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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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quinta-feira, outubro 20, 2005


Este conto faz parte do livro A Explovisão, lançado no distante ano de 1979. Fiz modificações necessárias e alterei alguns trechos, deixando-o menos longo.Compartilho com vocês e espero que tenham uma boa leitura.

VIDA, VIDA...


Deitado em uma cama estava um senhor de média idade. Gemia uma dor contínua. E ao redor pessoas falavam entre si com palavras entrecortadas ao som de um pequeno aparelho colocado na lateral. O homem estirado no sujo hospital parecia relegado à própria sorte. Ou ao próprio azar. Sua vida em frangalhos. Contorcia-se na ilusão de uma existência a se esvair. O silêncio a não ser respeitado, conquanto comentários eram feitos no cubículo de dimensões limitadas. Aproximei-me da cama e olhei para os olhos do cidadão. Sabia que não reconheciam ninguém. Aqueles próprios olhos tão vivificantes meses atrás. Apenas se enchiam de lágrimas, umas lágrimas de despedida no ambiente entupido da curiosidade alheia. O triste quadro exposto à visitação. "A vida é uma merda, como é lamentável a morte, um total desengano...", se desesperavam alguns da família. E o doente respirando com dificuldade, o balão de oxigênio perdendo efeito, valia. "Tá morrendo... Tá morrendo...". Um rebuliço sufocou o corredor do sujo hospital e todos se acotovelaram na indiscrição.

Lá fora a noite estava sombria. Nuvens esparsas sobrevoavam um céu opalescente. Existiam poucas estrelas, presumia-se que iria chover. O clima nostálgico e frio deixava o ambiente mais lúgubre. Saí do quarto e disseram lá de dentro: morreu! Segui pelo corredor com um nó na garganta e pensei: "tudo se acaba como um sopro, como uma vela derretendo-se". Cochichos rodeavam a cama e pessoas se olhavam perplexas. O ilustre cidadão que um dia recebeu flores quando nasceu, também o estava recebendo na sua morte. Era a dualidade dos opostos. E, depois disso, então, os dias amanheceram menos alegres...

Sei que a existência deve-se a um ato de prazer e violência. Possuímos, evidente, uma dose de tudo, pois o brutal está em nós. Falava e falava meio tonto, caminhando entre árvores secas, chamuscadas. Olhava-me a cada instante como se ali estivesse um espelho a projetar sua luz. E no meio uma multidão apareceu subitamente e pareceu-me revoltada, queria uma vivência eterna e terna. "O homem não suporta a velhice e nem a morte, somos contra tal imposição, o nosso coração e demais órgãos são uns assassinos", concluíam em debates e gritos. Atiravam pedras para o alto e apontavam armas para cima e disparavam. Depois faziam desenhos de peças de artilharia em papéis e urravam desesperados dando a impressão de desafiarem a Morte. Queriam uma guerra contra a mesma. Nem que fosse uma batalha de fantasia, brinquedo ou faz-de-conta.

Caminhei por uma rua estreita, estava meio alheio e entrei numa casa velha e enlameada de mau cheiro. Sentei-me na areia e estirei as pernas na água borrifada. Vi um rapaz olhando-me desconfiado dizendo que tentava também dormir. Na verdade, sabia, estava sendo jogado contra a imundície de uma vida. Pensei nos homens que lutavam por uma vida eterna e torci para que a vivência de alguns (poucos) não servisse em detrimento da sobrevivência de muitos. Disse algo sobre o cidadão que vi morrer e apodrecia igual àquele lugar. Apenas ossos em forma de gente, nada mais. Gritei: "você um dia foi gente!". Falei que o homem criava mitos pelo medo que tem de tudo. Então ele tem medo de sua própria criação e, obviamente, de si mesmo.

Voltei ao hospital. Vi a mesma cama vazia à espera de novo paciente. O ciclo continuava e se estabelecia. Ao redor enfermeiras me cumprimentavam em silêncio. E do lado de fora uma tempestade invadiu e balançou o prédio como faz com um coqueiro. Folhas agrediam as janelas de vidros embaçados. Corri e apelei para todos: "vão embora, vocês não estão doentes, tudo é uma farsa, todos estão bem de saúde, saíam, de pijamas, cuecas ou nus, porém saíam. Gritem, cantem..." Entrei no quarto de despejo e peguei um enorme livro já amarelado. Pedi que aquelas pessoas assinassem, no estranho registro, uma petição contra a Morte. E todos começaram a cantar: vida, vida... Um velhote se vestiu animado e botou as malas no braço. Outros o seguiram. A fila aumentou em um pulo só. Abriram caminho e enfrentaram o vendaval menos árduo.

As luzes se apagaram e o ambiente silenciou. Os quartos já estavam dormindo. Apenas eu acordara naquele momento. Estava todo molhado.

por benechaves às 22:05