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Bené Chaves <>, natalense, é escritor-poeta e crítico de cinema.
Livros Publicados:
a explovisão (contos, 1979)
castelos de areiamar (contos, 1984)
o que aconteceu em gupiara (romance, 1986)
o menino de sangue azul (novela, 1997)
a mágica ilusão (romance, 2001)
cinzas ao amanhecer (poesia, 2003)
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sábado, julho 09, 2005

Compartilho hoje com vocês do conto Três Bocas, que faz parte do meu livro Castelos de Areiamar, lançado em 1984. E em razão disso, não teremos o Espaço Livre, que certamente voltará na próxima postagem.


TRÊS BOCAS


A MULHER:

Foi isso seu doutor, desse jeito mesmo que ele xingou e bateu a porta no meu rosto, quase caía escada abaixo. Então, tive de procurar outra saída pro coitado, agora encostado feito ferro velho, sucata, todo nome ruim. Depois, a cabeça dele virou por completo... Vá o senhor e veja com os próprios olhos a cena no pequeno vão do casebre. A poça de sangue e o menino dormindo nela como lençol envolvendo seu corpo magro.
- Uma no copo, pode encher...
Eu sozinha tendo de enfrentar a situação, se meu filho não estivesse doente... Reagir aos insultos? Não suporto coisalguma doutor, meus nervos tão uma pilha. Saí de casa as quatro da manhã, escuro, o galo cantando. Estamos em jejum, não comemos nada. Ele ficou caído no chão, esborrachado. Os meninos? Deitados no piso de areia... É de areia doutor, de uma que consegui na praia, um trabalhão da molesta, ufa! Pois é a nossa cama, a cachaça fez o monstro vender tudo, ficamos numa situação de penúria. Estou atrapalhada, nem sei mais o que digo, se o patife ficou em casa ou enfiado naquela bodega desgraçada. Uma confusão na minha mente, uma confusão dos diabos. Como estará meu filho, será que ele se salva doutor? Às vezes fico pensando que não tem jeito, o pobre naquela miséria estirado no chão feito cão sem dono. Pra uma mulher fraca como eu é demais, acho que desfaleço, não suporto. O que o senhor acha, fale doutor, tou escutando.

O MÉDICO:

O certo é que a senhora perdeu muito tempo nesse blá-blá-blá, mas, de qualquer maneira, tome este remédio e vá correndo ver seu filho, não espere um minuto, ouviu?
"Essa mulher parece meio maluca, nunca vi desespero igual". Minha senhora corra e cuidado, volte aqui amanhã. "Sozinho enfrentando milhares, darei conta?" Uns vão ter de voltar depois, não sei quando...
- Que mandem entrar o próximo!

O CURIOSO:

A gente tem de enxergar adiante também. Madalena mora com seu Queiroga num casebre, passam necessidade, possuem pouca coisa, como vocês sabem, gente pobre. Um triste dia...
- Tire esse menino daqui mulher, tá sangrando, sujando tudo - disse.
- O que foi, o que foi? - assustou-se.
E estava o coitado morrendo pela boca. Um soco que levou, dormiu e quando acordou... O menino tossindo, que diabo!
Mulher desavergonhada!, gritou, não vai trabalhar hoje? E o remédio? Cale a boca, vagabundo, vá curtir sua cana no inferno.
Deixou o homem embriagado e saiu no bairro afora, atrás do necessitado, um mínimo possível. Andou, andou e parou num posto de assistência, por volta das cinco da manhã. Resolveu enfrentar: - O doutor taí?
- Fique nesta fila, responderam.
Concordou e olhou umas quinze pessoas na frente, não dava pra encontrar o filho com vida, pensou. O jeito é esperar. Quis chorar, porém levantou a vista e olhou firme. Quanta gente, quanto desperdício!, exclamou-se a si própria.
As caras assombraram a pobre mulher e ela baixou a cabeça. Lembrou-se do filho e viu umas poças de lama no chão. Acordou sobressaltada.
- Aquilo é sangue! ? disse para a cara do menino.
Todos riram e se animaram um pouco, esperando uma eternidade. Ela tirou do vestido alguns papéis surrados e começou a cuspir, desenhar com a língua objetos de fábulas. Pregou a folha na parede e ficou a contemplar sua imaginação. As linhas eram vermelhas, fios de saliva saíam da boca. O tempo passando e a mulher desesperada, desse jeito não tem cristão que agüente. Tinha receio, não falava, esperando a vez que não vinha. Dez pessoas... Falta muito, o medo era o piolhento do marido não esperar, acabar com ela. Ignorante!
Sou testemunha de que ela gemia, gemia, o monstro bêbado, aos gritos, enfurecido. Impressionada, sozinha, essa hora os outros filhos brincavam na rua, soltos na buraqueira, na vivência de pobre entre maus tratos e desnutrição. Isso era lá vida de gente!
Nada da fila andar, estava padecida, chateada, o resto do dia esperando, impaciente. O sem-vergonha embriagado o dia inteiro, ralhando com os infelizes. Sujeitinho besta, duma figa, porcalhão, gritou ela um dia.
Ficou uma fera, pegou a jarra e meteu-lhe na cabeça. O talho na frente e cacos pra todo lado. O rapazinho acudiu e levou um soco nas costas, em cima de um pulmão. Pra não se meter, seu fedelho!
Desde este momento não pôde mais se levantar, ficou botando sangue às golfadas...
- Peste ruim, quero que você morra! Bater numa criança... E depois o safado ainda foi pra bodega.
Os da fila cochicharam, pensaram que dona Madalena estivesse louca, falando asneira sozinha. Transmudou-se, decifrou insultos. Estava em pandarecos, ia desmaiar. Desse jeito poderiam saber o que ela estava sentindo, uma cena ensaiada sem preparos.
Então o homem chegou bêbado e molhou os pés ao entrar, caiu esparramado, de cara enfiada na suja areia. O garoto sem forças, os braços moles, os outros admirados e sem ação.
A mulher foi colocada no consultório e fez seu relato. E foi isso mesmo o que sucedeu, pois a coitada de dona Madalena não chegou em tempo.
- Meu filho estirado no chão!, disse, pasmada, olhando para o menino já morto.
Passou por cima do marido dormindo e abraçou o filho como um último instante daquela vida miserável.
Bené Chaves

por benechaves às 17:21