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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
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a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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sábado, junho 17, 2006


A partir de hoje estaremos publicando uma série de textos extraídos de autores célebres e famosos que viveram anos passados e que continuam a desafiar os tempos atuais. Alguns já foram publicados aqui, mas acredito que dizê-los uma segunda vez só poderá reforçar algo ao já conhecimento das amigas e amigos que estiverem conosco. E principalmente aos mais recentes. E entre um capítulo ou outro poderemos lançar algum conto ou mesmo alguma crítica cinematográfica. Esperamos que todos tenham uma boa leitura.


PALAVRAS QUE INQUIETAM (1)


Þ Muitos acreditam na existência de um ser superior, enquanto outros poucos ficam indiferentes ou ignoram, assim como também existem os agnósticos e os totalmente ateus. Mas, o certo (ou não?) é que foi criado um mito pelo medo do próprio homem. E a essa criação deram o nome de Deus, que se supõe ser uma divindade suprema para amainar o seu desespero ou sofrimento. Avaliem, então, se não existisse tal deificação, como não seria esse mundo, hein? Diria até que foi providencial e necessária para os que pretendem vivê-lo. E a presença, então, dessa divinização, se fez evidente. Afinal, já dizia Kierkegaard "que Deus é uma exigência do desespero, um postulado do existente".
Aqueles que tinham grande fé e esperança no universo, como o suposto profeta Isaías, clamando e afirmando achar que a "humanidade cessará de obrar mal, aprenderá a proceder bem, desejará a justiça e aliviará os oprimidos ", como também, com euforia e otimismo, dizer que "abaterei a arrogância dos orgulhosos e humilharei a altivez dos tiranos ", nada tiveram de resultado no que afirmaram, já que - apesar do próprio Isaías ter vivido (dizem) no ano 750 a. C. - ainda hoje não procede tal visão entusiasta. Pelo contrário, a cada instante vemos mais corrupção, violência, menos justiça, arrogância ao extremo e soberba dos tiranos. Quer dizer, a tão propalada profecia não vingou.

Þ E o chamado protetor da humanidade, Zoroastro, que viveu mais ou menos na época do anterior? Professava ele que " é preciso ser honesto, não só em pensamentos, mas em palavras". E atestando que o nosso dever "é ensinar amizade ao inimigo, probidade ao perverso e sabedoria ao ignorante", detestava a mentira e sabia que ela ajudava a regar a semente da falsidade. Arrematando depois com sabedoria que "o maior inimigo do homem é a sua cobiça, pois ela engendra o ódio, e o ódio gera a violência, e a violência traz a morte", absorvia-se na visão de um mundo melhor. Foi ingênuo e nada profético quando ditou seu conjunto de princípios, acreditando em seguida que a "vida será justa, sem dores e sem morte, livre do medo e da maldade". Palavras bonitas, porém palavras que viraram somente cinzas.
Acho que se os dois ditos profetas estivessem ainda vivos, não iriam suportar o insustentável peso de suas promessas verbais em vão e acabariam por entristecerem-se neste nosso vale de lágrimas.


Þ Já o sábio Confúcio também não foi levado em conta, pois dizendo que "serão reprimidas as maquinações egoístas, e não terão ensejo de renascer, os ladrões e traidores não infestarão mais a terra", teve (e tem) suas palavras totalmente ignoradas pela ação contrária de uma boa parte. Enquanto isso, Inácio de Loiola, que nasceu em 1491, afirmava categórico: " a ambição é a mãe de todos os males". Ao que João Calvino, não acreditando muito no ser humano, deu o lembrete falando ser "o homem de todo incapaz de salvar a si mesmo, pois ele é totalmente mau", afirmando depois que "o mal é o estado natural da humanidade, porque a soma de bem praticado não poderá resgatar a dívida inteira". E o mestre citado foi ramificando suas doutrinas, culminando com a exemplar conclusão: "se um soberano administra mal, perde o direito de governar".
Se este preceito último fosse levado a sério, não teríamos quase nenhum governante comandando ou administrando uma população, já que as malversações estão aí para se ver. E seria um dever de todos governarem sem corrupção ou propagandas enganosas, pois foram colocados ali para isso. Afinal, para que servem os gordos impostos que pagamos?


Þ E como existem os que não acreditam em nada, também existem aqueles que acreditam em tudo. Contrariando o filósofo aí de cima, George Fox, que nasceu no século XVII, disse com certo otimismo: "vi que havia um oceano de trevas e de mortes; mas também um oceano infinito de luz e amor, que fluía sobre o de trevas", propondo aos amigos entre si para ensinar-lhes que só existe no mundo todo um único templo - o coração dos homens. Já um sueco do século XVIII, de nome Emanuel Swedenborg, foi ainda mais longe na sua crença ao afirmar que "o amor é vida; a vida é amor, o amor é a própria vida de cada homem, isto porque nada existe na natureza que se não assemelhe à sua origem, o espírito". Acreditava ele que a matéria era unicamente um semblante, uma manifestação de sentimento. Concluía, então, eufórico: "a morte é apenas a continuação da vida".

Þ No começo do século XX, morria Mary Baker Eddy, que nascera de uma família anglo-escocesa de lavradores. Ela dizia que estava ao nosso alcance "abolir a pobreza, a enfermidade, a aflição...". Ensinava aos discípulos, corroborando opiniões anteriores, de que não há vida, verdade, inteligência, nem substância na matéria. Era uma mulher que difundia diariamente sua cota de orações e súplicas. E surgiu também, nascido em 1869, Mahatma Gandhi, que, com seu carisma, cumpria uma missão singular. Dizia ele: "uma vez que não temos o poder de criar, não nos assiste o direito de destruir". Numa possível vitória acerca da não-violência, cercava-se de confiança e arrematava de que "podem ser necessárias muitas gerações, mas no fim, o triunfo há de vir". Mostrando-se indignado com governos que iam de injustiça a injustiça, pagou caro pelos seus atos.

Þ Neste mundo de contrastes, opiniões díspares, do bem e do mal, do negro e do branco, do bom e ruim, do rico e pobre, das concentrações de lucros, dos poucos que vivem, dos outros que sobrevivem e dos muitos que apenas vegetam... Neste mundo de expressões idiomáticas (e também idiotas), do verso, inverso e também anverso, parece não haver espaço para a imparcialidade e racionalidade. É um mundo onde a cada dia nos decepcionamos com a falsidade e o egoísmo da parte de alguns que se dizem seres humanos.

Bené Chaves

por benechaves às 16:12