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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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quarta-feira, setembro 14, 2005

Compartilho hoje com vocês do conto Codificação (tive que suprimir longas linhas, mas creio que o essencial não foi mexido), que faz parte de meu livro Castelos de Areiamar, lançado no longínquo ano de 1984. Uma boa leitura para todos.


CODIFICAÇÃO


- 049.892.104-25!
- Pronto!
- Apresente-se ao chefe.
- Pois não Excelência.
Um homem narigudo e de pescoço fino andava de um canto a outro no pequeno cubículo. Vestiu-se a saiu correndo. Iria começar o interrogatório, precisava largar às pressas. Na sala comprida foi vaiado e logo atirado ao isolamento. Subiu o batente e depois olhou para trás, vendo aglomerações o xingarem à distância. Sentou no birô largo e roído fitando os lados com a cara sisuda. E perguntou com desdém:
- Quem são vocês? - e ajeitou-se puxando a cadeira.
Na ponta da mesa um baixinho cutucava o nariz como se estivesse a arrancá-lo, o dedo voltando melado do escuro, enquanto na extremidade oposta um idoso cidadão olhava orgulhoso o desditoso rosto num espelho arrastado às escondidas de uma velha carteira. Mais adiante, no quadrado de pequenas dimensões, o sujeito desejado e senhor das atenções gerais observava as nervosas mãos e espetava as empoeiradas unhas, dando uma certa inquietude naquele homem de túnica preta.
- Defensor do acusado!
- Nome... 77.777
- E você aí de espelho...
- Eu? Acuso o réu.
- Nome... 55.555
- Estão todos prontos?
Bateu com o objeto de madeira na mesa e todos silenciaram, esperando, portando, o início do julgamento. Ele estava apressado como sempre (e aí contrariava a morosidade daquelas leis esdrúxulas) e abanando-se com inquietação, olhava irritado para a platéia. Vez ou outra suspendia a sessão e, depois, reanimado, pedia que falassem pausados, porquanto um velho de óculos no nariz batia com lentidão numa máquina desusada, de letras confusas. Todos tinham medo daquele homem sagaz, observador. E, então, iniciavam-se os duros debates, a pequena multidão enfurecida a ditar palavras desrespeitosas no recinto e sua Excelência a manejar os punhos como se estivesse dando bombeadas em uma câmara-de-ar. As testemunhas apareciam de quando em quando, achavam que o acusado poderia ser solto dali mais alguns anos.
- Bem!, começou a gaguejar o réu... Disse afinal: sou inocente! Depois baixou a visão e durante algumas horas fitou o tablado marrom com os olhos intumescidos.
- São evasivas!... - gritou o promotor, admirando ainda o rosto no pequeno espelho. Diariamente sentavam nas cadeiras enferrujadas, forros abertos pelas traças, os mesmos números devorados, exaustos. E pela décima vez no palco a coisa repetida, injulgada. Abaixou-se com lentidão e ficou a escrever no taco apodrecido:
"Um bando de hipócritas, farsas, tudo farsas, não somos gente, somos apenas números jogados, miséria, violência, eu engulo esses algarismos, como um por um".
Quando o juiz suspendeu a sessão todos permaneceram meses fora daquele pequeno palco de indagações desconfiadas. Anos depois novo júri, o número alterado, manchas pequenas nalgumas localidades, estava escurecido, marcado. Uns morriam no curso, inúmeros a tatear suas faces envelhecidas, seus cabelos brancos. Balbuciou para si quando viu um pedaço de papel na sua frente. Seria a sentença que já viria atrasada em dezenas de anos. Gelou os dedos e uma fria água escorreu na peça que segurava. O juiz que ficou em pé, quase corcunda do tempo, suspirou e ditou as normas. O acusado tinha sido condenado a passar seus últimos anos na cadeia. Houve um rebuliço total, mas, depois que a sala ficou vazia, os algarismos se juntaram e viram no espelho jogado ao léu suas caras esburacadas naquele final melancólico.
Então, deram com a cabeça no mesmo e o quebraram, cortando e retalhando os números um a um. E da túnica preta deixada em cima de uma cadeira, encharcou-a também com um sentimento de ódio. Espalhou o sangue nos olhos e urrou desesperado.
- 123456789101112131415! - Apresentem-se!
- Pois não!... Pois não!...
Os códigos eram carregados, aniquilados por determinações, uns aqui, outros mais adiante. Todos, no entanto, ficavam esperando ante a Lei. Porém, depois de um longo período, os algarismos se espalharam. Era uma noite fria e triste quando um velhote capenga e destruído articulou: "Fui um homem inocente e me trataram como um número culpado" teria dito para si, abaixando a vista e contando os paralelepípedos em volta do corpo.


Bené Chaves

por benechaves às 16:24