma, atenciosa, com uma barriga que mais parecia com o gorducho cineasta Alfred Hitchcock. E tinha um jeitão meio barulhento tipo o Orson Welles. O ineditismo dele era que despertava a pitoresca faceta de também beber algo com seus fregueses. Seria, portanto, a chamada 'parceria de contrários'. Ou seja: o dono e seus clientes quase numa mesma animação. Era uma figura! Dessas de que não apareceria nunca mais na urbe natalense. Fica o registro de pessoa tão comum entre nós todos que pretendíamos ir além de uma simples conversa de bar. E nunca mais cenas com estas se repetirão com os mesmos personagens.
Não sei o destino de seu Oscar, acho que continuou pouco tempo naquela vidinha. Pode até ter se retirado desta para melhor de tanto beber e tentar ganhar um pouco da sobrevivência. As pessoas são assim, desaparecem e nunca mais as vemos. Ficam somente as sombras de um bom passado e as lembranças como consolo.
Mas, naquela noite houve uma peleja, uma peleja entre dois filmes famosos. Um seria A marca da maldade, o outro Um corpo que cai. Justamente duas fitas de dois diretores que poderiam ter algo em comum com seu Oscar. Em comum, vale dizer, no sentido de certa aparência no tipo físico, nada a ver com a intelectualidade dos cidadãos de cinema. Inclusive porque acho que o seu Oscar não devia saber nada da existência de tais filmes e similares. Era um homem simples, acredito que de poucas letras. Ou quase nenhuma.
E começamos a disputa entre as fitas mencionadas. Fulano, o seu voto. Sicrano, o seu. Beltrano, diga seu favorito. Assim pedíamos o voto de cada amigo sentado em uma cadeira nada confortável daquele pequenino bar. O embate estava duríssimo. E seu Oscar parecia também torcer, entre cada fita selecionada ele tomava um gole de cerveja. E nós também.
Eu me lembro que votei em A marca da maldade. Porém Um corpo que cai avançava na preferência de alguns. Era um duelo também entre duas atrizes famosas, a Kim Novak e a Marlene Dietrich. Em termos de interpretação a segunda levaria vantagem, mas no quesito beleza a primeira venceria com boa folga. E aí estava se chegando ao fim daquela célebre peleja. Quem venceria afinal?
Era certo também que todos nós já estávamos mais pra lá do que pra cá. E tinha um amigo, de nome Palocha, que resolveu inovar o seu voto. Que por sinal seria o de minerva, já que a disputa estava empatada. E o pequeno homem levantou-se, abriu seu bocão já com bafo alcoólico, ajeitou os óculos que ameaçaram cair e ditou, com voz embaralhada: Um corpo da maldade.
Um corpo da maldade? Todos ficaram perplexos, imagino que alguns despertaram do torpor etílico e começaram a rir, rir. Riram sem parar. Palocha, tal filme não existe!, gritaram algumas pessoas mais atentas. E o dono da esdrúxula sentença apenas balbuciava para si. Acredito até que o seu Oscar acercou-se de nossa mesa e começou a rir também, embora soubesse vagamente do que se tratava. E a cada novo riso emborcava o conteúdo líquido na garganta adentro.
Mas, a bem da verdade, o Palocha até que sugeriu um belo nome para um filme. Mesmo sem querer. Depois da inusitada ocorrência, resolvemos fechar a conta (que já deveria estar acima do normal) e nos despedirmos. Dali cada um deveria seguir seu itinerário noturno ao encontro de sua residência. As estrelas pareciam faiscar nossos rostos. Nem sei bem como o Palocha chegou em sua casa, talvez investigando minuciosamente cada passada até o local indicado. O certo é que ele bebera mais do que os outros. E o certo também é que todos ainda ríamos enquanto caminhávamos em direção ao nascer de um novo dia. Resta hoje apenas uma imensa saudade do que se foi e não volta mais.

Muitos anos depois, resolvi juntar em um pequeno texto o que aconteceu naquela noite de um sábado enluarado. Nem me lembro bem se realmente estava enluarado. E o que segue abaixo faz parte de meu livro "Cinzas ao amanhecer"(2003), dedicado, o poema, claro, ao Palocha. Só que mudei o nome original e pesquei o título que ele dera naquele porre homérico.


UM CORPO DA MALDADE

Para Palocha

No bar Glacial, antônimo embate:
o policial gordo bêbado corrupto
aquele detetive em diligência
a nostalgia da velha amante
uma morte caída no telhado
o belíssimo corpo da maldade
incitando solitárias tentações.

No glacial bar, a exótica junção
racional e incontida, mesclando
a beleza da loira/morena vida.

Bené Chaves

por benechaves às 10:50