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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Mais um conto que apanho do livro Castelos de Areiamar (1984). Espero que o tenha modificado e reduzido sem grandes danos para a compreensão do mesmo. Se não tiver conseguido peço que me desculpem. Mas que tentei não resta a menor dúvida. Portanto, uma boa leitura para todos.




SEMELHANÇA


Abriram o curral e o gado entrou apressado. O porteiro voltava de uma espiadela e parou aos solavancos dentro do pequeno recinto. Atropelou-se, tomou fôlego, virou com medo do rebanho, roçou na parede. Esperava a chegada das reses famintas.
Uma porta foi aberta e de um em um o gado ferrado. Todos estavam preparados para a corrida, esparramavam-se no chão, ninguém sabendo o que fazer com a boiada, apenas instruíam para as tarefas. Os pequenos aguardavam a partida, enquanto os maiores eram enfiados no estreito corredor. O trabalho iria começar.
Suados e fatigados olhavam o infinito, viam um caminho demorado, cheio de atropelos, fiascos. Sabiam-se enganados debaixo do telhado quente, áspero. E, então, uma voz ecoou: todo santo dia essa caninga, estamos já acostumados.
O gado esperou que o homem viesse tirar o leite, estava impaciente. Os menores procurando qual a solução melhor. Acotovelavam-se e caíam no chão melado, sujavam a roupa esfarrapada, misturavam-se. Pro alto o tempo mudara de cor, acinzentava.
Nem sinal do barrigudo e eles cansados, inquietos. O local barulhento, a barriga seca, os filhotes sem forças, caídos no desespero. Um grito, então, ressou firme, fazendo todos se deslocarem. Aí o barulho aumentou, quase se mataram. Estrebuchando no curral, palpitando de excitação, a manada entrou receosa aos trancos e obedecendo a ordens. Lado de cá, por uma porta de madeira roída, uma pessoa de branco e coçando um bigode de arame, disse, voz baixa: bom-dia! E depois desapareceu no cubículo onde postava a figura de um nu, entrando no rumo de um eucatex listrado e apodrecido.
Os novilhos maltratados não comiam, esperavam de pé, alguns brincando naquela suja areia. Puxa mãe, venha ver os bois no cerrado, estão brigando. A pobre se lamentando, amanhã filho, será nossa vez, cedinho encurralados. No chão enxovalhado a água descobria um mau cheiro. Fora, um frio intenso.
O morador acordou sobressaltado, foi ao curral. Espantou-se: a cancela escancarada, o gado dentro, uns dormindo, outros de olhos arregalados. Mugiram ao ver o homem. A chuva caía grossa, pingos no chão deslizavam e atravessavam o prédio, ia se quietar no cantinho do muro. Ensopavam. Com uma perna só a mulher esquelética bateu a muleta no vidro, arrebentou a cara em frente e um jato de sangue correu na cerâmica.
O homem de branco e de rosto esfacelado deslizou sua mão entre as chaves e fincou-se de cócoras a folhear pequenas gravuras. Arranjou lã úmida e tapou o ferimento. Depois grunhiu: entre o que conseguir... Passos eram ouvidos no retângulo. O ambiente pareceu fantasmagórico e indecisões circundavam as pessoas desesperançadas. E entre diminutas brechas, algumas ali mijavam. Deitavam-se nos bancos e cobriam o corpo com o friorento ar, todas atordoadas.
Procurando apalpar a mãe, um menino esbarrou, chegou perto da soleira. Deteve-se e imaginou manobras invisíveis. O vidro impenetrável, decisivo. Ao lado, outras criancinhas rolavam no chão enlameado e fugiam de responsabilidades, a idade era todo prazer.
O boi bocejou preguiça, levantou-se e segurou o queixo apoiado no arame. Viu um espaço perdido e torceu a cabeça. Um pingo de lágrima desceu pela cara arredondada. A mulher chorou, lamentou, perdeu suas forças, o entusiasmo. Enquanto o vento varria uma poeira que subiu no telhado desabando pequenos cacos. E o frio fez todos encolherem arroxeados, subitamente imóveis. Alguém falou: dê um chute na porta, talvez consiga quebrá-la.
Preparavam o lance final quando uma parede ruiu ao lado. A poeira no ar a sufocar o ambiente. Entreolharam-se sem se verem. O homem baixinho, quase anão, enfiou os dedos no orifício da fechadura e foi surpreendido, agarrado aos puxões, a mão engatada no vidro. Voltaram apenas pedaços ziguezagueando um rastro de sangue no pavimento.
Era de esperar que o gado fosse estranhar a atitude do morador. Mas, ele permaneceu diante da boiada feito uma estátua. Nada fazia. Ouviu, então, um zumbido e virou-se espantado. O homem tinha medo, um terrível medo gravou seu rosto. Não fique parado, vamos, ande...
A fumaça desapareceu e apareceram três ou quatro mortos. O cidadão de branco ficou detido, pálido e infeliz. O pobre do gado ainda esfomeado, encolhido, aguardando uma ocasião melhor. No entanto, o portão do curral fora aberto e as reses famintas saíram cabisbaixas, lentas, as pernas bambas.
Bené Chaves

por benechaves às 08:11