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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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segunda-feira, novembro 14, 2005

Compartilho hoje com vocês do conto O Trem, inserido no livro Castelos de Areiamar (1984). Como sempre, tive de reduzi-lo também e fazer algumas modificações para encaixá-lo no espaço do blogue. Acho que tal edição não sofreu grandes danos. Tenham, portanto, uma ótima leitura.

O TREM


A fila enorme atravessando a rua. O atendimento era marcado pras sete horas e o povo já se impacientava. Quatro da manhã. Uma velhinha ao lado vomitava sangue e um velhote balbuciava às costas de um homem maduro dizendo... Sofrimentos, incertezas... Sim, pareciam trens de carga, aos tropeções. Teria de ser feito também um reparo nas fichas, não gostavam das antigas. E lá pras tantas diziam: são ordens superiores, vocês têm de obedecer. O danado do povo que aceitasse calado, ora bolas! Uns sacanas! Sentavam no chão sujo, esperando a vez que não chegava, todos desesperançados. Um remédio aqui, uma consulta ali, um exame acolá.
Iam pra casa fazer a comida. Doze horas e o feijão na panela com farinha e, às tantas, rapadura. Molhada no mulatinho. Menino de bucho inchado, verme na poça, na barriga crescida. No prato, uma água enlameada Uma hora pra diante, o cansaço e enfado, ninguém não agüentava aquilo, era uma vida safada. Desavergonhada até. Crianças choravam, gritavam e morriam na falta de comida, feito uns pobres diabos. Eram.
Vocês precisam endireitar essa fila, sentenciavam. Os pensamentos fervilhando cabeças. E o trem não andava, como se a máquina estivesse enferrujada, mal lubrificada, a fumaça subindo alturas. Parecia mais um monstrengo com vapor e sem maquinista. Então, desinteressaram-se.
Seis horas e os meninos dormiam. Um silêncio dominava, todos amoleceram, respiravam fadigas. Braços e pernas bambas, esticadas no cansaço. Uns filhos da mãe! Uma criancinha assustou-se, era fome. Estava no jejum diário, não parou mais de chorar. Ela ia e vinha, maltratando o estômago, contraindo suas paredes fracas, diminuindo a resistência, feroz e ávida. A voz debilitada.
Horas de agitação, afazeres. Carros atropelavam o franzino e comprido trem, de quando em quando desencarrilhava. Nada do atendimento, parecia estar ali fazia uma eternidade. Sim senhor! Uma eternidade de sofrimentos. Houve um rebuliço nos vagões e as fumaças se espalharam.Aquele trem não saía do lugar. Uma mulher olhou a tênue sombra na parede e baixou a vista, descrente.Sabia não resistir, a menina quase morta nos braços. Gritou. E começou a se lamentar, dizer verdades proibidas. Empalideceu.
Menino... Me dá esta panela! O feijão cozido e um tamborete servindo de mesa, todos sentados no chão. Enguliam, com u mesmo, alguns caroços e melavam a rapadura na água suja com farinha. Davam o goto sem gosto, forravam o que podiam, no meio um oco. A barriga pedindo mais. Doía. O pai comendo às pressas, contando e catando o feijão. A mãe acompanhando, homem, tenha calma, coma devagar.
O relógio batia as esperadas sete horas. Os restantes acordaram sobressaltados, enfim se daria a partida. O maquinista chegara com cara de sono. Pegou os trapos e saiu da linha, o trem encurtava. A engrenagem fazia o pequeno vagão folgar, era muito peso. Andava pausado, aos solavancos, de vez em quando emperrava, como se tivesse obstáculos nos trilhos. Depois uma arrancada desfeita, um descuido. Faltava lubrificação. Também pudera, só com um maquinista!... Era o feito. Passos de tartaruga.
Um, dois, três, quatro... Era bem a décima tanto, não sabia ao certo. O cartão já amassado e ela com raiva. Deu-lhe um tremelique. Despiu o peito e este espirrou, botou a boca da criança sem força pra segurar. Leite puro não tinha, apenas engano, água branca, chupe minha filha, talvez saia algo, qualquer gotinha. E a criança comendo ar naquele bico ralo, o tempo passando...
Os trilhos eram infinitos, o trem passava entre os desfiladeiros, a magreza adquirida dos passageiros, os ossos quase aparecendo. Morte por inanição! Saindo lento, maltratava os ocupantes, sem esperança de um destino, lugar seguro. Uns atropelavam os outros, todos apressados na cabina. Foi-se aos arrancos e esperneios, atabalhoado. Continuou sua marcha vagarosa, sem fim, horários. Sentiam na carne que aquela era uma vida torta.
O maquinista embromava numa direção errada. A mulher sem modos, segurando um trapo faminto, vergonha de uma vida sem futuro. Adormecera e roncava feio, um ronco de ódio. Gritavam lá de dentro: terminaram as fichas, agora só amanhã. O trem, então, não desencarrilhava, ficava parado, firme, desconfiado das palavras afirmativas.
Os impropérios começaram, todos revoltados a xingarem a voz anunciada. Vocês são uns canalhas, não têm sentimentos, covardes, assassinos. Estamos aqui desde a madrugada e esta porra deste trem não anda!, teria exclamado uma mulher já débil chovendo um escarro verde no rosto do áspero anúncio. Depois investiu contra o maquinista e o trem perdeu o controle, arrebatado, desembestado. Desceu linha abaixo e continuou o lento caminho. Não se sabe pra onde...


Bené Chaves

por benechaves às 21:05